Crítica | Cavaleiro das Trevas: The Golden Child

Nesse seu final de carreira, Frank Miller resolveu apostar quase todas as suas fichas em continuações e spin-offs de Batman – O Cavaleiro das Trevas, sem dúvidas uma das mais importantes obras dos quadrinhos mainstream modernos. Depois da normalmente mal-vista continuação de 2001/02, foram necessários mais 13 anos para o autor empolgar-se novamente, trazendo A Raça Superior entre 2015 e 2017, com direito ao one-shot prelúdio A Última Cruzada em 2016, para ajudar a “compensar” pelo atraso na terceira minissérie do Batman mais velho. Em 2019, seu Millerverso de Batman ganhou também um spin-off contando sobre o Ano Um do Superman, já sob o selo DC Black Label, e, no apagar das luzes do ano, eis que chega mais um one-shot, desta vez focados na geração jovem dos icônicos personagens da editora que ele vem abordando há anos.

Apesar do título em inglês conter menção ao Cavaleiro das Trevas, isso só foi feito para indicar aos leitores que a publicação de pouco mais de 50 páginas faz parte desse universo específico criado por Frank Miller, já que nem Batman, nem Superman (ok, esse dá as caras em três pequenos quadros na primeira página) e nem a Mulher-Maravilha aparecem em The Golden Child. A abordagem se dá unicamente a partir dos pontos-de-vista de Carry Kelley, ex-Robin, ex-Batgirl e agora Batwoman e de Lara e Jonathan Kent, filhos super-poderosos de Kal-El e Diana Prince, com Jonathan sendo a “Criança Dourada” do subtítulo original. É importante ter isso em mente e aceitar que os heróis veteranos não aparecem na narrativa apesar do grau de destruição que vemos no one-shot e dos vilões envolvidos, ninguém menos do que o novo Coringa e Darkseid, ambos trabalhando em conluio. Se isso não for aceito como premissa, é possível que o leitor só se desaponte já a partir da página 14, quando a efetiva pancadaria começa.

Ultrapassada essa questão, Frank Miller continua sua pegada razoavelmente pouco inspirada que infelizmente marca essa fase de sua brilhante carreira. No lugar de contar uma história fluida, que estabeleça causas e consequências de maneira lógica e minimamente encadeada, ele cria “momentos” razoavelmente soltos que se conectam sob uma premissa genérica de “vilões sendo vilões”. Para constatar esse fato, basta notar como ele começa discutindo questão central de A Raça Superior: como Lara e Jonathan são diferentes dos humanos e como eles nos enxergam como seres fracos que vivem “se quebrando” e se curando em um círculo vicioso de poucas virtudes. Superman sempre teve essa dicotomia entre divindade e humanidade muito bem discutida em suas histórias mais célebres e Miller tem mérito ao voltar a ela aqui tendo seus filhos como pivôs, especialmente em um mundo em que a juventude tende a ser mais imediatista e a tirar conclusões com base em manchetes de notícias.

Mas Miller não sabe explorar a questão realmente a fundo e logo abre espaço para Carrie mostra que é a verdadeira herdeira do Batman hiper-violento desse futuro semi-distópico, com táticas de guerra para destroçar um grupo comandando pelo Coringa para dispersar uma passeata anti-Trump, que quer se reeleger como prefeito de Gotham. E, com isso, entra o lado político da HQ que ganha até mesmo uma paródia de Jair Bolsonaro já que o artista é Rafael Grampá, retornando aos quadrinhos depois de vários anos e estabelecendo a primeira parceria com Miller.

Esse subtexto político parece solto e desestruturado, mais como uma birra contra os dois presidentes do que como um comentário que tenha estrutura dentro da narrativa. Mas a verdade é que, na medida em que a história se desenvolve, com Darkseid enlouquecido enfrentando os jovens Kents e com o quadrinho final que tem uma boa fala de Kelley, tudo acaba podendo ser visto como uma alegoria política contra a opressão de pessoas que tendem a tomar o poder e a esquecer o povo (Trump e Bolsonaro são usados como exemplos “da moda”, mas o mundo – e também o Brasil – é cheio de outros nos dois espectros políticos) e o poder que protestos organizados têm. Miller é normalmente xingado como fascista por muitos, pelo que será interessante ver como esses muitos reagirão a seu texto aqui.

Seja como for, estruturalmente, a HQ é uma montanha-russa de comentários diversos que acaba se tornando episódica, por vezes só focando em Kelley e, por outras, só nos Kents. Além disso, tudo bem que é perfeitamente possível imaginar um supervilão interessando na manipulação de eleições, mas logo Darkseid? Será que ele não está muito acima disso para preocupar-se com algo tão micro assim? E a resposta está na própria HQ, com o vilão revelando um plano muito maior que efetivamente não combina com a reeleição de um prefeito de uma cidade americana (não estamos nem falando do país!).

Com isso, a história vive de espasmos narrativos, com algumas belas sequências de ação e a revelação de um conjunto de poderes para a tal Criança Dourada que consegue torná-la ainda mais poderosa do que os já super-poderosos Superman e Lara Kent. Se já é difícil escrever o Superman em razão de seu overpower, Jonathan Kent será um desafio ainda maior em eventual continuação. Gostaria muito que Miller tivesse focado em um assunto apenas e o desenvolvido de maneira compassada e não jogado tudo de qualquer jeito nessa edição única.

A arte do brasileiro Grampá pode ser polêmica pelas liberdades anatômicas que ele toma, mas ele foi o primeiro artista a acertar o uniforme de Kelley depois que ela abandonou a persona de Robin. A capa dupla de forro amarelo e a textura “orgânica” do tecido que ela usa funcionam muito bem, assim como todo seu atleticismo exagerado. Lara e Jonathan não apresentam maiores dificuldades ou novidades, por outro lado, com o desenhista mantendo Lara como a vimos antes e Jonathan apenas com um figurino civil. Mas o que realmente chama a atenção é o detalhismo de Grampá e como ele desenha bem as sequências de ação de alta octanagem. O combate final contra Darkseid não é lá muito inspirado, mas isso é mais culpa de Miller não saber muito bem como acabar a história do que da arte em si.

The Golden Child é uma HQ desconjuntada, mas boa, talvez a melhor de Miller dentro de seu Millerverso de Batman desde a graphic novel original (diria que empatado com A Última Cruzada). Não é nem de longe um retorno à sua forma de outrora, mas há, sem dúvida alguma, a semente de uma potencialmente interessante nova forma de lidar com sua muito particular visão sobre o Batman e o Superman.

Cavaleiro das Trevas: The Golden Child (Dark Knight Returns: The Golden Child, EUA – 2019)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Rafael Grampá
Cores: Jordie Bellaire
Letras: John Workman, Deron Bennett
Capa: Rafael Grampá, Pedro Cobiaco
Editoria: Mark Doyle, Amedeo Turturro
Editora original: DC Comics (DC Black Label)
Data original de publicação: 11 de dezembro de 2019
Páginas: 52

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.