Crítica | Ciclocidades (2011)

As discussões que gravitam em torno do uso de bicicletas e automóveis como recurso de deslocamento no cenário da mobilidade urbana são constantemente permeadas por posições maniqueístas. De um lado, há os interessados apenas nos carros como meio de circulação pelas artérias destes verdadeiros organismos vivos chamados de grandes metrópoles. Do outro, os ciclistas coagidos pelos recursos dominantes, pequenas células dentro de um sistema que envolve politicagem e outras forças opressoras. A pergunta que se estabelece diante do apresentado é a seguinte: não há alternativa que viabilize a coexistência de ambos, respeitados dentro dos limites de cada um? É preciso anular o uso do carro em sua totalidade ou tornar a bicicleta o grande inimigo dos condutores de automóveis? Lançado em 2011, Ciclocidades, documentário escrito e dirigido por Uirá Lourenço, discute de maneira didática o assunto, mas estruturado numa estética nada atraente, algo que pode inviabilizar a credibilidade do seu material enquanto entretenimento (esse não é mesmo o foco), mas talvez conscientizar se utilizado no âmbito da educação, seja de crianças, jovens ou adultos.

Durante meu percurso de análise na seara das narrativas sobre mobilidade urbana nos últimos anos, o carro é sempre apontado como uma máquina de matar. Destrói o meio ambiente com as suas emissões de gases combustíveis, causa transtorno pelo volume nas vias de cidades despreparadas para o fluxo de condutores, dentre outros problemas que podemos ver em produções de maior orçamento e circulação, tais como Bike vs. Carros, Urbanized, Motoboys – Vida Loca, O Veículo Fantástico, Memória em Branco, Luto em Luta, etc. No desenvolvimento esteticamente precário, mas pedagogicamente utilitário de Ciclocidades,  as questões são as mesmas, tendo como vantagem alguns tópicos adicionais. Há uma série de exposições sobre os conflitos entre ciclistas e motoristas, com depoimentos que apontam o desinteresse do estado no que diz respeito ao investimento em vias de deslocamento para bicicletas, num orçamento público e produção industrial nacional focado na ideia de desenvolvimento para as pessoas que possuem carros. Ser ciclista é algo mais aventureiro, menos adequado, segundo a visão hermética de pessoas que enxergam no automóvel o avanço da modernidade, sendo a bicicleta uma simbologia regressiva na escala evolutiva do homem capitalista.

Essa última questão, inclusive, se desenvolve em Quicksilver – O Prazer de Ganhar, produção estadunidense dos anos 1980 que refletia algo ainda em voga nos debates sobre mobilidade quase 40 anos depois. É a comprovação de um tema que não se esgota e da sua necessidade de ser reiterado. Parte integrante de um trabalho conclusivo de Jornalismo numa universidade de Brasília, as imagens do documentário foram registrados pelo próprio realizador, adequadas para a proposta acadêmica, inclusive em alguns registros polêmicos onde ele se coloca como observador, sem intervenção no ato de se deslocar dos personagens sociais que compõem a tessitura de sua tese. Incoerente observar pessoas circundantes com bicicletas sem uso de qualquer EPI. Isso nos levanta a indagação sobre o modo de documentar. Seria uma estratégia de dupla denúncia de Uirá Lourenço, ao não editar cenas de uma realidade dura, como por exemplo, crianças transportadas na traseira de bicicletas em vias movimentadas, ou então, um cidadão que se desloca para o trabalho sem proteção alguma numa “autoestrada”.  É como documentar algo sobre condutores e apresentá-los todos sem problematizar a ausência de seus respectivos cintos de segurança. Algo no minimo curioso, ambíguo para nossa interpretação.

Ademais, vamos aos destaques: na abertura, o realizador entra com a sua narração em tom de denúncia, num paralelo com a necessidade de reflexão. Carros, ruas, a vida agitada do contemporâneo. Congestionamentos, flagras de uma mulher que estaciona numa faixa de segurança, o questionamento sobre pessoas que usam carro para ir na academia ou padaria sediada no próprio bairro. Não é por causa da ineficácia estética que Ciclocidades deixa de ter seus momentos de inteligência irônica. Lourenço acerta ao focar numa placa de 80 km/h de uma via que em muitos momentos, não consegue ultrapassar os 15 km/h dos engarrafamentos que esmagam veículos e pessoas pelas ruas de Brasília, seu espaço geográfico delimitado de abordagem, um ambiente que pode refletir a dinâmica de mobilidade urbana de qualquer outra cidade do país.  As cruzes brancas que beiram algumas estradas e as cenas de acidente apresentadas, provavelmente recolhidas de arquivos da mídia, não acrescentam nada ao que já é mencionado pela narração. Em seu percurso, entrevista ciclocatadores (pessoas que recolhem recursos recicláveis nos lixos alheios e se deslocam de bicicletas) e outros cidadãos que atravessam as vias da cidade de bicicleta.

Diante do exposto, o que podemos observar é a busca de determinados grupos por espaço igualitário, algo que não ocorre na dinâmica cotidiana das grandes cidades que pulsam em publicidade e investimento de capital para a indústria dos carros e deixam outras ofertas menos (ou quase nunca) privilegiadas. Vontade de pedalar é o que não falta para tanta gente engajada com a causa que envolve meio ambiente e a própria saúde. No entanto, como arriscar a vida em vias ameaçadas por motoristas agressivos, bocas de lobo mal posicionadas, sujeira em demasia, tampas de bueiro desniveladas, asfalto repleto de buracos terríveis até mesmo para os carros, geralmente desnivelados por causa da ação do tempo. Como ser ciclista encorajado desta maneira? Difícil, não é mesmo? Aqui, entro em diálogo com um detalhe observado numa entrevista concedida por Zé Lobo, presidente da ONG Transporte Ativo. Ele diz que o carro funcionou bem nas cidades do século XX, mas com o seu vertiginoso crescimento, o caos se fez presente na cena urbana. Encerro reiterando outras considerações de Lobo, já tecidas brevemente em parágrafos anteriores: ambos os recursos podem ser modais,  bicicleta não precisa ser inimiga dos automóveis e vice-versa. Basta saber as melhores estratégias para essa conscientização, outro grande desafio dentro do cenário brasileiro, haja vista a dureza dos nossos habitantes diante da capacidade de refletir e pôr em prática, investimentos que foquem em melhorias de cunho coletivo, sem concessões apenas na contemplação de seus interesses particulares.

Ciclocidades — (Brasil, 2011)
Direção: Uirá Lourenço
Roteiro: Uirá Lourenço
Elenco:Uirá Lourenço
Duração: 20 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.