Crítica | Celeste

É agora, Madeline.
Respira.
Você consegue.

Uma tela com os dizeres acima é a primeira coisa a ser vista pelo jogador uma vez que ele começa a campanha. Algumas meras palavras casuais, mas que carregam um enorme impacto e encapsulam a obra. Celeste é um jogo indie da dupla canadense Matt Thorson e Noel Berry com arte do estúdio brasileiro MiniBoss. Exaustivamente elogiado pela crítica desde seu lançamento, se trata de um dos mais impressionantes games independentes já feitos, um trabalho tão primoroso que arrancou o termo “obra de arte” de inúmeros gamers e sites especializados ao redor do mundo.

Celeste acompanha Madeleine, uma garota que decide escalar a montanha que dá nome ao jogo. Dentro dessa sinopse extremamente simples encontra-se uma narrativa belíssima na qual é apresentada a maravilhosa saga de crescimento da protagonista, um dos melhores trabalhos de desenvolvimento de personagem que já vi nesse meio. Celeste é um jogo sobre depressão, ansiedade e sobre enfrentar os medos que te perseguem. Uma abordagem de assuntos humanos e filosóficos de forma orgânica e delicada, algo raramente visto em uma mídia como games.

Se por um lado sua mecânica simples de plataforma não reinventa a roda, por outro é extremamente precisa e bem estruturada. O gameplay de dificuldade bastante alta garante algumas comparações a Super Meat Boy, embora sejam obras completamente diferentes, mas que se baseiam na clássica mecânica de tentativa e erro. E o mais belo de tudo é como o nível de dificuldade do game conversa com sua temática e proposta. Celeste é um jogo sobre superação, sobre saber conviver com seus erros e ter resiliência. Você assume perfeitamente a pele de Madeline. Quem busca chegar ao topo da montanha – seja ela qual for – é você, o jogador.

Toda a arte do jogo é magnífica e estonteante. Cada cenário categoriza um deslumbre diferente, um trabalho de pixel art verdadeiramente espetacular feito pelo estúdio brasileiro MiniBoss. Cada ambiente é criado com uma sutileza e sensibilidade gigantes, apresentando uma paleta de cores lindíssima que tem preferência por tons mais suaves e calmos (outro detalhe que conversa muito bem com a temática). Cada um dos cenários garante um aspecto diferente e marcante na jornada do jogador. O trabalho da MiniBoss configura um passo fundamental para o Brasil alcançar patamares cada vez mais altos de relevância no mercado dos games.

A trilha sonora do game, composta por Lena Raine, é simplesmente magnífica. A compositora realmente se prova uma espetacular revelação, estamos diante aqui de uma das melhores trilhas sonoras dessa geração de games. Lena constrói canções que funcionam de forma simbiótica com o gameplay, ditando perfeitamente clima e ritmo de cada fase. Fases cavernosas e escuras ganham ótimas canções soturnas e misteriosas, enquanto fases mais coloridas e luminosas ganham synths de genuína e pura esperança. Acima de tudo, a trilha conduz sua persistência e é essencial para Celeste ser a obra-prima que é. É fascinante emendar uma sequência de acertos em meio a músicas que respiram determinação e perseverança.

Celeste é um dos indies mais elogiados pela mídia nos últimos anos, levando a uma série de prêmios ao redor do mundo. Merecidíssmo, aliás. Trata-se realmente de um jogo pra entrar pra história. Temos aqui uma obra que eleva o poder dos games a um novo nível, oferecendo a oportunidade de debater assuntos humanos pouco vistos nesse meio. Feito com coração, com um cuidado praticamente familiar, um trabalho de completo esmero. Tocante, instigante, viciante e belíssimo. Eu não sou o mesmo depois de jogar Celeste – acredito que poucos serão.

Celeste
Desenvolvedora: Matt Makes Games
Lançamento: 25 de janeiro de 2018
Gênero: Plataforma
Disponível para: PC, PS4, Xbox One, Switch

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.