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Crítica | Carnaval (2021)

por Laisa Lima
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O que define o brasileiro? A cultura popular enraizada nas obras de Glauber Rocha? As metrópoles tardiamente urbanizadas à la São Paulo Sociedade Anônima (1965)? Ou as vielas e becos de Cidade de Deus (2002)? De matriz miscigenada, o povo tupiniquim não se restringe a definições simplórias. Entretanto, internacionalizando tal questão, é possível que o Brasil se enquadre, sim, em pequenos estereótipos. Um deles é o carnaval, uma festa, de fato, nacional. Confetes, serpentinas, fantasias e axé compõem um universo onde só existe gente feliz, dançante e cheia de cor, constituindo um caráter perfeito para exportação. Carnaval (2021), de Leandro Neri, concorda com esse padrão e o incute em sua essência, reciclando a ultrapassada e já remoída fórmula de que, para quem vive ou pisa em nossas terras, é de lei fazer da vida uma festa.

Em tempos pandêmicos, é de um consciente saudosismo relembrar de outros carnavais. Porém, para Nina (Giovana Cordeiro), a festividade é um presente. Embora a traição de seu namorado tenha repercutido virtualmente, fazendo de sua imagem uma chacota, a jovem não desiste de seu objetivo: ser uma digital influencer de sucesso. Focando nisso, Nina viaja, no esquema de permuta (uma venda de sua figura em troca da viagem), juntamente com suas três amigas, para o maior antro carnavalesco de todo globo: Salvador, na Bahia. Em meio à animação e à confusão da conhecida como “cidade de todos os Santos”, o grupo se envolve em inesperadas ocasiões que põem à prova sua união e, principalmente, sua lealdade. A caça por likes de Nina, por exemplo, será uma das maiores barreiras que a amizade do quarteto enfrentará, considerando a preferência da personagem ou pelas amigas ou pela fama, já que ambas se revelam dissonantes. Logo, o desafio está na persistência do mantimento dos sentimentos que as quatro nutrem umas pelas outras, enquanto o revés do espectador é aprofundar-se em uma superfície tão rasa quanto a perseguição por followers no Instagram. 

Uma vaga lembrança à Paraísos Artificiais (2012) é capaz de vir à cabeça visto o enredo, ainda que entendido superficialmente, de Carnaval lidar com o Nordeste, suas festas e a juventude. No entanto, seria equivocada a união de paralelos tão distintos: ao passo que o filme de Marcos Prado preza por uma entrada no psicológico dos personagens, o trabalho de Neri segue na contramão disso. Apesar de ter um intuito que transita entre a sororidade, a importância das raízes e o conhecimento pessoal, a película pouco consegue sustentar um deles, a começar pela história de suas protagonistas. Retendo clichês sobre clichês, o entrosamento das amigas se distancia ao cultivar em cada uma, propostas narrativas convencionais no convívio de personalidades opostas, indo desde a nerd que se expressa através de elementos batidos do mundo geek, como Star Wars, passando pela amiga extrovertida e desbocada, e chegando no “alívio dramático” da obra. Mayra (Bruna Inocencio) é responsável pela conexão emocional de Nina e pelo fundo reflexivo que o filme tenta obter erroneamente. 

Não apenas delimitando o espaço de atuação de seus integrantes os dando papéis sem desdobramento nenhum, a obra se coloca em uma caixa no quesito ir além. Equivocadamente, as situações têm respostas imediatistas e o contrapondo delas está sempre em algo mutável e, muitas vezes, duvidável. Nina sempre atinge o que quer sem um esforço plausível ou uma insistência maior, ao mesmo tempo que algumas coexistências estão lá para a continuidade da trama, ressaltando a presença de um “verdadeiro baiano” aos olhos preconceituosos, Salvador (Jean Pedro), e do “verdadeiro cantor de axé” aos olhos superficiais, Freddy Nunes (Micael Borges), sendo os dois peças meramente ilustrativas. Como é comum no longa-metragem, o fundo moral dos eventos também não é muito profundo, haja vista o engajamento fútil da ida das protagonistas à Bahia. E, ainda que o filme anseie transformar isso em uma crítica, pouco há fundamento para sair de uma lição de moral forçada.  

Para tudo isso, um tom de comicidade é dado para fortalecer a leveza da película, que tem a pretensão de ser uma comédia que se aventura em momentos tocantes. A estética quase sempre saturada, com o céu azul da Bahia e as cores dos abadás como modelos do que é destacado, além da predileção pelas paisagens nordestinas, já garante a aparência vívida que uma comédia suave geralmente tem. Todavia, o timing cômico e os acontecimentos que eram para ser risíveis, essencialmente ocorridos no hotel no qual as jovens estavam hospedadas, não funcionam. Mesmo assim, o drama procura por sua lacuna. Abrangendo menções às religiões de origem africana praticadas no Nordeste (e em todo Brasil) e sua ligação com uma das amigas, a maneira com que estas são acolhidas no longa-metragem foi digna de cenas respeitosamente belas, mas que se fizeram isoladas. O núcleo em que tais sequências estão inseridas marca uma investida no acesso sentimental do público, que não se concretiza pelo fato de serem esporádicas e não terem um trabalho de desenvolvimento por trás.

Carnaval converte em algo fílmico um problema da contemporaneidade: o favoritismo pela aparência midiática nas redes sociais e o esquecimento dos vínculos concretos. Por certo, é uma questão a se pensar. No entanto, a maneira com que o longa-metragem se guia – pelo caminho menos tortuoso – faz de sua proposta, inválida. Isso porque o mesmo entrega uma futilidade em quase todos os pontos, tais quais a elaboração escassa do temperamento dos personagens e das adversidades que eles enfrentam. No final de tudo, não existe um sentimento de animação ou esperança que percorra, após a obra, a mente da audiência. Até porque, a festança baiana e todo seu charme não é suficiente para empolgar ou reconsiderar uma experiência cinematográfica. Afinal, não há permuta que faça um momento ser esquecido.  

Carnaval (Carnaval – Brasil, 2021)
Direção: Leandro Neri
Roteiro: Leandro Neri, Luisa Mascarenhas, Audemir Leuzinger
Elenco: Lipy Adler, Nikolas Antunes, Giovana Cordeiro, Bruno Inocencio,Gessica Kayane, Rafael Medrado, Samya Pascotto, Flavia Pavanelli, Jean Pedro, Micael Borges
Duração: 94 min.

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