Crítica | Cenas de um Casamento (1973)

Bergman já havia dirigido para a TV antes de Cenas de um Casamento (1973). Seu primeiro trabalho para a telinha foi o pequeno filme A Chegada do Sr. Sleeman (1957), e daí para frente, outras obras encomendadas surgiram, desde comerciais de sabonete, que são verdadeiras peças de inventividade audiovisual a serviço da marketing, até películas como A Mulher Veneziana (1958), O Sonho (1963), O Rito (1969) e Fårö: Um Documentário (1970), só para citar as principais produções televisivas do diretor antes de Cenas, todas elas, telefilmes. Então apareceu a oportunidade dele realizar uma série. Uma oportunidade que tratou de não desperdiçar.

No início dos anos 1970, os filmes de Ingmar Bergman não estavam arrecadando muito bem. A Hora do Amor (1971) foi um fracasso de crítica e, a despeito da boa distribuição, não necessariamente animou o público. Já Gritos e Sussurros (1972) foi muito bem recebido pela crítica, mas não deu dinheiro. Sem muito espaço para arriscar, a saída foi investir em um projeto que custasse pouco e que não lhe tomasse muito tempo de escrita e filmagem, da mesma forma que tivesse maiores facilidades na produção. Pelo tempo que passava em Fårö, o diretor afirmou ter se tornado um espectador de TV, o que lhe dava uma boa noção do que poderia fazer para abalar a opinião do público.

A ideia para uma série sobre casamento era a mais lógica naquele momento de sua carreira, porque havia muito material escrito e não utilizado em sua versão final dos argumentos de A Hora do Amor e do telefilme O Santuário (A Mentira), este, dirigido por Jan Molander e depois adaptado para uma versão internacional, em inglês, por Alex Segal. Juntando experiências pessoais e criações já prontas, o roteiro para os episódios da série inteira ficaram prontos em dois meses e meio, e os seis capítulos já saíram com os títulos que teriam em sua versão televisionada: Inocência e PânicoA Arte de Empurrar Problemas Para Debaixo do Tapete, PaulaO Vale das Lágrimas, Os AnalfabetosNo Meio da Noite Numa Casa Escura em Algum Lugar.

A saga matrimonial é protagonizada por Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), casados há 10 anos e muito felizes. Todo o aparato de obrigações sociais e familiares se coloca já no primeiro capítulo, quando vemos marido e mulher sendo entrevistados para uma importante revista feminina. Entre trivialidades da vida caseira, o trabalho, o amor e as dificuldades de se passar tanto tempo juntos, algumas coisas curiosas já podem ser lidas nas entrelinhas. Liv Ullmann, como sempre, está deslumbrante em seu papel. Sua Marianne começa tímida, dependente, quase subserviente à ideia do marido perfeito e do casamento-modelo, embora ela mesma saiba que nenhum existe de verdade. Uma das grandes temáticas de Bergman já aparece aí, a desfaçatez que precede a explosão dos sentimentos, tudo mostrado com um vigor caseiro, em tons marrons e esverdeados pelo fotógrafo Sven Nykvist, que faz um magistral trabalho de criação de atmosferas, tendo o seu ponto máximo do capítulo final, que, apesar de ser o mais interessante em termos de fotografia, peca parcialmente no roteiro, momentos antes do desfecho.

Mas Bergman não engana o espectador. Não está em seus planos aqui. As máscaras estão postas e são visíveis por todos, denunciando-se nos olhares falsos, no excesso de reticências e no comportamento de Johan que, ao longo de toda a série, irá gerar distintos sentimentos no espectador, sendo pelo menos metade deles os de repulsa e raiva, e a outra metade, de entendimento do personagem como mais um atingido em cheio pela miséria humana, alguém que é orgulhoso, desonesto e fraco demais para lidar com isso sem ter que atacar e ferir os outros, ou, como ele acaba fazendo, fugir. Como cada episódio apresenta uma história isolada — poderiam muito bem ser exibidos como 6 filmes diferentes, sendo 5 excelentes e 1 muito bom –, ligados apenas pela presença do casal principal, a série coloca em cena todo um grupo de sentimentos, comportamentos e status familiares que se vê frequentemente no cotidiano, mas que por serem incômodos ou causarem polêmicas morais/religiosas (especialmente no aspecto de que os pais não necessariamente amam os seus filhos, e vice-versa) são, como diz um dos capítulos do show, varridos para debaixo do tapete.

O caráter abusivo, explorador e claustrofóbico da relação de Johan e Marianne dá muito espaço para discussão, como também o sentimento envolvido nessa relação — e vai de cada espectador julgar a natureza desse sentimento, se proveniente de um trauma e desvio psicológico ou de manifestação honesta de amor. Entre cenas de peleja de conceitos sociais (política, feminismo, classes sociais, mercado de trabalho) e grandes embates filosóficos que barram ou dão vazão a atitudes hostis entre duas pessoas, Cenas de um Casamento é um estudo matrimonial completo, pegando desde o fingimento de bom-convívio para sogros, sogras e amigos, até o esforço hercúleo para se manter simpático e “pai” ou “mãe de família” nas reuniões de datas comemorativas, nas festas de aniversário e em todo o restante da lista de compromissos que um laço longevo entre duas pessoas pode trazer.

Quando exibida, a série foi um sucesso colossal, chamando a atenção dos jornais, revistas e sendo atribuída pela pessoas como o motivo pelo qual resolveram pedir o divórcio (o número de pedidos na Suécia, depois da série, foi algo realmente espantoso) ou repensar suas relações matrimoniais. Tudo bem que Bergman já vinha fazendo isso há muitos anos e em dramas bem mais curtos e até acessíveis, mas o resultado aqui é de fato primoroso. Tenho um pequeno problema com o último episódio, em parte de seu desenvolvimento, porque desloca os personagens de um ambiente que já se tinha fixado para os poderosos diálogos. O final, todavia, volta ao claustrofóbico e simbólico set (as quatro paredes) em torno do qual o enredo foi construído, terminando a jornada de uma maneira aplaudível. Uma das DRs mais bem escritas, dirigidas e atuadas da história.

Cenas de um Casamento (Scener ur ett äktenskap) — Suécia, 1973
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Liv Ullmann, Erland Josephson, Gunnel Lindblom, Bibi Andersson, Wenche Foss, Jan Malmsjö, Bertil Norström, Anita Wall, Rossana Mariano, Lena Bergman, Barbro Hiort af Ornäs
Duração: 6 episódios de 50 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.