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Crítica | Caverna do Dragão – 1X01: A Noite Sem Amanhã

por Kevin Rick
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de Temporadas: 3
Número de episódios: 27
Período de exibição: 17 de setembro de 1983 a 7 de dezembro de 1985
Há reboot?: Não, mas há um audiodrama do roteiro da season finale, assim como um episódio fan-made lançado em 2020, adaptando o final da série.

Caverna do Dragão é aquele tipo de criação audiovisual que a palavra clássica sequer começa a mensurar a dimensão da série. Lançada em 1983, a animação é baseada no jogo de RPG homônimo Dungeons & Dragons, ou D&D para os mais íntimos – apesar deste termo atualmente ser popularmente referente a péssimo roteiro final de série. Uma co-produção das titânicas Marvel Productions, responsável pelas produções animadas da Marvel e da Hasbro na época, e Toei Animation, o estúdio criador de pequenos sucessos como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, a produção de Caverna do Dragão já surgiu como hit, especialmente pelo fato de ser respaldada pelo célebre jogo de tabuleiro.

É exatamente por isso que fiquei confuso ao descobrir a efêmera quantidade de episódios e temporadas da série. Logicamente que vendo a animação nos meus anos infantes, mesmo tendo assistido episódios repetidos múltiplas vezes, tinha a impressão que o show havia sido mais duradouro, afinal, Caverna do Dragão é uma das poucas séries infantis que agraciou várias gerações de crianças, mas apenas 27 episódios é um espanto. Imagine meu choque ao saber que o motivo do cancelamento foi a baixa audiência. Impensável! Aparentemente, houveram protestos e controvérsias acerca do teor mais violento abordado pela série, diminuindo a audiência, antecipando a interrupção das aventuras de Hank, Eric, Sheila, Diana, Presto e Bobby. Não é claro se esta polêmica a respeito do caráter da animação foi definitiva para o baque nos números de telespectadores, e, assim como quase tudo em relação a série, é mais um assunto misterioso e mistificado, eternamente sem uma resposta direta.

Mas tratando do piloto, A Noite Sem Amanhã, não existe nada hediondo no episódio que poderia reverberar essas críticas da época. No máximo, a aparência satânica do Vingador seria debate de controvérsia dos conservadores rabugentos, mas até isto é um tremendo exagero. Na realidade, os criadores Kevin Paul Coates, Mark Evanier e Dennis Marks apresentam uma descontraída e divertida aventura infantil, através de um grupo de amigos transportados ao reino titular, procurando retornar à Terra, com a ajuda – será? – do Mestre dos Magos. Se a discussão polêmica ainda não existe no primeiro episódio, e duvido muito que ela apareça em futuros capítulos, não posso dizer o mesmo de problemas narrativos. O começo clássico dos episódios, com os jovens entrando no mundo fantasioso dentro do parque, logo atirando-os ao enredo da aventura contida em questão, sempre me deixou curioso por saber como se desenrolou a verdadeira chegada dos seis amigos no reino misterioso. Bem, ela não existe.

No piloto, a mesma rápida introdução é oferecida, e apesar dos eventos do episódio conterem a primeira aventura da equipe, há um estranhamento enorme na maneira de introdução da trama. Primeiramente que não existe elaboração dos acontecimentos anteriores à condução dimensional. Seria interessante a construção, mesmo que ligeira, da dinâmica do grupo na Terra. No entanto, consigo entender a escolha do roteiro de rapidamente expor o fantástico, imergindo o público-alvo infantil imediatamente. Meu principal incômodo na abertura é a completa falta de perspectiva dos personagens em relação aos acontecimentos postos em ação. Após a pequena vinheta, somos apresentados ao elenco principal naturalmente engajando contra monstros, completamente habituados à situação presente, usualmente utilizando seus poderes mágicos. Acredito ser descrente, até mesmo do ponto de vista de uma criança, a normalidade que os jovens tratam o ambiente volátil, sem apresentação de sequer uma cena reacionária das circunstâncias hostis.

Tenho em mente que o objetivo dos roteiristas era a adaptação de como os jovens rapidamente imergiam no jogo de tabuleiro. Mas, aqui, causa uma tremenda confusão e estranheza. Tirando este ponto claramente implicante e ranzinza, o piloto evoca todos os elementos que tornaram a série um sucesso. A narrativa simplória e autocontida é carregada pela belíssima dinâmica grupal posta na extraordinária jornada em busca de Merlin. Todos os seis amigos são extremamente estereotipados, o destemido líder de cabelos loiros e olhos azuis, o frágil nerd, e por aí vai, mas o processo de aprendizado deles dialoga diretamente com problemas adolescentes, só que, claro, num ambiente pitoresco. Neste episódio, o foco narrativo é Presto, e seu caminho para convicção própria. O personagem é continuamente ridicularizado por Eric, junto de outros membros do grupo participando da zombaria, sustentando a desconfiança dos poderes do jovem mago. Presto é submetido a tamanha pressão psicológica que decide ficar com Merlin, desistindo da busca em equipe.

Obviamente que todas estes temas são abordados levemente, mas parando para notar as sutilezas do roteiro, nota-se como a obra é um exercício sobre amizade e amadurecimento. Além da insegurança de Presto, têm-se a relação fraternal de Bobby e Sheila, o senso de responsabilidade e incumbência de Hank, e, claro, temos Eric. Eternizado como o personagem irritante e medroso do círculo, Eric, na verdade, é o membro mais importante da narrativa. Ele serve como o instigador dos problemas alheios de seus amigos, abrindo portas para o roteiro navegar nas dificuldades pessoais do elenco, além de funcionar como o melhor alívio cômico da animação.

Há também o misterioso Mestre dos Magos. Desde o início o roteiro da série suporta a dúbia intenção do personagem, tão fortemente debatida pelos fãs da obra até hoje. O descaso do “guia” para com os protagonistas, a falta de objetividade no discurso, a completa inexistência de suporte, todos pontos que instauram a discussão se o pequenino é realmente um parceiro dos jovens. A incredulidade de Eric em relação ao Mago evidencia como o sacal personagem é um tanto mais sensato que o resto de seus companheiros.

Por fim, A Noite Sem Amanhã marca o início da empreitada globalmente célebre que é Caverna do Dragão. Já neste piloto somos apresentados a classe de personagens que faria sucesso com gerações de crianças brasileiras. O começo é tortuoso, mas os principais componentes da narrativa já começam a ser construídos, concentrando todos os esforços do roteiro no exercício de amizade e desenvolvimento pessoal dos protagonistas. O episódio sinalizava o primeiro confronto contra o Vingador, e a contradita presença do Mestre dos Magos, na busca eterna dos jovens de retornar para casa. Gosto de imaginar que tiveram êxito. 

Caverna do Dragão (Dungeons & Dragons) – 1X01: A Noite Sem Amanhã (The Night Of No Tomorrow) – EUA, 17 de setembro de 1983
Criadores: Kevin Paul Coates, Mark Evanier, Dennis Marks
Direção: John Gibbs, Bob Richardson
Roteiro: Mark Evanier
Elenco: Willie Aames, Don Most, Katie Leigh, Adam Rich, Tonia Gayle Smith, Teddy Field III, Sidney Miller, Peter Cullen, Frank Welker
Duração: 30 min.

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