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Crítica | Carta a Freddy Buache

Godard se recusa a fazer filme institucional.

por Michel Gutwilen
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Para comemorar o aniversário de quinhentos anos de sua fundação, a cidade de Lausanne,  na Suíça, contratou, provavelmente, o pior profissional possível para representar os interesses de uma prefeitura que esperava um vídeo institucional: Jean-Luc Godard. Antes de explicar, vale dizer, para quem vier a ler este artigo fora de contexto no futuro, que sua motivação reside no recente falecimento do cineasta francês (13 de setembro de 2022), ocasião em que foi dada aos escritores desse site a oportunidade editorial de falar sobre um filme de JLG. Logo, há uma decisão-chave no próprio ato de escolha de uma amostra em toda sua filmografia. Entre os 9 longas e 10 curtas (ou seja, pouquíssimo), Carta a Freddy Buache me pareceu a decisão apropriada por alguns fatores. 

Primeiramente, porque se na própria morte de Godard há uma ideia de subversão, graças ao suicídio assistido que faz dele senhor de sua morte, nada mais justo escolher um filme que represente, desde sua gênese, uma subversão contra desejos alheios que não sejam o do próprio diretor. Em consequência disso, surge um outro fator para a escolha: em Carta a Freddy Buache, descobrimos sobre a própria figura Godard, protagonista deste filme, escutamos sua visão de vida e também o que significa, de fato, fazer Cinema para ele. Não menos, importante, algumas outros fatores: porque escolher um filme seu fora do período dos anos 60 da Nouvelle Vague também significa jogar luz para um hemisfério de sua filmografia não tão visado popularmente, assim como optar pelo recorte de curta-metragem mostra como JLG sempre conseguiu ser complexo mesmo com tão poucos minutos disponíveis (o que dizer de Je Vous Salue, Sarajevo, com seus 2 minutos?).

Há um momento de Lettre à Freddy Buache em que o diretor justifica sua recusa em fazer o filme pretendido pela cidade e que merece citação direta, traduzido livremente aqui: “Este filme ainda não atingiu a superfície. Ele ainda está no fundo das coisas. Você [Freddy Buache, diretor da Cinemateca Suíça, para quem o filme-carta é endereçado] e eu somos muito velhos e o Cinema vai morrer logo, muito novo, sem entregar tudo aquilo que podia. Precisamos ir logo para o fundo das coisas. É uma emergência.” Eis outro motivo para a escolha deste precioso curta que data de 1982: quarenta anos antes de deixar este mundo, Godard já reconhecia a proximidade de seu fim no plano terreno, fazendo com que ele não quisesse perder mais tempo com a superficialidade do fazer cinematográfico, como se fosse preciso voltar às raízes fundamentais e básicas do Cinema e do Mundo, investigando as coisas profundamente, para revelar uma nova Verdade. Portanto, a escolha de falar sobre Lettre à Freddy Buache também advém desse curta representar uma tentativa de comunicação e legado urgente de alguém que acha que vai morrer em breve, como se o seu assunto fosse tão importante de ser investigado quanto as últimas palavras de um morimbundo em uma cama — a Rosebud de Godard?

O primeiro aspecto a ser observado de Lettre à Freddy Buache é um desejo explícito de Godard por sair do documentário comum, do lugar onde vivemos, para tentar examinar o mundo cientificamente. Voltemos à frase citada inicialmente: sair da superfície e chegar ao fundo das coisas. Como o próprio também admite: a cidade é uma ficção, assim como são os movimentos da multidão, enquanto o verde, o céu, a floresta e a água são novela. A ficção é uma necessidade humana de embelezar o mundo. Como seria o mundo, então, sem ficção, mas ao mesmo tempo sem documentário? Deste embate, parece haver um direcionamento: é preciso despir o mundo e suas imagens de significados, reais e fictícios para observá-los da forma mais pura possível, apenas como um estudo de geometria de cores, como se este olhar fosse depois retribuir algo em troca, que não podemos enxergar na superfície.

Deste modo, Lettre à Freddy Buache se compõe como um estudo científico que, segundo Godard, busca o centro da energia. Se JLG parece estar sempre alguns passos à frente do Cinema ao buscar uma reordenação anímica dos estado das coisas, constantemente decretando sua morte para fazer renascê-lo de uma outra forma, quando o próprio admite que não basta nem mais o documentário ou a ficção para olhar uma cidade, talvez seja porque uma resposta por essas vias já tenha sido esgotada. Então, sua câmera passeia pelo concreto da cidade, acompanhando o sentido das formas geométricas que existem nela, assim como também também ordena seus movimentos (norte, sul, leste e oeste) de acordo com essa passagem de uma cor para a outra (do verde de uma árvore para o chão de concreto cinza para as águas azuis). Toda essa hipnose visual força o espectador a reeducar seu olhar, olhando para a cidade sem a beleza da ficção e ao mesmo tempo sem a frontalidade do documental, mas da maneira mais pura (o “fundo das coisas”) possível.

Godard reconhece a todo tempo que quem comissionou seu filme ficará furioso com ele, mas ressalta que, mais desonesto do que não cumprir a ordem seria cumpri-la, pois é preciso de cinco anos de luz para fazer um filme como o pretendido. Na impossibilidade de fazer o que foi pedido, surge, então, outro filme: na busca pela energia central, neste movimento de cima para baixo e de baixo para cima, alguma Lausanne escondida há de surgir . Mais do que qualquer tentativa institucionalizada na mão de um filmmaker moderno, Godard provavelmente fez uma contribuição maior para a história de Lausanne do que os seus prefeitos poderiam imaginar. Enquanto um governo e seus desejos são temporários, o cinza, o concreto e as formas da cidade são eternas, tal como a natureza e suas cores ao seu redor. Como já disse Lubitsch, se você sabe como filmar montanhas, água e o verde, você sabe como filmar pessoas. 

Lettre à Freddy Buache (1982) — Suíça
Diretor: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Elenco: Jean-Luc Godard
Duração: 10 mins.

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