Crítica | Casal Improvável

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Ambientado num futuro próximo dos Estados Unidos, Casal Improvável (2019) é o tipo de filme que chama a atenção pelos motivos mais curiosos possíveis, alguns estapafúrdios e outros elogiavelmente fora da caixa, o que certamente contribui para que o espectador realmente aproveite a obra (ou pelo menos parte dela). Escrito por Dan Sterling e Liz Hannah, esta comédia romântica de forte (e bagunçado) teor político coloca em cena um verdadeiro casal improvável e que genuinamente funciona como o “par jamais imaginado” que o roteiro nos vende: a Secretária de Estado vivida por Charlize Theron e o jornalista anti-establishment vivido por Seth Rogen.

O texto começa mostrando um ponto de virada na carreira desses dois personagens, antes mesmo de o primeiro encontro acontecer em tela. As motivações aí são legítimas, relacionáveis e compreensíveis, embora o bloco de apresentação de Seth Rogen seja o menos interessante, ficando ainda pior quando O’Shea Jackson Jr. entra em cena. Este último vai pouco a pouco exagerando na forma como coloca as coisas para o amigo Fred e, quando vemos, já temos um personagem do tipo “conselheiro fraterno”, com seus exageros incômodos diante do qual nem a montagem sabe exatamente o que fazer. Vale apontar que o personagem tem uma apresentação bojuda, como se fosse fazer parte da jornada de Fred, mas é abandonado ainda na primeira parte da obra para ser lembrado uma vez no miolo da fita e voltar deslocado no final, para um fechamento de ciclo que tem sua graça mas bem pouco disso tem a ver com o ator ou seu personagem.

Por outro lado, a química entre Theron e Rogen é simplesmente inacreditável. Não é algo que esperamos — e isso vale também para uma série de decisões do roteiro — mas que funciona muitíssimo bem, com os dois lados entregando com competência aquilo que seus papéis exigem; nada muito dramático, nada próximo de uma fina dramaturgia… apenas papéis simples com diferentes níveis de humor em sua concepção. Pela maneira como o casal se forma, o espectador entende que haverá aproximação com filmes românticos onde pessoas de classes sociais e ideais bem diferentes se apaixonam. E pelo menos isoladamente, esse aspecto funciona na obra. O problema é que ao conectá-lo a algo maior (a carreira política de Charlotte Field) as coisas começam a ir por água abaixo.

No decorrer da comédia vemos as esperadas brigas de percurso — com o propósito de amadurecer a relação — e temos bons momentos musicais (It Must Have Been Love é o mais nostálgico e forte de todos), com cenas de divertimento muito bem dirigidas e fotografadas, dentre as quais se destacam a cena de tango e a baladinha que Charlotte vai com Fred antes de resolver uma importante situação internacional. No meio desses bons e divertidos momentos, encontramos uma tacanha passagem do casal por diversas cidades (o filme é descaracterizado em seu próprio tema, ganhando cinco minutos de “vibe turística” seguido de uma cena de ação meio sem propósito); uma forçada sequência de negociação internacional e a criação de um problema final que é muito bom e engraçado, especialmente nos dias de hoje, mas que acaba boicotado porque o roteiro não se decide exatamente qual rumo dar a essa questão: algo mais sério ou algo mais escrachado?

Na dúvida, o diretor Jonathan Levine tenta fundir as duas coisas e o que consegue é, em essência, tudo o que fez neste filme: pontuais momentos elogiáveis e engraçados, cercados de situações mal trabalhadas que diretamente afetam a parte boa. No todo, Casal Improvável é sim um filme divertido. Como disse antes, a química entre os protagonistas é muito boa e o humor diretamente ligado ao relacionamento deles funciona que é uma beleza. É na suposta “crítica social” repleta de conceitos e tiros para todos os lados a fim de não desagradar ninguém e poder dizer que “alfinetou todo mundo e defendeu as principais causas hoje em andamento” que o texto dá passos para trás. O final não é óbvio e enfim recebe um bom tratamento do roteiro ao ligar vida pessoal com questões políticas, o que já se torna um grande ponto positivo para a obra. Seja como for, meu impulso é realmente indicar o filme. Por tudo o que apresenta, é muito provável que vá garantir um bom divertimento para a maioria do público. Mas que fique claro: a obra tem problemas. E não são poucos.

Casal Improvável (Long Shot) — EUA, 2019
Direção: Jonathan Levine
Roteiro: Dan Sterling, Liz Hannah
Elenco: Charlize Theron, Seth Rogen, June Diane Raphael, O’Shea Jackson Jr., Ravi Patel, Bob Odenkirk, Andy Serkis, Randall Park, Tristan D. Lalla, Alexander Skarsgård, Aladeen Tawfeek, Nathan Morris, Wanya Morris, Shawn Stockman, Isla Dowling, Aviva Mongillo, Braxton Herda, Anton Koval, Marcel Jeannin, Lisa Kudrow
Duração: 125 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.