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Crítica | Carruagens de Fogo

por Ritter Fan
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Enquadrado entre duas sequências em câmera lenta de jovens correndo na praia com a inesquecível trilha-tema de Vangelis ao fundo, que, juntas, formam um dos mais icônicos momentos da Sétima Arte, Carruagens de Fogo conta a história real de homens muitos diferentes conectados pelo amor pelo esporte e o desejo de ganhar. Hugh Hudson, dirigindo seu segundo longa de ficção e Colin Welland em seu primeiro roteiro solo para o cinema entregaram uma obra impactante sobre esporte, fé e obsessão que mesmo quem não a assistiu consegue reconhecê-la.

Trabalhando narrativas paralelas cujas conexões temáticas abundam enquanto as práticas permanecem raras até o final, o filme conta a história real do devoto cristão escocês Eric Liddell (Ian Charleson) que deseja ser missionário e o judeu britânico Harold Abrahams (Ben Cross) que sofre preconceito mesmo tendo conseguido seu lugar na prestigiosa faculdade de Cambridge. O primeiro corre por seu amor a Deus e, o segundo, para lidar com o anti-semitismo, tendo as Olimpíadas de Paris de 1924 como objetivo.

O risco de um roteiro como esse, contando histórias separadas e conectadas apenas por seus respectivos pano de fundo – atletismo, obsessão e religião – é não dar tempo para que o espectador crie conexões maiores com os protagonistas, com um literalmente competindo com o outro por tempo de tela. E, de fato, a direção de Hugh Hudson por vezes cai na armadilha de focar demais em um, esquecendo do outro, especialmente quando recorrer a elipses para fazer a narrativa trafegar de 1919 até 1924 para o clímax duplo (mas separado) na Cidade Luz. Diferente de Abrahams, que tem um ecossistema de colegas para enriquecer sua história, aí incluído especialmente seu treinador Sam Mussabini (Ian Holm), além de ter que lidar com o já citado antissemitismo velado e institucional, Liddell é uma figura essencialmente solitária que tem em sua religião seu arrimo de vida.

Portanto, Carruagens de Fogo é uma obra que, mais do que muitas outras por aí, depende dos trabalhos dramáticos da dupla principal para realmente trazer a necessária identificação com o público. Se Cross ou Charleson (que faleceu muito cedo, aos 40 anos, em 1990) não funcionassem, o filme desmoronaria sobre sua própria estrutura arriscada e, de certa maneira, desconfortável. Mas a escolha do elenco foi certeira e os dois, cada um de sua maneira muito peculiar, fazem todo o trabalho pesado e literalmente carregam o filme sobre seus ombros, com ajuda da já mencionada trilha sonora progressista de Vangelis, apenas um ano antes de repetir a dose em Blade Runner.

Charleson interpreta seu Liddell como um homem resoluto e feliz com a escolha que fez que, na verdade, não é uma escolha, mas sim a única possibilidade de vida. Correr é, apenas, a manifestação divina em seu corpo e tudo o que ele é faz é para a glória de Deus. Ele carrega essa cruz sem arrependimentos e mágoas e está pronto para imediatamente largar tudo o que mais ama se o que ele tiver que fazer for contra o que acredita. Sua tortura interna vem justamente da tensão provocada por sua crença e pelas exigências do mundo real, por assim dizer, que se materializa mais fortemente na fita com sua recusa em correr aos domingos, o que efetivamente o tiraria da mais importante competição. Ainda que todo esse conflito prático não tenha sido bem trabalhado por Hudson e Welland, que simplesmente jogam o assunto, sem qualquer preparo, em meio à narrativa, o conflito psicológico e moral é espetacularmente bem executado por Charleson.

Cross, por seu turno, constrói um Abrahams irrequieto, que sabe que ser o melhor é a única maneira de provar seu valor e de vencer aqueles que o segregam por sua religião. Compreendendo que Liddell é naturalmente melhor do que ele no atletismo, Abrahams recorre aos serviços de um treinador, algo visto como antiético, mas que ele não hesita em fazer, dando azo a uma bela relação profissional entre ele e Mussabini. O arco do personagem é tecnicamente mais bem resolvido do que o de Liddell, sem obstáculos problemáticos como um roteiro que não sabe muito bem o que fazer para que a fé seja comprovada. Abrahams tem uma evolução fluida, um conflito organicamente inserido em sua evolução como atleta e Cross, assim como Charleson, tem a performance de sua vida.

Carruagens de Fogo é, talvez, menos do que a soma de suas partes, mas o resultado final, mesmo assim, é uma bela história de superação em diversos níveis que torna a produção um daqueles marcos cinematográficos inesquecíveis. Sem dúvida, um dos mais intrigantes e desafiadores filmes que tem o esporte como temática de fundo.

Carruagens de Fogo (Chariots of Fire, Reino Unido – 1981)
Direção: Hugh Hudson
Roteiro: Colin Welland
Elenco: Ben Cross, Ian Charleson, Nicholas Farrell, Nigel Havers, Ian Holm, John Gielgud, Lindsay Anderson, Cheryl Campbell, Alice Krige, Struan Rodger, Nigel Davenport, Patrick Magee, David Yelland, Peter Egan, Daniel Gerroll, Dennis Christopher, Brad Davis, Richard Griffiths
Duração: 125 min.

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