Crítica | Champagne (1928)

estrelas 4

Champagne é um dos mais interessantes filmes da fase silenciosa de Alfred Hitchcock, mesmo que não seja um suspense ou tenha assassinato em pauta, como era de se esperar de um ‘típico’ filme seu. O obra é, na verdade, um drama romântico que tem a difícil relação entre um pai rico e uma filha espalhafatosa como plano de fundo, trazendo novamente temáticas trabalhadas anteriormente pelo diretor mas em contextos distintos, como o caso da pobreza e decadência do filho em Downhill e a questão do valor da mulher dançarina ou funcionária de um cabaré em The Pleasure Garden.

A história não cai em nenhum dos dois extremos anteriores, mas mostra uma situação financeira para a protagonista que faz com que ela repense suas atitudes anteriores e entenda o que é gastar dinheiro de maneira sensata, ou mesmo quanto vale o dinheiro. Nesse caso, o fato de o pai ter resolvido aplicar-lhe uma lição, fingindo estar falido, dá à obra uma aparência fabular, com lição de moral + entendimento do erro e reconciliação no desfecho da história. Por mais que pareça clichê, Champagne se sustenta como drama romântico e até com suas bem-vindas cenas cômicas, tudo isso cimentado por maravilhosas brincadeiras estéticas de Hitchcock, já bastante cioso do que era possível fazer com montagem, sobreposição de fotogramas e truques de câmera.

Gordon Harker é o ator que faz o pai da protagonista e ele já tinha trabalhado com Hitchcock em dois filmes anteriores, A Mulher do Fazendeiro e O Ringue. Seu personagem aqui tem bem mais destaque que os anteriores, alguém cuja importância para a trama é realmente notável, mesmo que ele não apareça muito em cena. Além disso, sua veia cômica está dentro de um patamar aceitável, não caindo em forçosas situações, como as que encarnou em A Mulher do Fazendeiro. O ator vive um aristocrata cuja filha só lhe dá dor de cabeça, mas ele está disposto a fazê-la aprender uma boa lição. Hoje isso pode ser bastante batido no cinema, mas para 1928 não eram todos os dramas — ou romances adaptados, como é o caso — que conseguiam um bom resultado final com uma trama desse tipo.

O intrigante aqui é a distração implantada pelo diretor, ou seja, o detetive/amigo contratado pelo pai para ficar de olho na filha  se passa por um pretendente interesseiro. Ele é o motivo “X” para que se dê lugar a acontecimentos maiores em toda a história, movendo tanto a garota quanto o seu noivo, que acha estar perdendo o amor da sua vida para um estranho qualquer. Em linguagem hitchcockiana, poderíamos até chamar essa distração de McGuffin, embora o termo não se aplique aqui de maneira totalmente correta. Fora essas intricadas e muito inteligentes confusões do roteiro, temos a direção de Hitchcock que, além de guiar com competência o elenco e a narrativa fílmica, realiza um grande número de metáforas visuais, sugerindo muito mais do que falando, o que abre algumas questões expostas no filme para a interpretação do público, mesmo que haja um sentido geral da obra a ser considerado.

Durante o todo o tempo, o diretor buscou ligar sequências e cenas dramáticas com outros espaços, na maioria das vezes contrastantes, como se estivesse conduzindo um conflito de duas faces, pensamento que fica mais forte ainda na cena final, quando não temos tanta certeza quanto às verdadeiras intenções do tal detetive. Objetos vindo em direção à câmera, ligação de fotografias com cenas reais, sequência de ângulos peculiares pensada para dar a ideia de determinados estados de espírito do personagem em destaque… essas e outras características podem ser observadas no decorrer da fita, que não peca por excessos de experimentação ou uso inadequado delas.

Champagne foi uma grande surpresa para mim. Li a sinopse antes de assistir ao filme e achei que seria tão ruim quanto A Mulher do Fazendeiro, mas estava enganado. Com uma trama sem meandros, ótima concepção estética e pequenos mistérios que mais parecem um brincadeira do Mestre com o seu público, a obra é divertida e muito bem dirigida, com um elenco bom na maior parte da fita, apenas vez ou outra mostrando os vários cacoetes incômodos do cinema silencioso. Mesmo assim, Champagne consegue a aprovação do espectador e se logra como uma das grandes surpresas de Hitchcock já no final de sua primeira década como diretor.

  • Crítica originalmente publicada em 22 de novembro de 2013. Revisada para republicação em 24/09/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Champagne – UK, 1928
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock, Eliot Stannard (baseado na obra de Walter C. Mycroft)
Elenco: Betty Balfour, Jean Bradin, Ferdinand von Alten, Gordon Harker
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.