Crítica | Cartas de Um Caçador, de Horacio Quiroga

Quando lido e interpretado em nosso contexto atual, Cartas de Um Caçador se revela assustador e politicamente incorreto. A coletânea de contos do escritor uruguaio Horacio Quiroga reúne 10 histórias embasadas em conflitos entre o narrador-personagem, Dum-Dum, homem em contato com as forças da natureza. Ele é quem escreve as tais cartas do título, enviadas para os filhos, numa espécie de postura de mentor que ensina para os seus jovens a maneira como um homem deve ser, bravo e imponente, principalmente a figura do caçador, conhecida por seu caráter destemido. Contemplado apenas pelo aspecto sincrônico, os contos assustam pela barbaridade do caçador diante de animais que estão apenas em circulação em seus espaços naturais. Essa é a leitura sincrônica. Quando apostamos na diacronia, conseguimos entender melhor o conteúdo e até aceita-lo, pois precisamos compreender que mesmo indevidas, as posturas presentes em cada passagem espelham um contexto histórico específico.

Ser testemunha de textos que explicitam a morte de alguns animais que hoje estão ameaçados de extinção causa certa repulsa, mas nada que atrapalhe a viagem literária do leitor, tampouco a qualidade da escrita de Quiroga. Publicado originalmente entre 1922 e 1924, as cartas expostas na coletânea são empolgantes ao mesclar entretenimento e ainda permitir algumas reflexões sobre o comportamento humano, a natureza, o elo entre civilização e selvageria, dentre outras questões. Importante ressaltar as múltiplas possibilidades interpretativas do conteúdo ofertado pelas Cartas de Um Caçador, leitura realizada pelo viés tangencial do horror ecológico por quem vos escreve, isto é, um olhar para os contos pela via da relação entre o homem e sua contemplação antropomórfica dos animais tratados constantemente como bestas sanguinárias assassinas, criaturas sedentas pelo espetáculo da morte, tendo a figura humana como vítima destes espetáculos macabros de horror e morte.

A complexidade textual psicológica da coletânea Anaconda encontra em Cartas de Um Caçador o espaço para a estruturação simples do conteúdo. O teor complexo fica por conta das temáticas abordadas, envoltas por uma redoma de covardia e violência do homem que trata os animais selvagens como seres antropomórficos. Cada encontro de Dum-Dum com o animal que nomeia o conto/capítulo é mediado pelo temor inicial e crença no poder da criatura diante de seu espaço natural, para logo depois, o narrador se utilizar da razão própria dos humanos para dar cabo de tais criaturas, seja para se alimentar (poucos casos), noutras vezes, para demarcar imponência e força diante de um ambiente que se apresenta hostil e repleto de mistérios. O Homem Diante das Feras é a história de abertura, encerrada por A Caçada do Gambá da Patagônia. No espaço entre uma e outra, o narrador-personagem caça um tatu para se alimentar, confronta-se com uma onça, contempla com pavor o som assustador do chocalho de uma cascavel, caça um jacaré que se alimentou de seu cão, além de ser atacado por formigas carnívoras, descritas como monstros.

Engraçado que o acesso ao livro veio por meio da leitura do último conto, A Caçada do Gambá da Patagônia, única história envolvida por humor. Um estrangeiro encontra-se em contato com o narrador e ao longo da história, descobre o quão horripilante pode ser o odor deste animal, principalmente quando em situação de perigo. Ao ler, considerei simples e fiquei surpreso pelo conteúdo leve, quando comparado aos contos fantásticos de Anaconda e suas serpentes presentes e onipresentes, dispostas pela narrativa para espalhar medo e pavor. Continuei na leitura decrescente e conferi O Condor, conto responsável por despertar a consciência de que apesar da leveza estrutural das histórias, a violência e a relação tensa e perversa entre humanos e animais também estava em Cartas de Um Caçador. No desenvolvimento, o animal-algoz é a ave que nomeia o conto, “assassina impiedosa” quando caçadores resolvem invadir o seu ninho. A maneira sangrenta como a ave ataca, algo que não está dissociado da realidade, reforça o tom macabro das histórias aventureiras de Dum-Dum nos confins da selva amazônica.

Enquanto estrutura, a edição analisada traz os 10 contos diagramados de maneira simples nas 96 páginas do livro, traduzido com eficiência por Wilson Alves-Bezerra, versão lançada no Brasil em 2007. Com capa e ilustrações assinadas por Carlos Clémen, material gráfico pulsante, algo que nos permite uma interação melhor com a leitura. Ademais, tomado por um ritmo bastante fluente, Cartas de Um Caçador se oferta ao leitor como “aquela” leitura que nos faz mergulhar dentro do universo abordado de maneira bastante envolvente. Cada animal selvagem é exposto em seu universo de domínio, num misto de sensações que vai do suspense ao horror, pois tal como afirmado antes, da tranquilidade de um dia normal de caça, surge um apavorante desfecho com o personagem central, ora como testemunha, ora como parte integrante do temor físico e psicológico no contato com serpentes, jacarés, formigas, raposas, onças, aves de rapina e outros esplendorosos seres da vasta fauna sul-americana. É incômodo ver a forma como a natureza é devastada pela violência humana, algo que precisa ser analisado diacronicamente, haja vista o contexto e a consciência ecológica coletiva que vivia, na época, outro momento histórico.

Cartas de Um Caçador (Uruguai, 1922-1924)
Autor: Horacio Quiroga
Tradução: Wilson Alves-Bezerra
Editora no Brasil: Iluminuras (2007)
Páginas: 96

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.