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Crítica | Cassino Royale, de Ian Fleming

por Kevin Rick
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Ler um livro partindo da perspectiva de uma adaptação é sempre uma experiência interessante. A leitura acaba sendo preenchida por suposições, predeterminações e comparações à adaptação. Sendo isso negativo ou positivo, depende muito da obra e do autor em si. Agora, imagine ler o volume que deu início a uma franquia praticamente eterna, com clichês e convenções enraizados no imaginário popular? É dessa perspectiva que Cassino Royale, a primeira obra literária sobre James Bond, escrita por Ian Fleming, surpreende o leitor imensamente.

A trama acompanha o protagonista, a mando de M, o chefe do Serviço Secreto Britânico, indo ao encontro de Le Chiffre, o tesoureiro endividado da organização de contra espionagem SMERSH, para enfrentá-lo em um jogo chamado baccarat, com o intuito de falir o antagonista, perturbando a estrutura inimiga, além de possivelmente retirar informações do apostador adversário. Com o suporte de Felix, da CIA, Mathis, da Deuxième Bureau, e Vesper Lynd, também do Serviço Secreto, o agente 007 assume a hercúlea missão de derrotar um inimigo no seu elemento confortável, além de uma estratégia com grande base na sorte. Dessa forma, Ian Fleming, respaldado por experiências reais como ex-agente do Serviço Britânico, constrói um curioso cenário para a primeira aventura do famoso espião, sem muita ação e heróismo.

O filme Cassino Royale, o primeiro protagonizado por Daniel Craig, já serviu como uma quebra ao molde do 007 visto anteriormente com Sean Connery e Pierce Brosnan, justamente pela elaboração de como Bond se tornou Bond. Uma espécie de história de origem trágica de um impetuoso e orgulhoso agente, ainda não totalmente consciente da crueldade do seu ramo. Ao ler o livro, é perceptível a fidelidade da película de 2006 ao material de origem. Toda essa questão de desmistificação da figura perfeita de espionagem permeia toda a narrativa de Fleming, o que é interessante ao notar que é a primeira história do autor sobre Bond, logo, a desmistificação do 007 acaba sendo, aqui, o construto da descendência do personagem para o ideal mais próximo que conhecemos: bruto, sem emoção e calculista. Mas para chegar nesse ponto, Fleming decide entregar uma obra atípica do romance de espionagem, não apenas abraçando os males da profissão, mas abrindo as portas para o existencialismo.

Bond passa toda a história lutando e duvidando de seus ideais, seja eles sobre sua profissão e como exercê-la, ou então sobre seu olhar machista e misógino sendo borrado pelo amor à Vesper. Tais questionamentos tiram o protagonista do ambiente comum do agente extraordinário e impecável, realmente nos conectando ao arco de descobrimento e dúvida do personagem, tendo seus princípios esmagados pela hesitação e a falta de conhecimento, até mesmo adentrando uma certa ingenuidade do agente. E o núcleo geral de falha, tanto das convicções, como da missão em si, impulsionam a história para além da aventura perigosa, divergindo bastante do que é esperado do 007.

Novamente, a série do Daniel Craig utiliza vários desses elementos, sendo, aparentemente, a mais fiel à bibliografia do Ian, só que o livro vai um pouco além por causa do inusitado estilo de escrita do autor. O teor mais realista, muito bem transposto nas batalhas de baccarat, manuseando minuciosas explicações do jogo e intensas situações à mesa do Cassino, que nada perdem para uma perseguição ou um combate, somado à macabra cena de tortura, funcionam como suporte da introdução e rápida imersão da narrativa antes de Fleming, imprevisivelmente, apresentar uma tendência poética, minimalista e até mesmo fantástica para a obra.

Esse leque do autor é melhor evidente na própria caracterização do personagem, assim como no romance com Vesper. A novel assume um modo anti-romântico do protagonista, exposto como alguém bruto, cheio de si e bastante antipático, e aos poucos quebra a imagem masculina do personagem, tanto para o leitor, quanto para o próprio Bond. Isso vai de encontro com o argumento de rompimento de princípios que citei, só que o estilo poético do relacionamento dos agentes transformam a narrativa de espionagem para ares melancólicos de um casal em término. Acho que é a partir daqui que o livro perde um pouco da força, não pelo núcleo desmantelado, mas pelo fato do ruim desenvolvimento da Vesper, que cai em todos os arquétipos de uma visão machista, o que acaba contrariando o ideal de desconstrução do mesmo da narrativa.

Cassino Royale apresenta elementos comuns do 007, como ótimos vilões, perseguições, bond girls, traições e torturas, mas configura uma inesperada leitura para o gênero, principalmente pela mescla de algo mais realista, utilizando a ambientação de um Cassino e um jogo de cartas como tema da missão, com o estilo poético do autor, extremamente existencialista e crítico do sistema de espionagem. O livro acaba sendo mais inusitado do que especial, mas a leitura rápida proporciona uma gama de tópicos, desde a arrojada batalha de cartas com Le Chiffre, o trágico romance com Vesper, e o trabalho psicológico incerto e ambíguo do agente. Uma divertida e pessimista introdução para Bond, e como ele veio a se tornar o agente “perfeito”.

Cassino Royale (Casino Royale) — Reino Unido, 1953
Autor: Ian Fleming
Editora original: Jonathan Cape
Edição lida para esta crítica: Best Seller (1 outubro 2012)
Tradução: Sylvio Gonçalves
176 páginas

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