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Crítica | Cidade Ardente

por Ritter Fan
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Existem filmes que, por serem muito bons ou muito ruins, são destinados a serem lembrados para sempre, reservando um lugar de destaque, para o mal ou para o bem, na mente do espectador. Há outros – e que infelizmente não são poucos – que mal registram no radar cinéfilo a não que haja uma razão exógena não relacionada com a obra em si, como a “primeira vez que alguém foi ao cinema” ou “como conheci minha futura esposa”. Essa segunda categoria de filmes, diria, é a pior delas, pois é apenas capaz de causar indiferença e apatia, destinando a obra ao mais completo esquecimento. Chega ao ponto de a classificação acima ser enganosa, pois o filme não é exatamente ruim, nem bom. Ele apenas é…

E, mesmo que contra todas as probabilidades, esta é a situação de Cidade Ardente, um filme que tinha absolutamente tudo para ser lembrado como um marco qualquer, mas que muito provavelmente sequer é lembrado. Mas porque “contra todas as probabilidades”, afinal? A resposta é muito simples: Clint Eastwood e Burt Reynolds, na época de sua produção, eram dois dos mais importantes astros de Hollywood e sua reunião, pela primeira – e que acabou sendo única – vez em tela, em uma longa de época escrito e dirigido por ninguém menos do que Blake Edwards, responsável pela franquia da Pantera Cor-de-Rosa e sucessos como Um Convidado Bem Trapalhão, Mulher Nota 10 e Vítor ou Vitória? era como aquele alinhamento astral perfeito que determinava seu sucesso imediato ou, na pior das hipóteses, um fracasso tão retumbante que marcaria a Sétima Arte como o execrado Portão do Paraíso, de 1980.

No entanto, o que acabou chegando às telonas foi um longa dirigido pelo burocrático e sem graça Richard Benjamin, depois que Blake Edwards foi demitido ainda em pré-produção – dizem as más línguas que por pressão de Eastwood – que o levou ao ponto de sequer querer ter seu nome ligado ao filme, substituindo-o por Sam O. Brown (S.O.B., sigla de “filho da p%t@” em inglês e também título de seu longa de 1981, o que muito claramente demonstra seus sentimentos com a coisa toda) no roteiro, com direito, ainda, a Burt Reynolds quebrar a mandíbula durante as filmagens, levando à paralisação geral da produção por mais de um mês, seu emagrecimento radical que levou até mesmo a suspeitas sem fundamento de que teria contraído AIDS, legando-o um vício em remédios contra dor que duraria anos. Ou seja, o alinhamento astral que mencionei foi de outra completamente oposta natureza.

Mas o pior nem está nos bastidores, pois esse tipo de celeuma nem é algo tão raro assim na máquina hollywoodiana. O problema do filme é que, muito, mas muito longe de ser “ardente” com seu título dá a entender, está mais para morno, quase frio, como uma daquelas sopas sem gosto servidas em hospitais (e provavelmente em prisões). É o famoso “não fede, nem cheira” com uma história de gângsteres rivais que correm atrás de um MacGuffin de posse de Dehl Swift (Richard Roundtree, mais conhecido por seu icônico Shaft) que acaba envolvendo o vigarista boa vida Mike Murphy (Reynolds), parceiro dele em uma agência falida de detetives e o detetive durão Speer (Eastwood), ex-parceiro, mas agora inimigo de Murphy em uma trama que não sabe muito bem se descamba para o pastelão ou se é apenas um drama leve, que ocasionalmente tenta ser engraçado, falhando fragorosamente.

Em outras palavras, é Reynolds sendo Reynolds e Eastwood sendo Eastwood novamente, com a diferença que não há qualquer química entre eles e que seus personagens são tão genéricos e rasos que sequer conseguimos direito lembrar de seus nomes. Fica muito evidente que tudo é construído ao redor das duas celebridades para que elas brilhem por si só e carreguem o filme nas costas até a linha de chegada, mas que eles não parecem lá muito interessados em entregar performances que sequer possam ser chamadas de divertidas. Muito ao contrário, a dupla está no automático, sem esforço visível para fazer seus respectivos personagens parecem mais do que Reynolds e Eastwood caracterizados com figurinos dos anos 30 atirando e socando todo mundo. Em momento algum há o necessário mergulho na trama, que envolve mortes e sequestros, e em momento algum realmente nos importamos com o que está acontecendo.

E olha que visivelmente houve investimento no design de produção, com uma boa e eficiente recriação da Kansas City durante a Lei Seca em uma atmosfera que a fotografia de Nick McLean faz de tudo para pegar emprestado os cacoetes noir. Mas cenários, por melhores que sejam, sempre serão apenas cenários se a história não desposta como minimamente interessante e, mais ainda, se o elenco atua com a mesma profundidade dramática de bonecos de teste de impacto automobilístico. A conclusão não é que o dinheiro foi bem investido na reconstrução de época, mas sim completamente desperdiçado em um longa que é a encarnação perfeita da mais completa apatia e displicência.

Se pelo menos Cidade Ardente caísse na categoria do “tão ruim que é bom”, o longa teria algo a que poderíamos nos abraçar. Mas não. A produção existe em um limbo em que acompanhamos sem emoção o desenrolar banal da trama e, quando passamos pela experiência, não sentimos nada, seja alegria, tristeza, asco ou irritação. O que fica é o vazio e, claro, o arquivamento da obra na região do cérebro destinada a eliminar memórias que só ocupam espaço, sem ter qualquer outra função maior que isso.

Cidade Ardente (City Heat – EUA, 1984)
Direção: Richard Benjamin
Roteiro: Blake Edwards (como Sam O. Brown), Joseph Stinson (baseado em história de Blake Edwards)
Elenco: Clint Eastwood, Burt Reynolds, Jane Alexander, Madeline Kahn, Rip Torn, Irene Cara, Richard Roundtree, Tony Lo Bianco, William Sanderson, Nicholas Worth, Robert Davi, Art LaFleur, Jack Nance, Tab Thacker
Duração: 93 min.

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