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Crítica | Carro Rei

por Rodrigo Pereira
586 views (a partir de agosto de 2020)

Zé Macaco em frente ao Carro Rei com seguidores agachados.

Existe uma cena muito famosa no filme O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy em que Burgundy, interpretado por Will Ferrell, diz algo como “bem, isso escalou rapidamente” ao falar sobre uma situação que mudou muito de repente. Conforme a trama se desenrolava em Carro Rei, não conseguia parar de pensar nessa frase e em como ela descrevia bem o que estava assistindo.

Dirigido por Renata Pinheiro, o filme acompanha Uno/Ninho (Luciano Pedro Jr.), um jovem capaz de se comunicar com carros desde seu nascimento. Após a aprovação de uma lei que proíbe a circulação de automóveis com mais de 15 anos nas ruas de Caruaru, cidade onde se passa a história, o rapaz teme pelo fim da empresa de táxi de seu pai e vai ao encontro de um antigo Fiat Uno que conversava durante sua infância e seu tio Zé Macaco (Matheus Nachtergaele) em busca de ajuda.

A ideia central que a obra propõe é sobre o antagonismo entre dois mundos: o moderno e o sustentável. Não à toa vemos o jovem possuidor de um dom único e, de acordo com desejo de seu próprio pai, herdeiro da empresa de táxis optando por cursar agroecologia e se envolvendo com a produção sustentável de alimentos. É a partir dessa escolha e da relação com Amora (Clara Pinheiro de Oliveira) que a diretora estabelece as diferenças entre dois universos aparentemente tão diferentes e excludentes entre si. A aprovação da lei citada anteriormente, porém, acaba por envolver Ninho cada vez mais no mundo das máquinas, afastando-o de sua amiga e criando um deslumbre com todas as possibilidades que ele, seu tio e o antigo Uno (agora reformado e rebatizado de Carro Rei) são capazes de alcançar.

É nesse ponto que a frase de Burgundy começou a figurar em minha mente, pois a figura do automóvel acaba ocupando a posição de um vilão maléfico, seduzindo Zé Macaco para seu lado e criando uma espécie de seita capaz de fazer tudo que seu mestre ordenar (inclusive, eliminar os “inimigos” sustentáveis). Apesar da mudança inesperada na história, ela funciona para demonstrar o que a modernidade, representada pelas máquinas, está fazendo com o mundo. Não é somente o avanço tecnológico inerente à raça humana, como Zé Macaco tanto reivindica, é a destruição da natureza, a resistência no debate da sustentabilidade e a morte da subjetividade do ser humano, brilhantemente representada na cena dos vários mecânicos na oficina.

Esse mostra-se como o foco do filme e julgo que o faça muito bem, mas, como vemos em seu início, não é o único debate que a direção tenta fazer. Quando Ninho ainda é uma criança, vemos uma forte discussão entre seus pais sobre a influência de Zé Macaco no sobrinho e também se ele deve ou não continuar trabalhando na empresa da família. A discriminação sofrida por ele vinda de seu cunhado é uma forma de começar a refletir sobre o preconceito contra o diferente (ou quando alguém não é exatamente como julgamos que deveria ser). E a dor que isso causa deixa marcas profundas muito bem expressas quando, anos após esses acontecimentos, Zé Macaco diz “eu detesto quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia”.

Há também a tentativa de estabelecer o conflito geracional representado na relação de Ninho com seu pai. Enquanto o primeiro pretende seguir o caminho da agroecologia, o segundo sonha com um filho formado em administração para tocar a empresa de táxis, gerando fortes discordâncias e estremecendo o vínculo entre os dois. Esse embate de visões de mundo, tão comum de ser encontrado, seria outra maneira interessante de discutir o foco estabelecido pelo filme. Digo seria porque, assim como o ponto do preconceito há pouco mencionado, é somente apresentado pela direção, mas descartado logo após estabelecer esses interessantes temas (o mesmo acontece com Mercedes, interpretada por Jules Elting, em que há pouca exploração sobre as diversas formas de se amar, algo tão bem representado por ela).

Mesmo com esse incômodo de trazer outros assuntos e não aproveitá-los até finalmente desenvolver o foco da obra, Carro Rei nos traz uma importante (e diria até essencial) reflexão acerca do tipo de mundo que queremos construir. O ser humano, ao longo de sua história, já se mostrou capaz de existir em ambos os mundos, porém somente um deles tem enorme potencial de nos robotizar, eliminar nossas individualidades e nos levar à extinção. É, talvez, o grande dilema desta geração.

Carro Rei — Brasil, 2021
Direção: Renata Pinheiro
Roteiro: Sérgio Oliveira, Renata Pinheiro, Leo Pyrata
Elenco: Matheus Nachtergaele, Luciano Pedro Jr., Jules Elting, Clara Pinheiro de Oliveira, Tavinho Teixeira, Okado do Canal
Duração: 97 min.

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