Crítica | Carrascos (2019) #1: Estou em um Barco

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Carrascos (ou Marauders, no original) é o segundo título a ser lançado a partir de House of X e Powers of X e, considerando seu roteirista, o que menos me interessava. Afinal, Gerry Duggan, um dos queridinhos atuais da Marvel Comics não é, nem forçando a barra, um bom escritor. Os únicos momentos em que ele consegue não estragar uma história é quando pega algo completamente descerebrado como Vingadores Selvagens.

No entanto, como Carrascos não parece ser lá um título muito importante dentro de Aurora de X (Dawn of X), o mega-projeto para repaginar os mutantes capitaneado por Jonathan Hickman (que tem o cargo de Head of X na publicação, aliás), o sofrimento é, digamos assim, menor. Chego até a desconfiar que Hickman, que deve ter tido voz na distribuição dos títulos derivados de sua maxissérie, tinha consciência disso e escolheu a dedo o que entregar a Duggan.

E vejam, Carrascos não é horrível e nem mesmo ruim. É, pelo menos nessa primeira edição, passável, e muito mais pela premissa geral ser estranha do que por culpa do roteirista. Na HQ, descobrimos logo na segunda página que Kitty Pryde não consegue atravessar os portais de Krakoa que são exclusivamente dedicados a mutantes. Essa situação remete a um passado anterior ainda à fase de Hickman perante os X-Men, quando Tony Stark, em Wolverine: Adamantium Agenda, de 2018, não só descobre que o Sr. Sinistro havia copiado os DNAs de todos os mutantes do mundo (algo finalmente desenvolvido em House of X/Powers of X), como nota que um mutante aparentemente importante não era um mutante de verdade, mas sim alguém “feito” para parecer um. Tudo leva a crer que Kitty Pryde é essa não-mutante que parece mutante, algo que mudaria radicalmente sua origem e sua história.

Para minha frustração, porém, uma questão tão importante como essa não é o foco de Carrascos. Ao contrário, isso não só fica em segundo plano, como o texto de Duggan empresta uma leve camada cômica ao assunto que amplifica uma sensação de deboche que não convence em momento algum. Não vemos nem mesmo Tempestade, a grande mentora de Kitty, preocupar-se com a situação.

(1) Kitty descobrindo que não pode usar os portais de Krakoa e (2) fazendo um belo e doloroso uso de seus poderes e de uma arma.

Paralelamente, Emma Frost, líder do Clube do Inferno, agora transformado em uma empresa (Hellfire Trading Company) com o objetivo de transportar os remédios milagrosos que Charles Xavier prometeu à humanidade em troca do reconhecimento da nação mutante, recruta Kitty para ser uma espécie de bucaneira não mutante para resgatar mutantes das nações que não reconheceram Krakoa e que proíbem a imigração de seus cidadãos mutantes para a ilha viva. A premissa é interessante, mas não sua forma de execução.

Por alguma razão inexplicada, o modo de transporte eleito para essa tarefa é um navio. Considerando a tecnologia de ponta disponível aos mutantes, atravessar os Sete Mares para salvar mutantes seria bacana somente se estivéssemos lendo uma história da série 1602. Seria muito mais crível colocar Kitty e sua equipe em um jato moderno voando para lá e para cá, algo que daria acesso imediato a países que não tenham acesso ao mar, algo que costuma ser um problema intransponível para navios.

Por mais que seja em tese irresistível uma premissa baseada na imagem de piratas, esse artifício é bobo demais, mas que Duggan leva até as últimas consequências, com Kitty até mesmo manejando uma espada comum. Fica anacrônico, o que é interessante, mas também fica bobo, quase cômico, o que é bem menos interessante. E isso sem contar que seu time, por enquanto composto de Homem de Gelo, Tempestade e Pyro (o original recém-ressuscitado), além de Lockheed, claro, e em breve também Bishop, é poderoso demais, o que retira um pouco o fator dificuldade da história.

Matteo Lolli ficou encarregado da arte e ele entrega um trabalho bonito, de traços simples, com cores vivas por Federico Blee que amplificam a atmosfera anacrônica de pirataria cinematográfica. No entanto, tenho problemas com a forma com os personagens são desenhados, todos sempre com rostos muito novos, quase inexistindo diferenças entre Kitty e Emma Frost ou até mesmo Wolverine. Isso faz parte de uma mania da editora em transformar todos os seus personagens em adolescentes ou jovens adults, e a arte de Lolli é particularmente problemática nesse aspecto.

Carrascos talvez funcionasse melhor como uma minissérie, pois não sei se há história para ser contada de maneira contínua. Seja como for, espero pelo menos que, nas próximas edições, o uso de um navio seja bem justificado e, principalmente, que a natureza dos poderes de Kitty – agora Kate – Pryde sejam bem explicados.

  • Obs: Voltarei a Carrascos quando o primeiro arco for finalizado.

Carrascos #1: Estou em um Barco (Marauders #1: I’m on a Boat, EUA – 2019)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Matteo Lolli
Cores: Federico Blee
Letras: Cory Petit
Design: Tom Muller
Editoria: Chris Roberson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 23 de outubro de 2019
Páginas: 38

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.