Crítica | Celular, de Stephen King

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Neste romance apocalíptico, Stephen King nos apresenta a história de Clay Rydell, um desenhista tentava vender seu portfólio em Boston, quando testemunha o mundo literalmente enlouquecer, a partir do momento em que um misterioso sinal enviado para os celulares de todo mundo transforma todos aqueles que o escutam em loucos irracionais homicidas. Em um mundo devastado, Clay se junta a um pequeno grupo de não-afetados que sobreviveu ao evento conhecido como O Pulso, e parte em uma jornada pelos Estados Unidos para encontrar o seu filho, rezando para que ele esteja vivo, e que não tenha escutado o sinal.

A ideia de King para este romance é simples, porem assustadora. Nossa civilização desenvolveu uma dependência tecnológica que faz com que todos tenham um celular nos dias de hoje. Das crianças aos idosos. Portanto, se algo como “O Pulso” acontecesse, seriam poucos aqueles que não se tornariam Fonoides, como os personagens passam a se referir aos afetados pelo pulso a certa altura.

A queda da civilização como a conhecemos não é um terreno estranho para King, que já havia abordado cenário semelhante no romance A Dança da Morte, onde um apocalipse viral devasta o planeta. Mas esta nova visão do fim do mundo não apenas é mais intimista, já que acompanhamos quase que exclusivamente o ponto de vista de Clay, mas também mais pessimista, por razões que é melhor ler a obra para entender.

O livro pode ser dividido em dois momentos distintos, o primeiro com os personagens lidando com questões mais imediatas de sobrevivência típicas de histórias de zumbi, e o segundo com a ameaça dos Fonoides assumindo um caráter diferente. Geralmente em suas obras, King opta para mostrar a ordem e a vida comum na introdução de seus personagens e do ambiente onde vivem, deixando o mal externo, seja ele natural ou sobrenatural, se infiltrar aos poucos, até que enfim se revele completamente. Mas já na terceira página de Celular, quando os celulares do mundo começam a tocar, recebendo o Pulso, já vemos a cidade de Boston explodir em sangue, violência e loucura. O primeiro terço de Celular lembra muito os clássicos de George A. Romero, como Despertar dos Mortos (1978) e O Exército do Extermínio (1973), e o autor reconhece esta influência, ao dedicar o romance ao amigo. Tal como o colega cineasta, King usa os seus zumbis (ou melhor, fonoides) para tecer uma crítica social sobre como uma sociedade cada vez mais integrada e “conectada” pela tecnologia corre o risco de assumir pensamentos de “colmeia zumbificada”.

No primeiro terço da história é tudo uma questão de sobrevivência pura e simples. Esconda-se, consiga armas, alimentos e sobreviva. O romancista navega muito bem entre os clichês do subgênero zumbi (mesmo esses não sendo os zumbis tradicionais popularizados por Romero), mas por mais bem escrito que essas passagens sejam, ainda acabam sendo um pouco derivativas. Mas é então que pela metade da narrativa ocorre uma reviravolta que muda completamente a visão que construímos daquele mundo, e onde o livro encontra a sua própria voz. Ecoando o clássico Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson (que assim como Romero, também recebe uma dedicatória) King muda o papel que tanto os Fonoides como as “pessoas normais” tem nesse novo mundo, apresentando excelentes conceitos de ficção científica.

Sendo relativamente enxuto (em nenhum momento senti que o autor tentava esticar a história mais do que devia, sendo este um dos livros mais objetivos de Stephen King), Celular vale a leitura. Não está entre as grandes obras de escritor, mas é um ótimo entretenimento, que traz personagens carismáticos, momentos bem construídos de tensão e terror, e apresenta boas doses de ficção científica, ainda fazendo uma crítica sobre a nossa dependência tecnológica que é ainda mais relevante hoje do que na época da publicação. Decididamente, uma ótima abordagem para o tão desgastado cenário do apocalipse zumbi.

Celular (Cell)- Estados Unidos- Estados Unidos, Janeiro de 2006.
Autor: Stephen King
Editora Original: Scribner
Editora Brasileira: Suma das Letras, 2018
Tradução: Fabiano Morais
384 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.