Crítica | Cartola: Música para os Olhos

Sento para ler o jornal. Uma cerveja e um conhaque.”.

Cartola é um dos maiores nomes do samba. Há quem o considere, inclusive, o maior entre os maiores, algo que não julgo nada absurdo (e, sinceramente, tenho uma tendência a concordar).

Nascido Agenor de Oliveira, e posteriormente Angenor de Oliveira, por conta de erros nos documentos de seu casamento, o carioca natural do bairro do Catete passou por diversas dificuldades em sua infância, juventude e parte considerável de sua vida adulta. Abordar os empecilhos vividos pelo compositor até se tornar um dos grandes nomes de nossa música, portanto, é uma acertada proposta do documentário Cartola: Música para os Olhos.

Dirigido em conjunto por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, o filme começa falando do início da vida de Cartola e, para tanto, faz uso de muitas gravações históricas para ilustrar o que os diversos entrevistados vão narrando. Vemos desde cenas de incontáveis artistas, da música ou não, até fotografias e filmagens da região dos bairros do Catete e Laranjeiras, onde o sambista passou boa parte de sua vida.

É justamente no primeiro ato, entretanto, que considero a parte menos agradável de toda a película. Além de Cartola sequer aparecer (ele só dá as caras pela primeira vez lá pelos trinta minutos), a narrativa é confusa e, em certos momentos, cheguei a considerar a hipótese que se tratava de um filme sobre o gênero do samba em geral e não sobre uma figura específica. Vemos nomes como, por exemplo, Nelson Sargento falando do samba e também de Cartola, onde o músico parece algo secundário em alguns momentos. É evidente que é impossível falar de um sem falar do outro, são indissociáveis, mas o documentário chega ao ponto de sentirmos falta de imagens, gravações e falas do próprio músico.

Felizmente, isso é corrigido no segundo e terceiro ato da obra, colocando o artista em evidência completa, trazendo tanto entrevistas antigas de Cartola quanto comentários de outras personalidades mais focados em sua figura, justamente o que senti falta no início. Para minha felicidade, que tenho o sambista como meu favorito no gênero, é extremamente delicioso assistir a outros grandes nomes artísticos contando histórias pessoais do compositor.

Zé Keti, Paulinho da Viola, Nara Leão, Elton Medeiros, Carlos Diegues, Nelson Motta, Elza Soares, Lan, Clementina de Jesus e Carlos Cachaça são alguns dos nomes mostrados na fita, seja através de entrevistas falando de sua relação com Cartola, gravações cantando seus sucessos ou simplesmente interagindo com ele.

Ainda que tenha sentido falta de uma abordagem que tratasse com mais detalhes a relação do sambista com a Estação Primeira de Mangueira, escola de samba em que foi um dos fundadores e, assim como o samba, é intrínseco a seu ser, as demais abordagens da obra são extremamente satisfatórias e fazem jus à vida do artista. Dona Zica, por exemplo, sua companheira por mais de 20 anos, recebe o destaque devido, assim como os já citados Nelson Sargento e Elton Medeiros, todos muito participativos na vida profissional e pessoal do cantor.

Da mesma forma que é encantador vê-lo performar algumas de suas canções de grande sucesso, como O Sol Nascerá, Peito Vazio, Tive, Sim e, principalmente, O Mundo É Um Moinho, onde canta a música a pedido de seu pai acompanhado apenas de um violão. Uma cena emocionante.

Mesmo que tenha uma ressalva aqui e acolá, Cartola: Música para os Olhos é um documentário extremamente competente e que honra a memória de uma das maiores figuras de nossa música sem perder de vista o lado humano e errático do sambista. Sua genialidade é abordada tal qual seus vícios, criando uma obra absolutamente honesta e verdadeira. Exatamente como Cartola merece.

Cartola: Música para os Olhos — Brasil, 2007
Direção: Lírio Ferreira, Hilton Lacerda
Roteiro: Lírio Ferreira, Hilton Lacerda
Elenco: Cartola, Dona Zica, Zé Keti, Paulinho da Viola, Nara Leão, Elton Medeiros, Carlos Diegues, Nelson Motta, Elza Soares, Lan, Clementina de Jesus, Carlos Cachaça, Nelson Sargento
Duração: 88 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.