Crítica | Cebolinha – Recuperação

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SPOILERS!

Assim como Mônica – Força, Cebolinha – Recuperação é uma história ao mesmo tempo fofa e dura de se ler. Escrita e desenhada por Gustavo Borges (da ótima e também emocionante Pétalas), esta vigésima Graphic MSP vai se descascando como uma cebola e, em cada camada, nos traz uma surpresa e adiciona uma dificuldade real na vida desse candidato a Dono da Rua e grande mestre dos planos infalíveis.

Esse tipo de aventura sempre causa uma sensação estranha no leitor — no bom sentido da palavra — porque estamos destacando um personagem da Turminha para fazê-lo enfrentar, majoritariamente sozinho, problemas que cada um de nós já enfrentamos na vida, de uma forma ou de outra. No caso específico, o protagonista está com dificuldades na escola e, nesse núcleo, Gustavo Borges torna as coisas ainda mais difíceis. Ele nos apresenta Robertinho, um playboy recém-chegado à escola que passa a “apagar o brilho” do Cebolinha, além de antipatizar com ele e protagonizar um espetáculo que os colocará juntos de recuperação; uma briga que irá ser costurada no enredo até o fim.

Toda essa linha do texto é interessante e muito real. E em torno desse problema que, sozinho, poderia gerar uma história inteira, o autor adiciona uma outra camada, ampliando o leque da questão pessoal (do Cebolinha) também para uma questão familiar, outra escolha realista e ainda mais dura do que a primeira, por ter implicações bem mais sérias e não tão facilmente contornáveis. O Seu Cebola perdeu o emprego. E como quase sempre acontece nesses casos, uma recolocação no mercado demora para acontecer. É neste ponto que a história ganha o seu momento mais sólido, pelo simples fato de vivermos em um país onde a maioria da população já passou por dificuldades financeiras ou algum tipo de aperto nesse sentido, tendo que cortar gastos e se virar de todas as formas para poder conseguir alguma grana.

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Embora eu não tenha gostado do desenvolvimento mais reticente na relação entre Cebolinha e Robertinho, todo o miolo dessa aventura é simplesmente um espelho do cotidiano que Borges guia muito bem. Até o princípio do amadurecimento para o Cebolinha (sem jamais perder o seu jeito travesso, brincalhão e com um inesperado senso de responsabilidade) se encaixa com os dois grandes problemas que ele enfrenta e que tenta resolver da melhor maneira possível, com ajuda da Turma (num cameo rápido, mas muito bonito) ou de suas fantásticas ideias para salvar as finanças da casa. O desenrolar disso não poderia deixar de emocionar. Aliás, o leitor se vê lacrimejando mais de uma vez nessa história…

A ideia de recuperação aqui vai muito além da recuperação escolar. E como observamos nas duas aventuras anteriores do selo, Pele e Mãe, há uma marca bem mais madura aqui em cena, o que torna a história imperdível pelo fato de caber na classificação para crianças (só um pouco mais velhas… não porque o conteúdo tem algum problema, mas pela capacidade de entender a trama mesmo) e igualmente falar ao coração dos adultos. Eis aí a marca de uma grande história: a Universalidade. E é muito bom ver o Cebolinha recebendo um tratamento tão interessante como este.

Cebolinha – Recuperação (Brasil, outubro de 2018)
Graphic MSP #20
Roteiro: Gustavo Borges
Arte: Gustavo Borges
Cores: Gustavo Borges, Marina Garcia
Letras: Deyvison Manes
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Sousa Editora
Páginas: 98

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.