Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Charada (1963)

Crítica | Charada (1963)

por Laisa Lima
218 views (a partir de agosto de 2020)

Filmes que brincam com jogos de gato e rato, ou seja, que mexem com a perseguição de um personagem ao outro (ou outros), em suas narrativas, existem aos montes. Como “pai” desse estilo, Alfred Hitchcock presenteou sua plateia com tramas complexas, quase indecifráveis, mas donas de um caráter memorável. Ladrão de Casaca (1963) e Janela Indiscreta (1954), por exemplo, ambas com a antológica Grace Kelly, nos fazem questionar alguns “quem” que só possuem solução no final do longa-metragem. Quem é o culpado? Quem é inocente? Quem realmente roubou a joia? Qual janela contém o assassino? É sempre uma aposta. Entretanto, para além do diretor também existem produções com alto nível de questionabilidade: Charada (1963), de Stanley Donen, segue os passos certeiros de Hitchcock ao criar dúvidas a princípio já encurraladas. Será que é possível atingir o patamar do Mestre do Suspense em relação a qualidade do próprio suspense?

Se Grace Kelly tinha seu brilho exaltado nas películas de Hitchcock, Audrey Hepburn, aqui, não passa despercebida pelo olhar de Stanley Donen. Como Regina Lambert, a atriz representa as fases de alguém confusa com uma situação inesperada: seu marido morre repentinamente e um trio de assassinos acredita que a moça esconde US $250.000 escondidos por seu esposo falecido. No meio disso, aparece Peter Joshua (Cary Grant). Com Paris como plano de fundo, os dois se aproximam, porém sem clareza nas intenções da parte de Peter. Quando todos são prováveis ameaçadores, Regina desconfia de seus contatos próximos, mas sem deixar de se entregar, o que é aparentemente da natureza da personagem. Contudo, essa ingenuidade não é compartilhada por todos, o que faz com que a não confiável – visto o pré-conceito de que não há quem esteja isento de mentiras – falta de culpabilidade de Regina se torne alvo de mais hesitação ainda.

No início de Charada, Peter é como um herói. Seu papel de salvar a mocinha dos perigos de ser procurada e capturada por homens maus, e sua superficial integridade o lançam para o status de grande pilar do resgate de Regina. Porém, as camadas que fazem do protagonista uma incógnita não são decifradas de supetão; aos poucos, sua tal tenacidade é posta à prova e o seguimento de sua fidelidade a personagem de Hepburn não é tido como algo sólido e muito menos sincero. O mérito do roteiro está aí: fazer o espectador esperar o inesperado. Por mais que quem ameace a jovem não seja assustador o suficiente para aumentar um medo que é necessário nesse tipo de filme, o texto é capaz de ser sagaz e provocador da dubiedade no pensamento da audiência. O benefício da dúvida, então, é concedido ao ministrar diálogos genuínos, que englobam assuntos triviais de maneira espontânea, e mostram-se detentores das várias facetas das figuras do longa-metragem. Além do mais, a separação dos que expõem seus verdadeiros objetivos e aqueles que são potenciais falsários se unem em falas que apenas deixam a entender algo subentendido, mas sempre com instigação.

Com o auxílio de uma orquestra crescente, pontual e característica de filmes, além das entradas sempre triunfais com abuso de sombras de contraste claro-escuro, o ingrediente principal da obra se designa aos intérpretes. Hepburn, versátil como sempre, exibe um carisma que Regina precisava ter para a conclusão de uma jovem mulher perdida nos acontecimentos à sua volta. Carregando a suposição de ser a única a expressar a verdade ali, a personagem coordena o que o espectador pode saber por meio das informações que a própria obtém e das noções que definem seu caminho. Cary Grant, no entanto, embora participe de um romance em alguns instantes forçados com a protagonista, transparece um certo desconforto com seu Peter, notando-se mecânico em cenas específicas, como algumas com sua parceira. Contudo, grande parte da essência da obra não é perdida por esse incômodo, desde que seja considerado que Cary Grant nunca é de todo ruim.

Stanley Donen, já familiarizado com a Paris de, por exemplo, Cinderela em Paris (1957), mas não expert em filmes de mistério, realiza uma produção concisa em sua estrutura narrativa e em seu quesito visual. Os atos, divididos entre o desenvolvimento do temor de Regina, o romance e a conclusão das perguntas feitas durante toda a obra, são espaçados a ponto de serem marcados, ainda que existam escolhas errôneas neles. Os cortes secos e brutos são umas destas predileções que soam não sutis. De resto, a sustentação da história à base de irresolução e logo após isso uma pequena dose de resolução, funciona como um instigador elaborado com um conteúdo palpável, por mais que não dê para compreender a realidade dentro do longa-metragem. A comédia, falha em alguns pontos e aliviante em outros, mescla a seriedade e a despretensão, podendo ser olhada como uma especificidade que reúne os mais diversos públicos e os mais diversos gostos, sendo isso bom ou não.

Charada pode até não ser uma das melhores obras  de perseguição e – se permitem o trocadilho – “charada”. Todavia, Donen não decepciona. Com ares de um thriller leve com uma comédia transitória, o longa-metragem é questionável do início ao fim; as indagações alcançadas fazem dos questionamentos uma linha constante de tentativa e erro do que diz respeito às adivinhações que a película sugere, tal qual quem roubou o dinheiro do ex esposo de Regina. Seus personagens (não contando com os 3 criminosos, um fator débil no filme), Regina e Peter, abrilhantam a produção a um estado de impossibilidade de não reconhecer o mérito de ambos, que a elevam bem mais. Logo, o filme penetra na atenção do espectador caso o mesmo esteja envolvido com o enredo dos dois, anexando suas frustrações ou suas tentativas de enganação, no caso de Regina e Peter, respectivamente, em sua própria vontade de seguir pela trajetória de descobrimento. E o emaranhado de desarranjo igualmente à motivação de prender o público através de sua curiosidade. Até porque, ser curioso é o componente básico para adentrar em um mundo onde pouco se sabe sobre tudo. Definitivamente, Charada possui elementos comuns, mas não é um filme cotidiano. 

Charada (Charade – EUA, 1963)
Direção: Stanley Donen
Roteiro: Peter Stone, Marc Behm
Elenco: Cary Grant, Audrey Hepburn, Walter Matthau, George Kennedy, James Coburn, Dominique Minot, Ned Glass, Jacques Marin, Paul Bonifas, Thomas Chelimsky, Chantal Goya, Mel Ferrer
Duração: 113 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais