Crítica | Carnival Row – 1ª Temporada

Travis Beacham teve seu roteiro de A Killing on Carnival Row comprado pela New Line Cinema ainda em 2005, somente para ver sua criação entrar nos intermináveis círculos do inferno de uma produção audiovisual, com nomes como Guillermo del Toro e Neil Jordan se interessando, mas depois se afastando do material. Foram necessários 10 anos de idas e vindas e a mudança radical no mercado com entrantes de peso do mundo do streaming para que a obra finalmente visse a luz do dia, agora pela Amazon Prime Video, em uma grande aposta do gigante do varejo no gênero da fantasia.

Beacham foi mantido no projeto e, juntamente com René Echevarria, que começou sua carreira nesse meio ainda como roteirista de Star Trek: A Nova Geração, desenvolveram o roteiro original em uma ambiciosa temporada de oito episódios que imagina um complexo mundo em que, em razão de guerras trazidas por diversas facções humanas em Tirnanoc, terra de criaturas fantásticas como fadas, pucks (que são como faunos encorpados), centauros e outros, uma gigantesca onda de imigração delas para cidades humanas vem acontecendo há anos. A cidade de Burgue, que parece a versão steampunk de uma Londres vitoriana, é o foco da narrativa, onde as “critchs”, como são chamados com extremo preconceito, vivem mal e porcamente fazendo trabalhos que mais ninguém quer. Qualquer semelhança com o mundo real em que vivemos não é mera coincidência, claro.

Usando esse caldeirão efervescente como pano de fundo, a narrativa então mistura, em partes iguais – ou nem tanto – uma investigação de um serial killer à la Jack, o Estripador, conspirações palacianas no estilo Macbeth e um amor impossível que lembra Romeu e Julieta. O resultado é um caldo ralo nas primeiras colheradas, mas que vai ganhando corpo na medida em que a refeição avança, chegando a realmente satisfazer o comensal, somente para, então, revelar que tudo não passou de um prólogo para algo ainda mais ambicioso e potencialmente bem mais complexo. Em outras palavras, Carnival Row é um bela surpresa de queima lenta que exigirá um pouco de paciência até a história engatar de verdade.

O coração da temporada fica no amor passado e ódio presente entre o inspetor Rycroft Philostrate (Orlando Bloom), ou Philo para os íntimos e a fada Vignette Stonemoss (Cara Delevingne). Ela chega em Burgue depois de muito sofrimento e descobre que Philo, seu grande amor que conhecera durante a guerra e que ela passou sete anos achando que tinha morrido, está vivinho da silva. A relação de amor e ódio entre os dois funciona bem para ajudar o espectador a conhecer melhor esse mundo movimentado e frenético, mas bem dividido entre os que podem tudo, os humanos, e os que nada podem, as “criaturas”. É também nesse lado que a investigação dos horrendos assassinatos por Philo começa a ganhar corpo e revelar-se cada vez mais estranha, com Bloom e Delevigne até fazendo esforços para se mostrarem atores acima do mediano com boa vontade, mas ganhando apenas aquela medalhinha de “participação”.

Longe da sujeira das mortes que pontilham a cidade, temos o chanceler Absalom Breakspear (Jared Harris, sempre sensacional), que simpatiza com os não-humanos sendo manipulado por sua esposa Piety (Indira Varma) que faz de tudo para que uma profecia particularmente positiva sobre seu filho Jonah (Arty Froushan) venha à fruição. Aqui, o roteiro trabalha muito bem o jogo político de um parlamento dividido e barulhento que faz a mímica do parlamento britânico, com o rival de Absalom, Ritter Longerbane (Ronan Vibert) lutando para reduzir ainda mais os direitos das criaturas.

