Crítica | Cartas Anônimas (Sombra do Pavor)

Entre os anos de 1917 e 1922, na cidade de Tulle, França, mais de 100 cartas anônimas foram enviadas para diversas pessoas, denunciando os mais absurdos segredos dos habitantes da cidade. As cartas receberam grande atenção da imprensa e não muito tempo depois, um tratamento dramático escrito por Louis Chavance, que nunca conseguiu emplacar o argumento para a produção de um filme. Isso até o diretor Henri-Georges Clouzot adquirir o projeto e, a partir dele, fazer a sua própria adaptação para o que viria a ser o originalmente intitulado O Corvo, filme de 1943 que acabou causando alguns problemas para o cineasta, por ter sido produzido pela Continental Films, uma empresa alemã da França Ocupada.

Depois de O Assassino Mora no 21, Clouzot se sentiu muito mais à vontade na criação de mistérios com várias camadas, estratégia que é utilizada com bastante sucesso neste Cartas Anônimas, também conhecido aqui no Brasil como Sombra do Pavor. Em uma pequena cidade do interior da França (que o diretor expõe como “em qualquer lugar”) cartas anônimas são enviadas por alguém que assina como Le Corbeau (O Corvo). Nelas, vê-se um grande ódio e acusação ao médico Rémy Germain, que supostamente tem um caso com Laura, jovem esposa do idoso psiquiatra local. E há também a maior acusação de todas, a de que Germain pratica abortos ilegais. Com esse ponto de partida, o espectador acompanha a corrente de difamação que, dependendo do destinatário, ganha ares de comédia, bobagens cotidianas, faltas morais ou simplesmente crime.

O roteiro mostra uma população vivendo sob medo, e esse status fica cada vez mais perturbador à medida que o tempo passa e que inocentes são presos e perseguidos como suspeitos de serem o tal Corvo. Viver sob medo faz com que os “homens de bem” procurem um culpado a qualquer custo, a fim de parar o envio das cartas e impedir que suas falhas cheguem ao conhecimento dos outros. Um exercício de justiça com as próprias mãos em favor da hipocrisia e privacidade, híbrido complexo e que o diretor trabalha de modo instigante, cada vez mais intenso, ressaltando o suspense e nos deixando apreensivos não só pelo conteúdo ou remetente da próxima carta, mas que tipos de problemas ou até ameças à vida ela pode trazer.

O roteiro, porém, não toma a investigação ou as consequências como foco principal. É o personagem de Pierre Fresnay que ganha a atenção do diretor e que serve de ligação com todos os blocos da narrativa. Como ele é o principal acusado e está presente nos momentos mais suspeitos, é natural que sirva como catalisador do ódio, das atenções e da possibilidade de resolução do grande problema, afinal, a pequena cidade não tem um número tão absurdo de suspeitos… o impasse é que os contatos com cargos de respeito impedem que ações mais firmes sejam tomadas. Avisos floreados, desfaçatez e tratamento dúbio passam a fazer parte do cotidiano da população que tem algo a esconder e cujo medo a faz apoiar linchamento ou qualquer outra coisa que possa afastar o caos moral de suas vidas.

Fotografia que privilegia sombras nas paredes e nos rostos; tocante drama pessoal em relação ao Doutor Germain e sua posição frente à paternidade e às crianças locais; mais um excelente ritmo narrativo demarcam o clima de negatividade, medo e acusação na cidade, basicamente um teste psicológico de massa, onde muita gente tem algo para esconder e, com razão, teme a exposição de sua vida privada. Até a dança de descobrimento da verdade na reta final no filme — algo que se tornaria uma marca apreciadíssima do cinema de Clouzot — descortina novos problemas diante de uma falsa acusação e da atribuição do estado de loucura a alguém que fala uma verdade difícil de ser provada. Vida pessoal e vida pública, escalas da justiça e posicionamento pessoal diante de uma injustiça cometida contra quem for são ingredientes desse excelente polar sobre comportamento e defesa da honra. Colocando de lado a abrupta condução do romance entre o Dr. Germain e Denise (Ginette Leclerc), é um filme apreciável em todas as suas camadas. Um fantástico suspense de sombras dos anos 1940.

Cartas Anônimas/Sombra do Pavor/O Corvo (Le Corbeau) — França, 1943
Direção: Henri-Georges Clouzot
Roteiro: Henri-Georges Clouzot, Louis Chavance
Elenco: Pierre Fresnay, Ginette Leclerc, Micheline Francey, Héléna Manson, Jeanne Fusier-Gir, Sylvie, Liliane Maigné, Pierre Larquey, Noël Roquevert, Bernard Lancret, Antoine Balpêtré, Jean Brochard, Pierre Bertin, Louis Seigner, Roger Blin, Robert Clermont, Lucienne Bogaert
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.