Crítica | Cem Gramas de Centeio, de Agatha Christie

Também chamado de Um Punhado de Centeio aqui no Brasil, este livro de 1953 nos traz uma uma atuação diferente de Miss Marple em uma investigação, isso residindo no fato de que ela não é a detetive principal da aventura, apenas uma conselheira falsamente humilde (quase um jogo de Megera Domada) para o preocupado e charmoso Inspetor Neele, metido em um mecanismo extremamente engenhoso de um assassino que sabe muito bem se esconder à vista de todos.

A história começa de modo mais forte do que termina, tendo inclusive uma abordagem consideravelmente distinta daquela a que Agatha Christie normalmente escolhia para apresentar seus ambientes de crime. As observações iniciais para o local de trabalho do estranho Sr. Rex Fortescue recebem aqui um toque crítico e bastante irônico, com a autora fazendo observações sobre a escolha para diferentes secretárias e aludindo a um certo tratamento abusivo ou objetificado para a mulher nesses ambientes. Pra falar a verdade, Agatha Christie sempre procurou ironizar a percepção do papel da mulher nos mais diversos espaços, mas em narrativas como esta a alfinetada é menos sutil e bem mais interessante.

Numa manhã normal de trabalho, o inescrupuloso Sr. Fortescue, que aparentemente estava saudável, bebe o seu chá no escritório e sofre um ataque, sendo logo socorrido e morrendo no hospital. A validação do título do romance e parte do mistério que sustentará a narrativa vem com a seguinte estranheza: no bolso do homem é encontrado um punhado de grãos de centeio. Ninguém sabe como esses grãos foram parar lá. Mais adiante na narrativa, quando Miss Marple começa a fazer suas pequenas observações, uma canção infantil que ela lembra ao Inspetor Neele traz novamente o centeio à tona, e elenca mais uma série de outros ingredientes curiosos que surgem no meio do mistério, que ganha mais mortos e novos métodos.

Reparem que canção mais singela:
Com cem gramas de centeio
E vinte melros de recheio
Basta fechar a panela
E esperar que se ponham a cantar
Uma torta tão bonita não faria o rei vibrar?
Enquanto ele no escritório, o dia inteiro,
Pensa só em ganhar dinheiro,
A rainha na sala sozinha
Come o pão com mel que lhe trazem da cozinha.
A criada, no quintal, estende a roupa, feliz,
Até que um passarinho safado lhe morde o nariz.

Rapidamente a história passa de um drama do ambiente de trabalhado para um mistério familiar. Essa transição de foco é organizada pela autora mantendo as muitas surpresas possíveis em torno da morte, momento onde construímos as nossas primeiras suspeitas. Como o Inspetor Neele é um personagem muito bom, nos afeiçoamos a ele e por isso mesmo tenho minhas dúvidas se a presença de Miss Marple aqui era realmente necessária. Em termos de intenção, é perfeitamente compreensível que a autora quisesse colocar a personagem numa história onde ela não teria que fazer todo o trabalho, estando assumidamente como coadjuvante do caso. No entanto, essa chegada tardia da simpática velhinha e o que a história exige em termos de investigação plantam essa dúvida de necessidade de sua presença, até porque algumas cenas com Miss Marple conversando com os moradores da casa não parecem assim tão interessantes, especialmente no final.

Cem Gramas de Centeio apresenta um ambiente familiar bem fácil de chamar a nossa atenção e de nos entreter, com cada personagem sendo uma criação exagerada típica de um suspense policial sobre diferentes forças e suspeitas agindo sob o mesmo teto (estou pensando em Entre Facas e Segredos nesse momento), embora o foco da autora aqui seja bem preciso. O livro deixa de funcionar melhor nas ligações com Miss Marple no último ato, mas nada assim tão grave. Um suspense que chama a atenção para a peculiaridade do sentimento de vingança e para a capacidade que alguns indivíduos têm de se esconder em suas boas qualidades, enquanto praticam crimes e pensam em formas de beneficiarem a si mesmos. A cena final do livro é solene e até capaz de nos fazer lacrimejar um pouco. Uma gota de humanidade e sentimento no meio de tanta miséria.

Cem Gramas de Centeio (A Pocket Full of Rye) — Reino Unido, 9 de novembro de 1953
Editora original: Collins Crime Club
Autora: Agatha Christie
Edição lida para esta crítica: Nova Fronteira, 2015
Tradução: Milton Persson
232 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.