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Crítica | Casamento Proibido

por Michel Gutwilen
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O primeiro grande personagem que aparece em Casamento Proibido não é humano, mas um protagonista que pode ser tanto visto do ponto de vista material (dinheiro) quanto imaterial (Capitalismo; Deus-Capital). A primeira sequência é uma espécie de musical com um tom de comercial publicitário, que começa com um plano-detalhe de uma caixa registradora e, em sequência, vai alternando tal objeto com planos que respondem uma pergunta chave que se repete pela trilha sonora: “o que o dinheiro pode comprar?”.  Aparecem então, contrapostos a caixa registradora: carros, joias, vinhos, diplomas e até se afirma que o casamento pode ser comprado, uma vez que você investe na sua própria aparência para atrair quem ama. Tudo isso é sequenciado por uma montagem de ritmo ágil, didática em seu conteúdo e que segue ensinamentos eisensteinianos ao empregar “uma montagem de atrações”, visto que é uma sequência que envolve planos aparentemente soltos, não ligados pela lógica de causa-e-consequência, porém unidos tematicamente. Que temática é essa, então? É o fato de todas as relações estarem inseridas dentro de um contexto econômico, no qual tudo que se pode imaginar, pode ser comprado. É o american way of life, basta ter dinheiro que tudo estará ao seu alcance para viver a vida dos sonhos, como em um musical (mostrando acertada a escolha estilística desta sequência). 

Não à toa, quando acaba esse musical de “ode ao dinheiro” e a história começa de fato, a primeira sequência envolve uma ação que faz parte dessa lógica maior já apresentada. Uma mulher é pega no flagra, roubando uma bolsa, por uma funcionária da loja (a protagonista), só que esta não entrega a ladra ao dono , preferindo lhe dar uma lição de moral. Ao fim do filme, fica claro que esse início é uma situação micro de tudo que irá acontecer posteriormente na narrativa: começa-se mostrando o roubo — a desonestidade; a escolha pelo caminho mais fácil na lógica capitalista; — como um impulso (ou instinto) primário. Não entendemos porque a mulher está roubando, só vemos ela fazer isso, pois o que importa não é a pessoa e sim o ato. Em seguida ao ato, entra o elemento humano: o perdão e a re-educação. 

Educar é uma palavra chave em Casamento Proibido. Afinal, o diretor Fritz Lang admitiu que se trata de um projeto inspirado em um estilo que seu amigo Bertold Brecht acabara de criar para o teatro, chamado originalmente de Lehrstücke, e que pode ser traduzido como uma espécie de “peça didática”, cuja missão é ensinar algo. No caso específico dessa obra, a mensagem a ser passada seria de que “o crime não compensa”. Após tal informação extra-fílmica, muitas escolhas narrativas, que antes soariam aleatórias, passam a ganhar uma justificativa, seja a primeira sequência musical ou a cena-chave do longa em que a protagonista interrompe o roubo de seu marido para, literalmente, dar uma aula à ele e seus comparsas, explicando através de cálculos matemáticos como os custos da atividade criminosa são altos. Portanto, o que se estabelece nessa cena “sala de aula” é um jogo de campo-e-contracampo, onde a “professora” olha diretamente para a câmera, cujo contracampo é preenchido pelos bandidos (que viram alunos), mas também funciona como um extracampo, no qual ela também está se comunicando diretamente com a audiência a partir do aparato cinematográfico. A mensagem anti-banditismo é tanto para eles quanto para nós.  

Por outro lado, ainda que com influências da escola brechtiana, seria reducionista afirmar que Lang realizou neste filme apenas um experimento aleatório. Pelo contrário, pois o estilo Lehrstücke se complementa a um cinema autoral do diretor, com Casamento Proibido fechando a chamada “trilogia social” que ele realizou em solo americano nos anos 30, sendo precedido por Fúria (1936) e Vive-se Só Uma Vez (1938). É preciso lembrar que Fritz Lang é um alemão exilado nos Estados Unidos, após ascensão do nazismo, então é fácil entender essa predileção por filmes que tratem dos marginalizados da sociedade, sendo, inclusive, um tema que já estivesse na sua fase alemã, como em M (1931). Assim como o personagem de Henry Fonda em Vive-se Só Uma Vez, os protagonistas de Casamento Proibido são ex-convictos que tentam se re-adequar na sociedade, porém ainda são atormentados pelos fantasmas (e tentações) do passado. No entanto, esse é um dos mais otimistas filmes do diretor, o que se diferencia muito do final fatalista e trágico de Vive-se Só Uma Vez. 

É neste sentido que parece haver um equilíbrio em sua aventura no Lehrstücke dentro do seu autorismo: uma história sobre os marginalizados, mas que terão um final feliz. Como afirma Francisco de Noronha, em sua crítica de Casamento Proibido para À Pala de Walsh, “há optimismo, também, na auto-determinação que Lang concede às suas personagens, libertas de fatalismos insuperáveis (tipicamente languianos) e só dependendo de si mesmas para trilharem o seu caminho, no qual parece existir sempre uma segunda oportunidade.“ Além dos exemplos citados por ele (a cena em que o homem desiste de pegar o ônibus para fugir e a que ele desiste de cometer o roubo), é possível enxergar essa autodeterminação em outras situações. Veja-se, por exemplo, como Lang destaca em plano detalhe a carta de condicional da protagonista, em que está escrito, entre um dos pontos, “4. Não casar” (4. Do Not Marry). A primeira analogia que vem à mente é como se ela fosse um dos Dez Mandamentos, seja pela forma como ela está escrita quanto pela ênfase de Lang. Portanto, a decisão dos protagonistas em descumprir tal ordem ganha contornos maiores, é uma libertação individual, um ato de revolta contra uma imposição maior (Deus, a Sociedade capitalista e punitivista), pois eles escolhem seu próprio destino.

No mesmo sentido, a belíssima sequência em que eles passam a lua-de-mel “viajando o mundo”, ao irem para restaurantes típicos de outros países (Alemanha, França, China..), corrobora nesse sentido de que mesmo diante da impossibilidade física de viajar (por causa da condicional), eles ainda assim conseguem se libertar de tal imposição, ainda que no imaginário. No fim, Casamento Proibido é justamente sobre isso. Uma lição de moral (ou fábula) sobre as tentações que o Capital provoca no homem, prendendo-lhe em um ciclo sem fim, mas que podem ser superadas pelo amor. Afinal, há certos sentimentos que o dinheiro não pode comprar. 

Casamento Proibido (You and Me) — EUA, 1938
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Virginia Van Upp, Norman Krasna, Jack Moffitt
Elenco: Sylvia Sidney, George Raft, Robert Cummings, Barton MacLane, Roscoe Karns, Harry Carey
Duração: 89 min.

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