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Crítica | Certo Agora, Errado Antes

por Gabriel Zupiroli
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Quando assisti Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami, imaginei por um bom tempo que aquela obra era o máximo possível de se chegar a uma dualidade narrativa de romance envolvida em questões metalinguísticas no cinema. O filme iraniano possui um poder gigantesco na forma como concatena as discussões sobre realidade, ficção, autoria e plágio, depositando-as em um romance profundo e muito bem construído sob um jogo de representação que atravessa duas narrativas distintas em convergência. Para mim, esse era o ápice desta forma de se fazer cinema, de se falar sobre cinema. Entretanto, em 2015 o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo estreou Certo Agora, Errado Antes, um filme que mostrou que definitivamente minhas convicções estavam erradas.

Já entendida como lugar-comum em sua obra, Sang-soo apresenta uma narrativa simples, que se debruça sobre a banalidade cotidiana e se sedimenta nas relações humanas sob o jugo das vontades, das dores, dos arrependimentos, dos sonhos. Há personagens e, ao mesmo tempo, sujeitos suplantados pelo marasmo da vida, procurando constantemente algo envolvidos pelo signo do deslocamento. Em Certo Agora, Errado Antes, os rumos não são muito diferentes: acompanhamos o encontro ocasional entre um cineasta e uma aspirante a pintora, seguindo-os por diferentes partes da cidade e diferentes conversas. Dizer mais do que isso é desnecessário.

O ponto de subversão e, ao mesmo tempo, a força motriz da narrativa de Sang-soo se faz presente justamente na metade do filme. A partir de certo momento, o cineasta decide recontar a mesma história pontuada, porém, por diversas pequenas diferenças no comportamento e na fala. Assim, Sang-soo se prepara para exibir ao espectador o que separa as possibilidades, o que fragmenta a percepção em relação ao outro e, através de si mesmo, faz com que os caminhos tomados entre dois sujeitos sejam diferentes.

Até onde consigo enxergar, o filme está interessado sobretudo em se desdobrar sobre essas possibilidades. Entretanto não atrai, aqui, o resultado desse jogo. Este, como já reserva a nós a vida, é muito difícil de ser modificado pelas condições prévias. A dinâmica que a obra busca observar está justamente voltada para o durante. Como em Cópia Fiel, a feitura do processo é mais interessante do que o objeto em si. Sang-soo subverte a própria solidez que constrói em uma primeira metade para, através da verdade, esclarecer: agora está certo, errado estava antes.

E é justamente aqui que nos é permitido enxergar uma espécie de movimento conciliatório na narrativa. A verdade surge como discurso modificador em uma intempérie de mentiras passadas, como se o único discurso possível de fraturar as possibilidades e enveredar por um caminho positivo. É quando ela entra em jogo, ela, a sinceridade, a honestidade, que a subversão começa e compreendemos que o interesse da obra reside mais em procurar por essas diferentes vias do que por postular uma verdade absoluta. Até porque, como é possível enxergar pela própria desconstrução que os planos fazem de si mesmos, essa suposta verdade nem existe. Surge uma informação que é desmentida na cena seguinte, entretanto isso se dá de maneira tão lúdica que não há sequer perspectiva de existência de uma certeza. As coisas se derramam na representação.

E o olhar sempre presente do cineasta está ali. Muito mais interessado em investigar a dinâmica do próprio plano do que qualquer outra, Sang-soo filma com sua tradicional câmera estática sobre o mesmo eixo, movimentando-se unicamente através do zoom e do foco. A câmera curiosa, que nos faz perceber nossa condição de espectador ao mesmo tempo em que nos encerra como juízes da situação. Isto pois, é claro, não há a necessidade de trazer as respostas – assim como a verdade, assim como a conclusão. Estas ficam unicamente para o espectador. Nesse meio cênico de representações unânimes, a câmera lateral que se aproxima lentamente, mas de maneira cruel, do rosto de Kim Min-hee quando ela descobre um pouco do que não sabia, é o que faz a condição de espectador existir de maneira mais visceral. Vê-se porque se quer ver. Este é o interesse do cinema desinteressado.

Certo Agora, Errado Antes (Jigeumeun matgo geuttaeneun teullida) – Coreia do Sul, 2015
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Kim Min-hee, Jeong Jae-yeong, Yoon Yeo-jeong, Gi Ju-bong
Duração: 121 min.

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