Crítica | Carnificina Absoluta

Não tem muito tempo que a Marvel Comics prometeu que iria dar um tempo em suas mega-sagas, algo que a editora efetivamente fez, mas, simultânea e sorrateiramente intensificando os chamados “eventos” que nada mais são do que sagas em escalas menores, ainda que por vezes elas não deixem nada a dever em escopo para as sagas propriamente ditas. Carnificina Absoluta é um desses eventos que tem todo o jeito e pretensão de ser uma saga, inclusive com uma enorme quantidade de tie-ins (nada menos do que oito publicações extras de uma ou duas edições e mais duas edições da mensal Amazing Spider-Man e quatro de Venom), envolvendo praticamente todo o Universo Marvel. Só para o leitor ter uma ideia da mecânica ensandecida da editora, no mesmo dia em que Carnificina Absoluta acabou, dois outros “eventos” começaram: Marvel 2099, que pretende revitalizar o futuro distópico originalmente introduzido em 1992 e Aniquilação: Scourge, continuação das duas sagas cósmicas que receberam o título Aniquilação primeiro entre 2005 e 2007 e, depois, com o subtítulo Conquista, entre 2007 e 2008.

No entanto, para manter minha sanidade e para ser 100% transparente com o leitor, a presente crítica leva em consideração apenas as cinco edições dedicadas de Carnificina Total que contam a história completa, ainda que alguns detalhes aqui e ali venham obviamente dos tie-ins, mas nada que realmente afete a compreensão do todo. No entanto, é importante notar que esse é um trabalho capitaneado por Donny Cates o autor vem se notabilizando por reformular profundamente a mitologia dos simbiontes desde que embarcou no título solo de Venom em julho de 2018, resultando nos arcos Rex e O Abismo que revelaram (ou retconaram, para ser mais preciso) a existência de um deus dos simbiontes de bilhões de anos de vida (e que o Surfista Prateado enfrenta na sensacional minissérie Black) e de um filho pré-adolescente para Eddie Brock. Portanto, embarcar em Carnificina Total sem conhecer pelo menos esses arcos não é recomendável (até porque eles são muito bons) ainda que, com um esforcinho, eu desconfio que seja possível ler o evento sem conhecimento prévio algum.

Seja como for, Carnificina Absoluta, como o nome indica, traz de volta o completamente insano Cletus Kasady, o Carnificina, só que, dessa vez, “vestindo” o simbionte-dragão Grendel, que lhe dá poderes próximos do divino. Seu objetivo é recolher os códices, que são traços que todos os simbiontes deixam no DNA de seus hospedeiros, de forma que ele possa reconectar-se com a mente coletiva dos seres espaciais e, com isso, acordar Knull, o tal deus dos simbiontes que está adormecido no coração do planeta dos simbiontes conforme os eventos vistos em Rex (viu, eu disse que é melhor ler os arcos de Venom antes). Como praticamente todos os personagens mais importantes – e alguns nem tanto – do Universo Marvel já foram hospedeiros, nem que por pouco tempo, de algum simbionte, todo mundo acaba sendo afetado pelo evento, já que Carnificina passa a controlar e a transformar boa parte dos super-heróis em fusões de simbionte com humano. Venom, com a ajuda do Homem-Aranha principalmente, precisam enfrentar essa gigantesca ameaça, que conta, ainda, com Norman Osborn como “segundo em comando” de Carnificina devido ao seu estágio atual de loucura completa depois que se tornou o Duende Vermelho.

Quem conhece Donny Cates sabe o que esperar: exageros extrememos. E ele entrega justamente isso. Mas, por outro lado, é só isso. A pancadaria come solta ao longo das cinco edições principais do evento sem que momentos narrativamente significativos realmente ocorram até a segunda metade do último número que, mesmo assim, permanecem sem explicações e com toda a pinta de que o que lemos foi apenas um prelúdio do que está por vir, em um resultado que, da mesma forma que me frustrou, pode frustrar muita gente que esperava algo minimamente fechado. Mas há qualidade nas doideiras que Cates escreve e ele sabe prender a atenção do leitor mesmo com relativamente muito pouco acontecendo, o que torna a leitura agradável, ainda que, em última análise insatisfatória e, poderia até dizer, enganosa considerando o final completamente em aberto (e absolutamente previsível, só para usar o modal do título).

Mesmo com muita energia e criatividade para esbanjar, o autor não consegue nem de longe barrar aquilo que ele mesmo construiu ao longo das mensais de Venom, pelo que Carnificina Absoluta parece apenas mais do mesmo, e isso já considerando as várias transformações por que passam diversos personagens ao longo das inchadas 186 páginas. Em outras palavras, depois de exagerar tudo o que queria exagerar em Venom e também na minissérie do Motoqueiro Fantasma Cósmico, Cates deixa o frescor de lado e reempacota suas tresloucadas criações com outro papel e vende novamente a mesma coisa, apenas trocando o preto de Venom pelo vermelho de Carnificina.

Falando em vermelho, o colorista Frank Martin escolheu belíssimas tonalidades para pintar as páginas do evento, mantendo-as quase que uniformemente vermelhas, mas sem agredir o leitor com um Pantone berrante. Ele sabe ser comedido quando precisa, mas a explosão vermelha nas páginas é belíssima, algo que, obviamente, também é responsabilidade de Ryan Stegman, que vem acompanhando Cates desde o começo dessa reformulação do Venomverso. O artista tem traços fortes, detalhados e chamativos, com leves “deformações” anatômicas para criar efeitos de primeira, como quando desenha o Homem-Aranha, mesmo em poses relaxadas, da maneira mais flexível e esguia possível sem ficar estranho. Da mesma forma, o Aracnídeo, muito como o vemos em Homem-Aranha Superior (que Stegman também desenhou uma boa parte), ganha olhos com grossos e muito expressivos contornos pretos que destacam positivamente o personagem. No entanto, por vez Stegman se empolga demais e desenha splash pages ou meias-páginas de ação que são confusas demais, com muito acontecendo ao mesmo tempo que acabam embaralhando a visão e tornando tudo muito genérico. Por sorte esses problemas só existem aqui e ali e não são exatamente muito sérios.

Carnificina Absoluta é uma pancadaria divertida, mas que não só não acrescenta muita coisa ao Venomverso, como parece ser apenas um prelúdio e uma rearrumação de tabuleiro para a continuidade do trabalho de Cates nas edições mensais de Venom ou, quem sabe, em mais outro evento desse tipo, algo como “Carnificina Absolutamente Máxima” ou algum título exagerado desses. Se o leitor quiser uma diversão descompromissada, porém, a combinação das insanidades de Cates com a bela arte de Stegman com as cores de Martin acabam sendo um prato cheio.

Carnificina Absoluta (Absolute Carnage, EUA – 2019)
Contendo: Absolute Carnage #1 a 5
Roteiro: Donny Cates
Arte: Ryan Stegman
Arte do flashback da edição #5: Mark Bagley, John Dell
Arte-final: JP Mayer, Ryan Stegman (#4), Jay Leisten (#4 e 5)
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Danny Khazem, Devin Lewis, Nick Lowe
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 07 de agosto a 20 de novembro de 2019
Páginas: 186

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.