Crítica | Chaplin (1992)

Cinema é uma arte difícil e complexa. Roteiro, direção, atuação, iluminação, figurino, maquiagem, fotografia e trilha sonora são alguns (dentre tantos outros) fatores envolvidos na concepção de um filme. Imagine a quantidade de pessoas e trabalho existentes em torno de uma obra do gênero. Agora, depois desse breve exercício, imagine tudo isso somado ao peso extra de que estão filmando sobre a vida de um dos maiores gênios dessa arte e, naturalmente, a expectativa sobre o resultado, principalmente do público, é gigantesca. A responsabilidade chega assustar, não é? Para alegria de todos os cinéfilos e apaixonados pela sétima arte, Chaplin, dirigido por Richard Attenborough, é uma cinebiografia digna do tamanho e da genialidade de Charles Spencer Chaplin, apresentando desde sua infância humilde em Londres até seu exílio na Suíça.

Muito antes de interpretar por uma década o “gênio, bilionário, playboy e filantropo” Tony Stark nos filmes do Homem de Ferro (e entrar para o grupo de Hugh Jackman de “atores que nasceram para interpretar esse personagem”), Robert Downey Jr. teve a missão, 16 anos antes, de representar o criador do icônico Carlitos e um dos mestres do cinema mudo. E, novamente, para nossa alegria, o resultado é absolutamente satisfatório. Inclusive, a atuação de Downey Jr. é, sem sombra de dúvidas, o ponto mais alto do filme.

A maneira como o ator absorve as principais características de Chaplin, como o andar clássico do Vagabundo, é deslumbrante, a ponto de questionarmos se não houve algum tipo de mágica que possibilitasse a encarnação do britânico no norte-americano. O já citado andar, as caretas, os trejeitos cômicos, a constante busca pela perfeição, o completo fascínio pela arte (além de atuar, Chaplin dirigiu, produziu, roteirizou e compôs para diversos de seus filmes) estão todos presentes tão fidedignamente que o encanto é imediato. O eterno Tony Stark, não à toa, concorreu ao Oscar de Melhor Ator naquele ano, um reconhecimento à altura de sua interpretação.

Além da espetacular atuação de Robert Downey Jr. como protagonista, Geraldine Chaplin (filha de Charles Chaplin) teve a difícil tarefa de executar o papel de sua própria avó paterna, Hannah Chaplin, que sofreu com enfermidades mentais desde a juventude de seu pai. Seu desempenho, no entanto, é extremamente bem feito e igualmente tocante, algo triste de certa forma devido ao pouco tempo de tela que lhe foi dado (assim como o grande Anthony Hopkins, que fez o papel de George Hayden, fictício biógrafo de Chaplin, e também dispôs de menos tempo de tela do que estamos acostumados a vê-lo). Acredito que ao lado do pouco tempo dado principalmente a Geraldine Chaplin, as relações amorosas do protagonista também foram retratadas de forma rápidas demais. Sim, é verdade que esse gigante do cinema teve diversas companheiras ao longo de sua vida e tomaria tempo demais da projeção mostrar detalhadamente todos, entretanto suas relações aparecem e desaparecem com tamanha velocidade e obviedade que torna-se previsível ao espectador anteceder os acontecimentos amorosos de Chaplin antes mesmo de se concretizarem.

Também é interessante notar como a arte, razão pela qual dedicou toda a sua vida, lhe trouxe tantas alegrias e felicidades e equivalentes problemas e tristezas. Enquanto visivelmente sentia-se realizado criando obras como O Imigrante e O Grande Ditador, a relação com seu irmão e empresário, Sydney Chaplin (Paul Rhys), estremecia-se cada vez que uma das obras de Chaplin continha críticas sociais (uma de suas marcas e um dos motivos que ocasionou seu exílio). O cuidado de Attenborough em apresentar esses extremos de sentimentos é tão perceptível que resulta numa emocionante película acerca de um dos maiores nomes que já tivemos o prazer de conhecer nessa arte. Uma verdadeira viagem para todos os fãs de Chaplin ou daqueles que desejam conhecer mais sobre a vida deste magnífico artista.

Chaplin (idem – EUA, 1992)
Direção: 
Richard Attenborough
Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman
Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Paul Rhys, John Thaw, Moira Kelly, Anthony Hopkins, Milla Jovovich
Duração: 143 min.

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.