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Crítica | Chevolution

por Leonardo Campos
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A icônica imagem de Che Guevara fotografada por Alberto Korda no dia 05 de março de 1960 é o tema de Chevolution, um documentário interessante que não foca o seu discurso na trajetória de vida o revolucionário que divide opiniões políticas, mas no legado da foto que saiu de uma situação ao acaso e se transformou numa das representações mais icônicas dos movimentos que se revelam como o establishment de uma determinada época. Dirigida e escrita por Luiz Lopez e Trisha Ziff, a produção nos apresenta a trajetória da imagem em questão, clicada enquanto Fidel Castro discursava ao lado de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Che Guevara, representante das revoluções de sua época, curiosamente eternizado e retomado constantemente pelo sistema que ele próprio renegava, o capitalismo, responsável por manter aquecida a indústria cultural que fez a sua imagem circular vertiginosamente por camisetas, bandeiras, maços de cigarro, canecas e até mesmo biquinis de marcas brasileiras.

Com depoimentos captados pela direção de fotografia tradicional de Jan Pester, prático na concepção das cabeças falantes, Chevolution é um documentário que conta com o apoio da sua edição eficaz, juntamente com os efeitos visuais de Clay Twell, para ganhar mais concisão e explorar de maneira fluída a quantidade de informação disposta. O material é acompanhado pela condução musical de Joseph J. Gonzalez, responsável pela composição que não permite a presença de uma música intrusiva demais, algo que evita a dispersão e mantém o ritmo ideal ao longo dos breves 86 minutos de produção focada exclusivamente numa única imagem e sua propagação no imaginário cultural mundial. Logo na abertura, várias imagens de guerras e conflitos são expostas, com cartazes ilustrativos, focados na imagem de Che Guevara. Alguém diz que “ele está em toda parte” e outro revela que “as vezes as pessoas usam, mas nem sabem quem de fato está na imagem”. São comentários que reforçam a “universalidade” da foto.

Havana e sua cultura são elementos apresentados no documentário como parte do playground dos Estados Unidos na época. Os cabarés, as ruas e a fervilhante vida noturna ganham notoriedade num breve trecho da produção, juntamente com uma econômica biografia do homem representado na foto. Diante do exposto, torna-se válido ressaltar que Chevolution é um documentário sobre semiótica, diferente da ideia de cinebiografia que pode tomar de surpresa alguns desavisados. Com depoimentos diversificados, desde a filha de Alberto Korda aos atores Antonio Banderas e Gael Garcia Bernal, contrários ao rumo tomado pela foto, totalmente em desacordo com os ideais do representado. Isso fica ainda mais delineado numa passagem curiosa da produção, enquanto entrevista uma jovem estadunidense que se diz republicana e veste a camisa com a imagem de Che, acompanhada da seguinte expressão: “essa imagem pode circular por causa do capitalismo”. Ela é apenas um dos diversos personagens sociais representados ao longo do filme, todos com alguma relação com a tal imagem.

Editado por Luiz Lopez, em dupla função, Chevolution é um documentário muito eficiente em sua jornada de interpretação contextual e visual da “Monalisa das fotografias”, imagem icônica que integra o feixe das mais representativas do século XX, aparentemente surgida ao acaso, mas parte integrante do interesse de Fidel Castro em registrar e documentar a sua revolução. Atualmente intitulada de Guerrilheiro Heroico, a imagem foi realizada quando os mencionados anteriormente participavam do funeral das 136 vítimas de um ataque terrorista contra o navio La Coubre, no porto de Havana. Foi lá que ao ser clicado, Che teve a sua foto arquivada por um tempo e depois enviada ao editor Giangiacomo Feltrinelli. Essa é a versão mais aceita pelos envolvidos, inclusive a filha de Korda. O francês teria publicado uma edição da revista Paris Meet na ocasião da morte de Guevara e a foto foi graficamente remodelada, transformada em algo ainda maior depois que o artista Jim Fitzpack criou novas definições.

Assim, na linha do que Andy Wharol estabeleceu na arte pop, a imagem do revolucionário sul-americano transbordou mundo afora por meio da poderosa semiótica que a fez sair de um momento político para uma capa de revista e depois para meios de reprodutibilidade ainda mais frenéticos que o jornalismo impresso. Desde os movimentos de 1968, Che teve a sua imagem explorada pelos que a buscaram como ícone representativo da rebeldia, da inconformidade, feixe e significações que ainda possui os mesmos significados na atualidade. De acordo com o documentário, a própria jornada de Che e os desdobramentos de sua morte são possuem dimensões bíblicas, tamanha a comoção para uns e a desconfiança para outros. A exposição do seu corpo, a contemplação das pessoas e o que procedeu depois de tudo isso é retratado como algo singular na história do século XX, o espaço do contexto de transformação da imagem foco do documentário lançado em 2008 e como dito anteriormente, ainda bastante atual.

Chevolution — Estados Unidos, 2008
Direção: Luiz Lopez, Trisha Ziff
Roteiro: Luiz Lopez, Trisha Ziff,
Elenco: Antonio Banderas, Gael Garcia Bernal, Tom Morello, Miguel Nájera, Gerry Adams
Duração: 86 min.

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