Crítica | Channel Zero: The Dream Door – 4ª Temporada

  • Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Admiro showrunners que não se contentam em ficar em sua zona de conforto. No caso de séries em formato de antologia, com cada temporada contando uma história, galgar novos caminhos é mais do que apenas algo desejável, passando a ser uma obrigação, quase que a condição sine qua non para que a série se justifique para além de sua 1ª temporada. Nick Antosca, que está no leme de Channel Zero desde o começo garimpando creepypastas para transformar em histórias televisivas, vinha trazendo jornadas cada vez mais bizarras, cada vez mais “fora da caixa”, com Candle Cove e No-End House mergulhando fortemente no lado psicológico e Butcher’s Block trazendo uma pegada desconcertante e caminhando sem reservas para o lado sobrenatural (não que as outras temporadas não fossem sobrenaturais, claro). Cada uma de suas temporadas é um pequeno tesouro do gênero do terror em forma de série de televisão, trazendo um frescor para o gênero que há muito não se via, não obstante American Horror Story e The Walking Dead, só para ficar com os exemplares mais constantemente na mente dos espectadores.

O que então faltava no trabalho de Antosca? Confesso que não sabia essa resposta. Aliás, nem mesmo sabia que a pergunta em si era relevante, talvez por esperar de The Dream Door outra viagem lisérgica oferecida em econômicos e sempre eficientes seis episódios, formato que, como os britânicos já sabiam muito bem, é o melhor para qualquer série de TV. Mas eis que o começo da temporada, toda ela dirigida por E.L. Katz, me trouxe tanto a pergunta quanto a resposta: o que faltava era o horror “comum”. Caminhar pelo lado mais cerebral das avenidas do gênero é refrescante, mas potencialmente mais “fácil” (notem as aspas, pois não quero desmerecer o trabalho que ele fez até aqui!). Difícil de verdade é pegar as convenções do gênero, os clichês do gênero e fazer com eles algo diferente e relevante. E é o que Antosca tenta fazer aqui. Só pelo esforço ele já merece 5 estrelas, mesmo que o efetivo resultado seja a temporada mais fraca – ainda que nem de longe ruim – da série até agora.

Baseado na brevíssima creepypasta Hidden Door, de Charlotte Bywater, que, como sempre, serve apenas de pontapé inicial para o conceito por trás da temporada, The Dream Door lida com um casal recém-casado que se muda para a antiga casa da família de um deles no que parece ser o perfeito começo de um casamento. No entanto, em um belo dia, uma misteriosa porta azul aparece na parede mais distante do porão da casa, sem que nenhum dos dois se recorde de sua existência. Prometo que não falarei mais nada sobre a trama, pois cada segredo revelado é importante para o efeito que a série terá sobre o espectador. Basta dizer, porém, que, diferente das temporadas anteriores, o que a porta representa e o que está lá dentro são exaustivamente explicados e explorados ao longo dos seis episódios, o que automaticamente retira e, de certa forma, banaliza os acontecimentos posteriores.

Mas o caminho que Antosca resolve seguir é do do horror substancialmente baseado em jump scares e na estrutura de slashers cujas cenas de matança são mostradas em cada glorioso detalhe sanguinolento, o que faz desta a mais sangrenta das temporadas, ainda que a menos atmosférica e a menos “nojenta”. Com essa premissa, vem os aspectos bons e ruins da criação de Bywater, que é muito amplicada por Antosca e sua equipe de roteiristas. No lado positivo, a direção de E.L. Katz realmente sabe lidar com os sustos repentinos que desavergonhadamente fazem uso de trilha sonora manipuladora. Qualquer espectador “normal” será pego muitas vezes de surpresa, especialmente nos dois primeiros episódios, quando a novidade e o mistério são substancialmente maiores. Além disso, a concepção da “criatura”, em meio a um particularmente fértil ano de criações desse naipe, é memorável. O sujeito que vemos na imagem escolhida para ilustrar a presente crítica é um daqueles que povoará os sonh… digo… os pesadelos de muita gente, assim como aquela feita só de dentes humanos da primeira temporada.

Lá pela segunda metade da temporada, porém, Antosca começa a ampliar de verdade a mitologia, mas sem trazer nada de muito novo em relação ao que veio antes. Sim, o nível de bizarrice talvez aumente, mas ela não é daquelas de nos fazer virar o rosto como a sequência do jantar encabeçada por Rutger Hauer na temporada anterior. São, apenas e tão somente reinterpretações do mesmo mesmo conceito em um loop repetitivo e, diria, cansativo, chegando a ser de revirar os olhos quando os poucos mistérios psicológicos e dos passados dos personagens são desnudados em minúcias desnecessárias. O que é novidade torna-se banal. O que é diferente, torna-se lugar-comum. E rapidamente demais, claramente demonstrando que, mesmo considerando o reduzido número de episódios, não havia história suficiente para preenchê-los.

Maria Sten, que vive Jillian, a esposa, e Brandon Scott (o Luke da temporada anterior), que vive Tom, o marido, no entanto, fazem um ótimo trabalho. Ambos convencem, sem muito esforço, sobre o quão genuíno aquele casamento parece ser, com sequências iniciais construídas milimetricamente para passar ao espectador a tranquilidade e a energia de um casal recém-casado. Ao mesmo tempo, porém, eles passam a impressão de que ambos carregam um peso difuso sobre os ombros que o espectador tem dificuldade de entender exatamente o que é. Essa carga emocional “fora do lugar” estabelece personagens particularmente complexos sem muita ajuda de textos expositivos até o final do terço inicial da temporada, quando os roteiros, então, passam a inserir diálogos e situações desenhadas para serem didáticas ao extremo, pegando o espectador pela mão e explicando tudo nos seu míííííínimos detalhes, como pede o Sr. Explicadinho de A Praça é Nossa.

Outro elemento que realmente chama atenção na temporada é o magnífico design de produção, notadamente os exteriores e interiores das casas que pontilham a série (são três no total). No lugar daquele cenário propositalmente desolado da “cidade de subúrbio americano” que vimos em No-End House, aqui vemos um cuidado e um esmero arquitetônico de se tirar o chapéu. Cada casa é milimetricamente escolhida – ou construída, confesso que não sei exatamente se foi locação ou cenário – para refletir de certa forma seus moradores, com especial destaque, claro, para a de Jillian e Tom. O jardim perfeito, a fachada inspiradora e a decoração interna passam a impressão exatamente de harmonia e tranquilidade que estabelecem o casal nos minutos iniciais. Por outro lado, a perfeição “exagerada”, daquelas de fotos de revista de decoração, tentam nos fazer ver que há algo de errado ali com os dois, algo que fica constantemente escondido muito próximo da superfície, escondido por uma película delicada e facilmente rompível. Mesmo com orçamento limitado, o trabalho da produção, neste quesito, me fez lembrar o mesmo tipo de abordagem arquitetônica de Big Little Lies.

Mas a fotografia também ajudou muito, alterando artificialmente, por meio do uso de objetivas e foco profundo, nossa percepção de tamanho de ambientes e distância entre pessoas, algo que E.L. Katz utiliza com detalhismo cirúrgico para transmitir estados de espírito sem que sequer precisemos ver os personagens. Reparem como o porão do casal de pombinhos muda de tamanho na medida em que a estranheza diminui e os personagens passam a acostumar-se com o ambiente. Reparem também nas salas de jantar e outros ambientes que encolhem para trabalhar intimidade da mesma maneira que aumentam para denotar distanciamento. E, claro, tudo ecoa perfeitamente bem com a ambientação do último episódio, que é, diria, o exato oposto de tudo o que foi detalhadamente abordado antes, emprestando um ar de conflito antitético que fecha muito bem a estrutura narrativa, apesar de seus problemas no miolo.

The Dream Door foi a aposta mais arriscada de Nick Antosca, que mostra não ficar satisfeito com sua fórmula de sucesso. Ele pode não ter sido tão bem sucedido aqui quanto foi nas três temporadas anteriores, mas é impossível ficar passivo diante de alguém que procura sempre nos surpreender e, mais ainda, tenta subverter fórmulas tão bem estabelecidas do gênero de horror.

Channel Zero: The Dream Door (EUA, 26 a 31 de outubro de 2018)
Criação:  Nick Antosca (baseada na creepypasta Hidden Door, de Charlotte Bywater)
Direção: E.L. Katz
Roteiro: Nick Antosca, Lisa Long, Isabella Gutierrez, Justin Boyd, Angel Varak-Iglar, Alexandra Pechman, Lenore Zion, Mallory Westfall
Elenco: Maria Sten, Brandon Scott, Steven Robertson, Barbara Crampton, Gregg Henry, Greg Bryk, Troy James, Diana Bentley, Steven Weber
Duração: 41 a 45 min. aprox. por episódio (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.