Essas duas linhas narrativas permanecem sem tangenciamento por muito tempo, exigindo paciência que é recompensada com seu completo entrelaçamento lá pelo sexto episódio, quando já estamos mais acostumados com os meandros desse universo tão diferente, porém tão igual ao nosso. Mas é também dessa reunião de histórias que percebemos que Echevarria e Beacham têm um plano de pelo menos médio prazo, já que a temporada se encerra com o status quo completamente alterado, quase que prometendo um segundo ano “zerado”, mas sem deixar aquele tipo de cliffhanger ridículo como “quem é o assassino” ou “quem na verdade é Philo”. Há um encerramento para essa primeira história, ainda que a Amazon já tenha dado autorização para uma segunda temporada.

Entre esses dois lados da temporada, há uma terceira história que literalmente corre por fora e que diz respeito à chegada de Agreus Astrayon (David Gyasi), um puck milionário, a um bairro exclusivamente humano, o que logo causa aquele furor preconceituoso nojento que dá vontade de voar na tela para socar os personagens. Os alvos dessa raiva toda são os irmãos Ezra (Andrew Gower) e Imogen Spurnrose (Tamzin Merchant), o primeiro um alcoólatra que perdeu todo o dinheiro da família e a segunda uma garota mimada, mas inteligente que, mesmo a contragosto, vê em Agreus uma oportunidade. Essa história também cresce bem na temporada, mas ela não conversa com as duas narrativas acima a não ser bem no comecinho, o que causa um certo estranhamento e a confirmação de que a aglutinação de tudo só acontecerá mesmo lá para a frente (pelo menos assim eu espero).

Na porta giratória de arquétipos narrativos que são conjugados em uma temporada coerente, mas cheia de conveniências narrativas, especialmente a “revelação final” (a carta!) que exige uma dose particularmente alta de suspensão da descrença, o que realmente chama a atenção é o visual arrebatador. Com uma fotografia muito bonita privilegiando o sépia, o azul e o verde, com uma pegada neo-noir, os episódios logo capturam a imaginação, algo que é aprofundado pelo exemplar trabalho de design de criaturas que faz muito uso de maquiagem e próteses práticas, com retoques em CGI, que emprestam vida e veracidade ao cenário expandido por computação gráfica. Apesar de haver uma multitude de seres diferentes, o foco fica mesmo nos pucks e nas fadas, mas cada povo ganha suas características bem próprias e, entre pucks e fadas, vemos um enorme esforço para se criar a maior quantidade possível de variedades, que vão desde o tamanho dos chifres e as cores das asas, até a textura dos rostos e as proporções físicas. Vê-se muito claramente um carinho e um cuidado extraordinários para criar um realismo fantástico para esse mundo, mesmo que, por vezes, o CGI torne as coisas um pouco artificiais, notadamente em algumas “limpezas de rosto” aqui e ali e em criaturas integralmente criadas no computador como os lobisomens do terceiro episódio, que é um belo flashback para quando Philo e Vignette se conheceram.

Carnival Row começa lentamente, depois acelera demais e acaba exigindo demais do espectador em termos de suspensão da descrença, mas o material apresentado é rico e instigante ao ponto de nem mesmo a ausência de química e habilidades dramáticas do casal principal atrapalharem muito. Sem dúvida é uma temporada prólogo de uma história potencialmente muito maior, mas Echevarria e Beacham têm minha curiosidade agora.

p.s. Alguém devia dar um prêmio para quem quer que tenha criado os nomes dos personagens dessa série!

Carnival Row – 1ª Temporada (Idem, EUA – 30 de agosto de 2019)
Criação: René Echevarria, Travis Beacham
Direção: Thor Freudenthal, Anna Foerster, Andy Goddard, Jon Amiel
Roteiro: René Echevarria, Travis Beacham, Marc Guggenheim, Peter Cameron, Ian Deitchman, Kristin Robinson, Stephanie K. Smith
Elenco: Orlando Bloom, Cara Delevingne, Simon McBurney, Tamzin Merchant, David Gyasi, Andrew Gower, Karla Crome, Arty Froushan, Indira Varma, Jared Harris, Caroline Ford, Alice Krige, Ariyon Bakare, Maeve Dermody, Jamie Harris, Waj Ali, James Beaumont, Tracey Wilkinson
Duração:

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.