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Crítica | Chorão: Marginal Alado

por Kevin Rick
2079 views (a partir de agosto de 2020)

Chorão é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores artistas da história da música brasileira, independentemente se você gosta ou não do trabalho da banda Charlie Brown Jr., ou então da pessoa Alexandre Magno Abrão. Aliás, isso não poderia ser mais óbvio para qualquer pessoa que consome arte, mas ainda é preciso continuar enfatizando: devemos separar a obra do artista. Inacreditavelmente, grande parte do público ainda não faz essa necessária distinção, extremamente importante ao falarmos sobre Chorão, o vocalista que marcou uma geração, um compositor genial e alguém que soube colocar em palavras sua dor, felicidade e dúvidas como poucos, mas que sempre foi uma pessoa volátil e polêmica.

Chorão: Marginal Alado assume a dificílima tarefa de retratar a dualidade do rockeiro paulista amado por muitos, odiado por tantos e entendido por poucos. E, logo de cara, com a introdução virtuosa e enaltecedora do talento e caráter esforçado do artista, a proposta compreensiva do diretor Felipe Novaes é estabelecida, em um filme que mantém um olhar carinhoso e afetivo para a figura controversa do cantor. E não vejam essa ideia branda, até meio defensiva do documentarista, como um elemento puramente negativo, pois, diferente do que muitas pessoas pensam, documentários não devem de maneira alguma ser imparciais. Assim como num filme fictício, a abordagem de um documentário está dentro da visão do diretor sobre o tema em questão. E Novaes claramente se posiciona como um protetor do legado pessoal de Chorão, mas, infelizmente, falta entender que retratar a questionável personalidade do vocalista não diminuiria seu valor artístico ou iria contra sua admiração.

A montagem comum do filme se enquadra nesse tom benigno, bem fã mesmo do artista, dividida entre entrevistas unicamente de amigos e familiares, imagens de Chorão como skatista, vocalista e também o humano solitário, cansado e depressivo. Grande parte dos depoimentos partem da homenagem e não do real, do reflexivo, retirando-se do campo da ambiguidade moral que caracterizou a vida e carreira do Chorão. O visual é bastante ordinário, e não foge da estrutura esperada de um documentário biográfico de um ícone falecido, mantendo uma cadência de retrospectiva geral do ínicio pueril e brilhante até que a estrada, o trabalho e a pressão consumiram o artista. 

Contudo, numa nota positiva, o cineasta tem êxito na identidade cinematográfica marginal de Chorão. O espectador é inserido com naturalidade neste universo periférico e exilado que o artista vivia, e que assumiu como parte da sua música. A obra, apesar de tentar manter uma imagem incólume do cantor, sempre descrito como poeta perfeccionista mal-entendido, consegue se desvencilhar de uma narrativa solenemente histórica ou superficial, algo que passei a temer com o tom de tributo da primeira metade do documentário. Falando bem pouco sobre a banda Charlie Brown Jr. ou sobre o músico Chorão, o cineasta coloca em foco a personalidade problemática do sujeito da obra à medida que nos aproximamos do desfecho. Acredito que a idealização personalíssima é o melhor efeito neste tipo de documentário biográfico, mas, como eu disse anteriormente, Novaes retorna ao aconchego de ode, fugindo do aprofundamento na agressividade, antipatia e uso de drogas do Chorão, buscando nos depoimentos familiares uma maneira de simpatizar as besteiras do artista. Não sou a favor de um tom de julgamento, mas Novaes escapa bastante da exposição dúbia do Chorão. Algo que poderia ser reflexivo e introspectivo da vida insana do vocalista acaba se resignando ao tributo.  

Ainda acho o saldo positivo por causa de outro retrato da multifacetada personalidade de Chorão: sua tristeza e melancolia. Novaes faz um belíssimo exercício da auto decepção que o cantor sempre se colocou, e o buraco depressivo que acompanhou sua vida pessoal e artística. Sua música sempre exteriorizou esta persona trágica do compositor, e o documentário utiliza as entrevistas de pessoas próximas para construir o quadro angustiante e desolador que o artista vivia. Infelizmente, a experiência geral é meio vazia de substância, como ver uma reportagem após o falecimento que busca uma mensagem de conforto. Há um grande cuidado em torno da imagem do artista, mas faltou um aprofundamento reflexivo na personalidade errática de Chorão. Ele viveu e agiu como queria, o afável e o desagradável, mas Chorão: Marginal Alado procura com afinco o elogio e mostra bem pouco do inconveniente.

Chorão: Marginal Alado – Brasil, 2019
Diretor: Felipe Novaes
Roteiro: Felipe Novaes, Hugo Prata, Matias Lovro
Duração: 75 min.

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