Crítica | Celular (2016)

A bibliografia de Stephen King é vasta e muito cobiçada por Hollywood, ainda que os filmes baseados em seus livros sejam uma enlouquecida gangorra qualitativa. Se de um lado temos obras-primas como O Iluminado e Um Sonho de Liberdade, do outro temos bombas como Chamas da VingançaO Apanhador de Sonhos. Estatisticamente, a coisa fica pior quando há envolvimento do próprio King na produção, seja como diretor e/ou roteirista, como são os casos, dentre outros, de O Comboio do Terror e A Good Marriage. Celular é apenas mais uma adaptação desapontadora que tem um roteiro do próprio autor – em parceria com Adam Alleca – tentando transportar seu romance homônimo de 2006 para as telonas.

E nem quero dizer que o filme de 2016 que conta com John Cusack e Samuel L. Jackson no elenco é essa tragédia toda (mas é quase…). Ele é apenas mais um exemplar genérico de “filme de zumbi” que não faz o menor esforço para sair de sua zona de conforto ou para oferecer algo mais ao espectador que não sejam sustos fáceis (e uso a palavra “sustos” de maneira liberal aqui, entendam bem), péssimo CGI e atuações cansadas, como se os atores principais estivessem no automático, loucos para o diretor dizer “corta” e eles poderem voltar a seus trailers para dormir. Claro, há um toque da mente bizarra de Stephen King para o conceito, mas não muito mais do que isso.

A história tenta alegorizar nossa dependência de tecnologia, mais particularmente de telefones celulares. Um “pulso” estranho transforma todo mundo em seres descerebrados que saem matando todas as pessoas normais e, em meio ao caos, o artista de quadrinhos Clay Riddell (Cusack) tenta chegar até sua família com a ajuda do condutor de trem Tom McCourt (Jackson) que ele conhece nos minutos iniciais, logo formando laços de sobrevivência. A estrutura é básica e clichê até dizer chega, com a dupla primeiro tentando entender o que está acontecendo e sobreviver as primeiras horas e, depois, dirigindo-se a pé (não me pergunte o porquê) para a casa da esposa de Riddell que ele não vê há mais de um ano. Os zumbis não são exatamente zumbis no sentido clássico da palavra, mas sim pessoas transtornadas ao extremo como em Extermínio, mas que andam (e correm) como em uma revoada de pássaros, mas com habilidades “extras” relacionadas como a forma como se transformaram nos Fonoides, como eles acabam sendo batizados.

A tentativa de trazer para o filme o tipo de crítica social das obras de zumbi de George A. Romero fica só mesmo na tentativa, pois todo o gancho que poderia ser utilizado para abordar nossa dependência dos celulares especificamente e da tecnologia em geral é defenestrado em poucos minutos, com o roteiro preferindo abordar o lado do mero terror da coisa, mas mesmo assim simplificando tudo, de forma que Riddell e Jackson não se preocupem com coisas mundanas como comida, transporte e outras necessidades básicas. E isso não seria particularmente ruim se Tod Williams, que de mais relevante em sua carreira de diretor tem Atividade Paranormal 2, pelo menos entregasse alguma coisa que criasse um semblante de tensão, algo que ele nem de longe consegue, preferindo seguir a tática batida dos jump scares, só alcançando sucesso mesmo se o espectador tiver menos que 12 anos de idade e mesmo assim com boa vontade.

Até mesmo o design de produção é cansado, incapaz de captar a atenção do espectador por mais de alguns segundos. Cenários genéricos que poderiam ser inseridos em qualquer outro filme pós-apocalíptico, zumbis sem graça que não são mais do que extras com um pouco de sangue nos rostos (quando muito) e uma computação gráfica cuja maior qualidade é ser usada com muita parcimônia, notadamente nos últimos minutos, acabam contribuindo para que Celular seja completamente esquecível.

Stephen King deveria aprender, de uma vez por todas, que escrever livros é diferente de escrever roteiros e, no lugar de afirmar que O Iluminado de Kubrick é ruim, podia ter mais carinho ao licenciar suas propriedades. Celular é um belo exemplo de filme que nem registra na mente do espectador, o famoso “não fede, nem cheira” que passa despercebido até pelos menos exigentes fãs da obra do autor.

Celular (Cell, EUA – 2016)
Direção: Tod Williams
Roteiro: Stephen King, Adam Alleca (baseado em romance de Stephen King)
Elenco: John Cusack, Samuel L. Jackson, Isabelle Fuhrman, Clark Sarullo, Ethan Andrew Casto, Owen Teague, Stacy Keach, Joshua Mikel, Anthony Reynolds, Erin Elizabeth Burns, Jeffrey Hallman, Mark Ashworth, Wilbur Fitzgerald, Catherine Dyer, E. Roger Mitchell, Alex ter Avest
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.