Home FilmesCríticas Crítica | Caros Camaradas – Trabalhadores em Luta

Crítica | Caros Camaradas – Trabalhadores em Luta

por Frederico Franco
556 views (a partir de agosto de 2020)

Cabeça fria, coração quente. Endurecer, sem jamais perder a ternura. Lemas que marcam adeptos de correntes comunistas desde os anos de ouro URSS até às décadas mais recentes de nossa história. Essa ideia parte de um ponto central da gênese marxiana que busca se distanciar da dicotomia razão versus emoção; sem paixões irracionais ou a racionalidade escrava dos desejos. A dialética apresenta uma versão dos fatos na qual dever e desejo são elementos indissociáveis. Tese e antítese, posteriormente dando origem à síntese: uma combinação de existência na qual razão e emoção existem por suas diferenças, sem propósito de se anular. Mais curioso, ainda, é trazer esse debate para uma obra com viés abertamente anti-comunista, mas que encontra no tensionamento razão versus emoção seu principal calcanhar de Aquiles. Caros Camaradas é, antes de qualquer coisa, vazio: sem cabeça e sem coração.

O sistema nervoso do filme de Andrei Konchalovsky é constituído de uma aberta crítica ao governo comunista da União Soviética em sua totalidade. A forma que isso se dá, no entanto, beira a um pastiche mal feito. O discurso em si é raso, uma caricatura ocidental dos anos 1960 no leste europeu: a clássica representação de uma atmosfera fria, composta por adeptos comunistas despidos de alma, como máquinas cuja única função é a defesa do partido. O modo como o diretor inaugura suas cenas é um retrato específico de sua preguiça discursivo-narrativa; algum cidadão critica o governo (ou até mesmo o já falecido Stálin) para, logo em seguida, sofrer uma dura e agressiva represália de algum “fanático” comunista. A mise en scène também não se faz muito útil, nem criativa. Sua única função é expor a diferença entre revolucionários frios e árduos combatentes do regime. Caros Camaradas parece não ter autoria: é aquilo que Truffaut, em seu célebre Certa tendência do cinema francês, chamaria de “filme falado”, um realismo psicológico que parece não ter domínio total do veículo cinematográfico; é apenas um meio discursivo.

A caricatura do militante comunista estende seus tentáculos até a protagonista do filme, Lyudmilla. Forjada como uma escultura da cortina de ferro, sua vida é o Partido. A articulação formal de Konchalovsky é uma grande incógnita no que diz respeito à personagem principal. O começo é promissor, quando toda a encenação é entregue às vontades de Lyudmilla, tornando-se o centro das atenções do filme. É um artifício decente, mas que não se mantém nem até o fim da primeira metade da película. Existe uma clara barreira formal entre uma ideia que torna Caros Camaradas uma fenômeno intragável: o diretor claramente não decide entre um retrato personalista ou uma abordagem de maior caráter histórico. No primeiro caso, não consegue criar sequer uma atmosfera de interesse, ou até mesmo intimidade, com o núcleo central dos personagens; no segundo, utiliza-se de uma câmera insípida, que não se propõe a uma abordagem ampla do tema, mas sempre, através do viés liberal, tenta dar dimensões maiores àquilo que retrata. É uma câmera que julga? Que oprime? Que denuncia algo? Não é nada. Som e imagem não são nada mais nada menos que uma estagnação de ideias. A mistura público/privado, não funciona, é um tiro que sai pela culatra. Parece tentar emular Cidade da Vida e da Morte, de Lu Chuan, mas não agride, nem afaga: apenas tenta um pouco de tudo e acaba por ser coisa nenhuma.

Não cabe a esse texto se tornar uma ata sobre os incontáveis usos de desonestidade intelectual de Konchalovsky utilizados para desmoralizar as várias conquistas do proletariado durante o período do governo socialista soviético. A cabeça do filme é um ambiente oco, banhada por ares comuns à ofensiva neoliberal do século XXI. As caricaturas não se perdem ou são subvertidas, são assumidas como o ponto de partida de seus personagens. A própria rigidez da mise en scène perante a inexpressividade das figuras em cena é um recurso óbvio, que se esgota e rapidamente entedia. A paixão que falta, aqui, é a presença do autor. Bebe muito da fonte do também reacionário George Orwell para construir seu texto, porém deixa de lado a câmera. A direção engessada de Konchalovsky transforma o filme em uma experiência pouco agradável, construindo um universo genérico.

Existe um momento no qual o diretor consegue, finalmente, dar alma a seu filme. A cena central de Caros Camaradas, uma repressão de protesto por alguns agentes do governo: é coração. Ao invés de exibicionismo, o diretor acerta em trazer a tensão da sequência para dentro de um pequeno café. Durante a atuação policial, vemos Lyudmilla perdida até encontrar refúgio em um pequeno estabelecimento. E é de uma pequena janela, em um enquadramento nada convencional, que acompanhamos o desenrolar do protesto. Alguns corpos caem, outros correm. O ambiente causa estranhamento e uma sensação de claustrofobia. A questão da perspectiva em profundidade que marca a referida cena é surpreendente e só transforma esse momento em mais caos. Estamos longe do acontecimento, mas vemos de perto seus reflexos. O grande problema: dura muito pouco. O espectador nem ao menos tem chance de aproveitar o único instante de controle de Konchalovsky sobre a mise en scène.

Caros Camaradas é esquecível. Um filme que não consegue se manter enquanto filme, apenas como discurso raso. Sua síntese é um vazio estético, que só é capaz de brilhar aos olhos de alguns através do apelativo anticomunismo. Imprecisões históricas, artificialidade do texto e desinformação; durante a década de 1960, a URSS viveu um de seus últimos grandes momentos econômicos oriundos da política de industrialização stalinista e não vivia envolta de pobreza e fome, como afirmam os personagens de Konchalovsky. Por outro lado, não há coração. Tudo é tão engessado e artificial que nem ao menos consegue criar um pathos decente. Não há catarse, não há identificação. Caros Camaradas é um fiel retrato, isso sim, do insustentável discurso neoliberal que domina os meios de comunicação, que busca bloquear uma solução revolucionária para o caos social instaurado na fracassada sociedade capitalista.

Caros Camaradas (Dorogie Tovarishchi!) – Rússia, 2020
Direção: Andrei Konchalovsky
Roteiro: Andrei Konchalovsky, Elena Kiseleva
Elenco: Yuliya Vysotskaya, Vladislav Komarov, Andrei Gusev, Yulia Borova, Sergei Erlish, Dmitry Kostyaev, Alexander Maskelyne, Ivan Martynov, Evgeny Zelensky, Olga Vasilyeva-Nazarova
Duração: 120 min.

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