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Crítica | Cassidy: Omnibus – Vol.1

Um protagonista com os dias contados.

por Luiz Santiago
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Concebida por Pasquale Ruju, a minissérie Cassidy foi originalmente publicada pela Bonelli em 18 edições, entre maio de 2010 e outubro de 2011. O conceito dessa produção se aproxima bastante das narrativas neo noir do cinema ou de filmes que flertam atmosfericamente com esse subgênero. Dentre as obras mais imediatamente relacionáveis aqui, podemos citar Serpico, Chinatow, Perseguidor Implacável e Magnum 44. Mas há um tempero diferente. Ruju, com sua pesquisa para a criação do cenário onde vive Raymond Cassidy, que é um bandido de classe, aproximou-se de inúmeras abordagens do cinema italiano dos anos 1970, da escola poliziotteschi. A grande violência urbana, a aparição de diferentes grupos mafiosos e a recorrência de famílias disfuncionais ligadas a algum tipo de sacrifício pessoal e opressão de algum indivíduo são pinceladas dramáticas que vão aparecendo a cada novo número, deixando mais aprimorada a abordagem do autor.

A presente crítica olha para os 6 primeiros volumes da série, publicados no Brasil em formato de Omnibus, pela Editora 85, em agosto de 2022. Todos os roteiros são de autoria de Ruju, mas cada edição conta com um artista diferente. As sementes da minissérie são plantadas em O Último Blues (L’ultimo Blues), ilustrada por Maurizio Di Vincenzo. Nela, presenciamos uma cena marcante, na noite de 16 de agosto de 1977 (noite da morte de Elvis, que é nominalmente citada pelo Blind Bluesman, a representação da Morte nesse Universo): um Dodge Aspen preto percorre a fronteira entre o Arizona e a Califórnia. Cassidy, o motorista, está sangrando, baleado por parceiros de um golpe que deu errado. Ao encontrar e entregar a gaita que um velho negro e cego procurava, Cassidy é informado que estava recebendo um presente. Mais 18 meses de vida. E nesse tempo, ele deveria “colocar as contas em dia“.

Percebam que Pasquale Ruju insere uma linha sobrenatural que não é nada comum aos citados filmes nos quais ele se inspirou para conceber o mundo de Cassidy. E é justamente essa linha que faz toda a diferença na saga, porque apresenta uma força indomável, etérea e indiscutível. O protagonista não quer aceitar, mas não há nada que ele possa fazer. E no decorrer das edições, essa versão da Morte reaparece para o personagem, a fim de lembrá-lo que o tempo está passado e que ele precisa acertar determinadas contas antes de morrer. Essa “crônica de uma morte anunciada” torna o enredo urgente, combinando com o formato da minissérie. Além disso, a estrutura de continuação entre os volumes é de modelo imediato. Por mais que seja possível um leitor desavisado pegar cada um dos quadrinhos aqui e lê-los isoladamente, a cadência dos atos de um livro para outro nos mostra que uma separação, na leitura, não é exatamente algo indicado. Esse é um dos casos em que a leitura cronológica é a ideal.

Minha edição favorita dessa hexalogia é Mãos Sobre a Cidade (Le Mani Sulla Città), desenhada por Elisabetta Barletta. Ela aborda um caso de corrupção, especulação imobiliária, gentrificação e desapropriação de casas que reflete uma realidade tão próxima de nós, que parece estarmos lendo a descrição de uma reportagem exibida na TV. Já a edição que eu menos gostei, dentre as seis, foi Máscara de Sangue (Maschera di Sangue), ilustrada pela dupla Davide Furnò e Paolo Armitano. Ela não barra a sequência de ação, mas, em termos de composição da história, me pareceu a mais simples e menos interessante — talvez a alteração da importância do roubo da máscara do deus Xipe-Totec, numa exposição, tenha algo a ver com isso. O roteiro apontava mais para algo similar a Diabolik, só que interrompeu a promessa e seguiu outros caminhos. Já em termos de arte, a minha edição favorita, disparada, é a de Gianluigi Gregorini: Nas Ruas de Las Vegas (Sulle Strade di Las Vegas). Os desenhos de Gregorini possuem uma finalização tão bem articulada, que tudo parece ser esculpido em mármore. É um absurdo de beleza.

De maneira próxima à arte de Gregorini, o meu segundo projeto artístico favorito é o de Luigi Cavenago, na edição que encerra esse Omnibus: Os Guerreiros (I Guerrieri), que coloca o filho de Cassidy em cena e traz um enredo que busca referências diretas no icônico filme Sem Destino (Easy Rider), de Dennis Hopper. Já no quinto volume, Céu de Chumbo (Cielo di Piombo), com desenhos de Andrea Borgioli, vemos uma fase dessas histórias chegar ao “fim”. Ali, porém, entendemos que os acertos de contas são apenas o ponto de partida para problemas a serem explorados em edições vindouras. Como já disse, gosto bastante da visão que o autor teve para a organização da série, e a Editora 85 fez um excelente trabalho ao propor o lançamento em Omnibus, com 6 edições compiladas. Isso ajuda demais ao leitor se conectar profundamente com o personagem e percorrer esse Universo tempo o suficiente, pelo menos até o próximo tijolão sair.

Cassidy é um quadrinho que você começa a ler e não quer mais parar. Um daqueles dramas protagonizados por personagens fora da lei em que você torce pelo criminoso e não sente nenhum tipo de culpa moral. E vejam que o autor e os desenhistas não floreiam nada. Apesar de não ser sádico, Cassidy sempre mata quando acredita que é necessário, e sempre está pronto para dar um novo golpe, sempre está pronto para tentar conseguir mais dinheiro. Ao lado dos parceiros Aaron “Ace” Gibson e Juan Cuervo, Raymond Cassidy tenta fazer coisas que, em sua concepção, são o “acerto de contas” que a Morte lhe indicou fazer. No meio do caminho, porém, ele deixa espalhada uma pilha de corpos e muito prejuízo em dinheiro para alguns magnatas do crime. É de arrepiar.

Cassidy – Volumes 1 a 6 — Itália, maio de 2010
Contendo:
O Último Blues (L’ultimo Blues), Mãos Sobre a Cidade (Le Mani Sulla Città), Máscara de Sangue (Maschera di Sangue), Nas Ruas de Las Vegas (Sulle Strade di Las Vegas), Céu de Chumbo (Cielo di Piombo), Os Guerreiros (I Guerrieri).
No Brasil: Cassidy Omnibus – Vol.1 (Editora 85, agosto de 2022)
Roteiro: Pasquale Ruju
Arte: Maurizio Di Vincenzo (#1), Elisabetta Barletta (#2), Davide Furnò e Paolo Armitano (#3), Gianluigi Gregorini (#4), Andrea Borgioli (#5), Luigi Cavenago (#6)
Capas: Alessandro Poli
594 páginas

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