Home TVTemporadas Crítica | Carol’s Second Act – A Série Completa

Crítica | Carol’s Second Act – A Série Completa

por Leonardo Campos
142 views (a partir de agosto de 2020)

Cheia de ganchos para continuidade e com uma história interessante abordada ao longo de seus cômicos 18 episódios, Carol Second Act é uma série da CBS que estreou em 2019 e infelizmente não ganhou continuidade depois da exibição de sua última unidade dramática em março de 2020. Com uma divertida trama sobre recomeços e segundas chances, o programa flertou com o tema dos dramas médicos por meio da ironia, numa mescla de sarcasmo com o ponto de partida, ao mesmo tempo que os abraçava. Patricia Heaton é a intérprete da protagonista, a Dra. Carol Kenney, uma ex-professora de Ensino Fundamental aposentada que após o divórcio, decidiu estudar novamente e se graduou em medicina. A sua chegada ao Loyola Memorial Hospital é para a função de residente, algo que confunde os outros colegas estagiários no empolgante e dinâmico primeiro episódio, já engatilhado para discussões sutis sobre ageísmo, expostos nesta série criada por Emily Halpern e Sarah Haskins.

Na faixa dos 50 anos, a Dra. Kenney é uma profissional que sofre preconceito de uma sociedade que determina prazo de validade para as pessoas mais idosas, considerando-as inúteis quando as mesmas ainda possuem contribuições de ordens variadas para destinar ao mundo. É um mal que acomete homens e mulheres, mas para o público feminino, é ainda pior. Separada do Dr. Richard Kenney (Kelsey Grammer), a médica é mãe de Jenny Kenney (Ashley Tisdale), jovem que trabalha para a indústria farmacêutica e circunda constantemente pelos corredores do hospital, sempre a pedir conselhos, paquerar um dos colegas da matriarca de sua família desconfigurada diante dos padrões. Em sua prática cotidiana, a Dr. Kenney precisa lidar com o rigor de sua supervisora, a Dra. Maya Jacobs (Ito Aghayere), profissional que não enfrenta problemas com a idade, mas por ser negra, enfrenta batalhas que os demais personagens não precisam se preocupar cotidianamente, tópico que ainda gera muita polêmica.

Entre uma situação engraçada e um momento mais contido, fagulhas de crítica são expostas pelos diálogos e ações, muito cabíveis ao programa. Para quem pensa que o panfleto domina a comédia Carol Second Act, ledo engano. Esses conflitos sobre idade, racismo, dentre outros, são embutidos de maneira sutil e debatidos com graça, cabendo mais ao espectador interpretar essas camadas que transformam o humor em algo além de uma mera exposição de piadas engraçadas sem conteúdo. Importante ressaltar que essa é uma leitura minha, permitida pelo que o programa oferece. Para outros, talvez, a série seja apenas um amontoado de situações engraçadas dentro de um hospital, o que de fato também é, pois em seus episódios em torno dos 22 minutos de duração, o tom farsesco satírico, a busca por independência da protagonista e as confusões amorosas e profissionais dos médicos e demais personagens tornaram a primeira e única temporada da série um feixe de situações e tipos leves, carismáticos, verdadeiramente divertidos e responsáveis por deixar saudades para quem espera continuidade face ao cancelamento.

Em termos estruturais, Carol Second Act se apresentava da seguinte forma: a Dra. Kenney precisava ser chamada à atenção pela supervisora, haja vista o excesso de emoção em suas práticas que quase sempre, salvavam o dia de todos, numa entrega grandiosa para os pacientes por parte da protagonista, interessada em encontrar-se diante do novo caminho trilhado, mas também influenciada por sua postura geralmente maternal para lidar com tudo e com todos. Com um ótimo timing para a abordagem cômica da série, Patrícia Heaton é uma atriz que conseguiu magnetizar as atenções ao longo dos 18 episódios, delineando o lado cênico e as ações de todos os demais atores e personagens. Na mira da invisibilidade feminina na terceira idade, um tema inflamável e constantemente discutido na mídia, a protagonista da série centraliza as piadas que inclusive, não possuem nada de inovador, mas que não precisam disso quando o habitual é realizado de maneira bem conduzida, sem grandes ofensas ou piadas muito “proibidas”.

As piadas, vale destacar, são todas perigosas, mas sempre embutidas de autocrítica. Elas chegam por meio do Dr. Caleb Sommers (Lucas Neff), o mais inseguro e bobo do grupo de residentes, da ácida e divertida Dra. Lexie Gelani (Sabrina Jalees), do arrogante e bonitão Dr. Daniel Kutcher (Jean-Luc Biladeuau) e até mesmo do já experiente Dr. Stephen Frost (Kyle Machachlan), interpretado pelo ator veterano que vai disputar espaço no coração da Dra. Kenney com o Dr. Lewis (Patrick Fabian), médico que chega mais próximo ao final, aparentemente parte de conflitos se a série tivesse ganhado um novo ano. Jake (Adam Rose) interpreta um médico bobo, nerd ignorado pelos demais, com presença razoável em cena. Dennis (Cedric Yarbrough) é o enfermeiro chefe, homem que possui espaço privilegiado e adentra nos dramas pessoais e profissionais dos novos médicos por meio de conselhos ou intervenções.

Em suma, todos personagens com espaço equilibrado ao longo dos episódios, divididos de maneira justa para fazer com que haja oportunidade para os coadjuvantes de fato participarem do programa que na seara das situações médicas, apresenta um jogador teimoso que insiste em continuar no esporte mesmo depois dos resultados de seus exames, um influxo considerável de pacientes com intoxicação alimentar durante o período natalino, a chegada de acidentados após uma maratona num local próximo, uma idosa febril e bem mal-humorada, além das punições para quem não cumpre as regras, coisas do tipo “coleta de fezes” e acompanhamento de exames laboratoriais, coisa que os residentes não querem fazer, consideradas menores. Há a divertida “zebra”, situação médica rara que permitirá ao responsável por desvendar o dilema, assinar um artigo para uma publicação importante, a contar seus métodos e procedimentos, etc.

Ademais, mesmo que tenha apresentado um padrão já estabelecido e talvez exaurido em outros programas, Carol Second Act é uma comédia que merecia, tal como a sua protagonista, uma segunda oportunidade. Não aconteceu, mas isso não impede que o espectador se divirta com os episódios da única temporada, a maioria dirigido por Pamela Fryman, comandante de nove unidades da série, isto é, a sua metade, toda padronizada pelos demais responsáveis pelo setor. Ari Berkowitz, dominante na sala de roteiristas, assina 17 episódios, escritos em parceria com a dupla de criadoras, material que ganhou boa direção de fotografia por Chris La Fountaine, cenografia de Amy Feldman e direção de arte de Conny B. M, setores importantes para o estabelecimento do clima hospitalar e suas paletas azuladas em contraste com o branco bastante dominante. Ah, e para finalizar, o clima lembra a saudosa “comédia médica” Scrubs.

Carol’s SecondAct – A Série Completa  (Idem, Estados Unidos/ 2019)
Criação: Emily Halpern, Sarah Haskins
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Patricia Heaton, Ito Aghayere, Lucas Neff, Jean-Luc Bilodeau, Sabrina Jalees, Ashley Tisdale, Kyle MacLachlan, Cedric Yarbrough
Duração: 22 min. (Cada episódio – 18 episódios no total)

Você Também pode curtir

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais