Crítica | Chantagem e Confissão

Chantagem e Confissão, primeiro filme falado de Alfred Hitchcock (e frequentemente apontado como o primeiro filme britânico falado), teve uma conturbada produção. O projeto inicial era para um filme mudo, e tanto o orçamento quanto metade das filmagens ocorreram segundo o que fora planejado. Até que a British International Pictures teve uma ideia. Assim que o diretor terminasse a versão muda (que chegou a ser exibida em muitos cinemas e até hoje existem as duas cópias disponíveis), ele poderia refilmar uma porção de cenas, adicionar algumas outras, fazer pequenas mudanças em relação ao elenco e então o longa se tornaria um filme falado! Diante da novidade, o jovem e experimentador Hitchcock abraçou a ideia de braços abertos. E assim lançou duas versões da película.

O roteiro de Hitchcock e Benn W. Levy (com a cena do museu concebida por Michael Powell, mas ele não foi creditado), adapta uma peça de Charles Bennett e acompanha a jovem Alice White (Anny Ondra), que namora Frank Webber (John Longden), um detetive da Scotland Yard. Não há um verdadeiro desenvolvimento da relação entre os dois, que mesmo no final do filme, quando as coisas estão muito ruins para o lado da jovem, não parecem ter o mínimo de intimidade ou mesmo química entre eles, sendo este um dos pontos fracos da obra, uma vez que a relação não convence muito o espectador. Mas é justamente em torno desse par que o texto ergue o problema que veremos no filme, ou seja, o caminho para o assassinato.

SPOILERS!

No presente caso, Hitchcock discute a posição de uma criminosa diante do crime em si, levantando a legítima defesa como discussão e ao mesmo tempo apresentando uma terrível cena de tentativa de estupro, da qual não vemos nada, mas as sugestões que estão na tela bastam para nos deixar enraivecidos e entendermos a ação de Alice. Esta, todavia, é a problemática diante da qual o diretor se debruça, lembrando que estamos num filme de 1929 e, tanto a postura da mulher (arrumar um namorado já tendo um namorado) quanto a situação do esfaqueamento tinham discussões bem diferentes daquela que temos hoje em nossa sociedade.

Tecnicamente falando, o filme sofre com as experimentações sonoras. O trabalho não se alinha bem à obra e está apenas em alguns pontos, não tendo som-ambiente aceitável ou mesmo diálogos em cenas complementares, o que nos deixa por bons minutos em silêncio até que outro diálogo apareça. Evidente que estamos diante de um filme do início da era do som, mas isso não tira o fato de que a forma utilizada aqui acaba atrapalhando a obra, o que não acontece na mesma medida em sua versão muda (um pouquinho superior à sonora).

Visualmente, o filme nos traz algumas belas surpresas. Uma delas é a estrutura da história num ciclo policial (a primeira e uma das últimas cenas se ligam a partir de um mesmo ponto de partida: a roda do carro de polícia em direção a algum lugar), trazendo pontos de ruptura que são maravilhosos, como as alucinações de Alice após sair da casa do homem que matou e também quando confrontada com algo que a lembra daquela terrível noite (uma certa pintura — que muda de algo jocoso para tenebroso — tem um papel bem importante nisso). Algumas excelentes composições de plano como o casal subindo as escadas, no início; uma conversa por telefone entre alguém e a polícia; e a sequência no museu merecem igualmente ser citadas como boas marcas da direção.

Mesmo que finalizado num patamar demasiadamente moral e sem um maior interesse do roteiro em tornar o dilema de Alice algo menos melodramático para se discutir, o filme consegue chegar a um bom ponto final, com uma nota amarga, típica do diretor, colocando o humor externo em confronto com o tormento de uma pessoa. Um dos filmes mais duros da primeira fase de Alfred Hitchcock como diretor.

Chantagem e Confissão (Blackmail) – Reino Unido, 1929
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock, Benn W. Levy (adaptação da peça de Charles Bennett)
Elenco: Anny Ondra, John Longden, Sarah Allgood, Cyril Ritchard, Charles Paton, Donald Calthrop, Hannah Jones, Harvey Braban
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.