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Crítica | Carisma (1999)

por Guilherme Rodrigues
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O conflito entre individualidade e o coletivo é um dos grandes motores da sociedade. Até onde a individualidade pode se expressar sem que atrapalhe o andamento do todo? O bem coletivo está acima de tudo, mesmo a custo da expressão individual? “As necessidades da maioria superam as necessidades dos poucos, ou de um.”, já dizia Spock em A Ira de Khan, o que faz sentido dentro da fria lógica vulcana, mas nem sempre é fácil determinar.

Esse “puxa empurra” entre o indivíduo e o todo ganha contornos inusitados em Carisma, obra do cineasta, Kiyoshi Kurosawa, lançada em 1999, quando Kiyoshi já estava sendo reconhecido como um grande nome do terror após Cure lançar seu nome internacionalmente. Há muitas similaridades entre os dois trabalhos, que lidam com policiais lidando com forças além de sua compreensão, em mundos sombrios e sempre no ritmo bem deliberado do diretor, que não tem pressa de chegar onde tem que chegar. Mas se no primeiro filme o grande elemento de tensão era levemente sobrenatural – o hipnotismo – em Carisma é algo puramente biológico, que é a árvore que dá título ao filme.

O longa tem como protagonista o policial Goro Yabuike (Koji Yakusho), que após fracassar em uma negociação de resgate, levando a morte tanto do sequestrado quanto do sequestrador, é dispensado da polícia, mas o pedido do sequestrador ficou em sua cabeça: na última conversa entre os dois, o criminoso tinha escrito em um papel “restaure a ordem do mundo”. Goro vai parar no meio de uma estranha floresta, onde três grupos estão em conflito devido a uma árvore, a estranha Carisma, que é diferente de todas as outras que compõem a floresta, embora o motivo nunca seja especificado. Kiriyama (Hiroyuki Ikeuchi) , um jovem fugido de um hospício, quer protegê-la a todo custo, enquanto a cientista Jinbo (Yoriko Douguchi) acredita que ela está envenenando a floresta e deve ser eliminada, enquanto um grupo deseja lucrar com a árvore.

Ao entrar em contato com todas essas facções, Yabuike passa a ser peça central na decisão sobre o futuro da árvore e da floresta, mesmo que seu estado mental esteja visivelmente instável, e isso se reflete claramente na estrutura do filme. Charisma se desenvolve principalmente por meio de uma série de diálogos filosóficos, acerca das interconexões entre vida e morte, que por alguns é entendido como uma coisa só, e também sobre a questão da individualidade versus o todo, visto que, por mais importante que Charisma seja, vale a pena que ela viva ao custo de toda a floresta? Kurosawa expressa a experiência de Yabuike nessa situação de modo um tanto desconexo, abrindo mão de cenas que conectam uma sequência a outra explorando o desarranjo mental do protagonista.

Para acompanhar os diálogos, Kurosawa investe em uma encenação que sempre contribui com as caracterizações desse grupos. Kiriyama é frequentemente visto em ambientes dilapidados, envolto em pesadas sombras, condizente com seu jeito mais sombrio e caótico, enquanto a cientista sempre é encontrada em locais mais claros e estáveis, enquanto Yabuike transita livremente por tudo isso. 

Carisma não está entre os trabalhos mais lembrados do diretor, como o já mencionado Cure, Pulse, entre outros. Talvez a estrutura mais solta do filme e o fato de que não há, exatamente, terror no filme, mas sim um senso de deslocamento das coisas, em que os eventos suscitam mais um estranhamento do que medo, acompanhado de uma forte discussão filosófica.

Charisma (Karisuma) — Japão, 1999
Direção:  Kiyoshi Kurosawa
Roteiro:  Kiyoshi Kurosawa
Elenco: Kōji Yakusho, Hiroyuki Ikeuchi,Ren Osugi, Yoriko Douguchi, Jun Fubuki, Akira Otaka, Yutaka Matsushige.
Duração: 104 min.

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