Crítica | Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto

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A trajetória de produção para este filme foi uma verdadeira novela. Inicialmente oferecido e imediatamente recusado por Mario Bava, o longa tinha como roteiro um “quem matou?” clássico, descaradamente sugado de E Não Sobrou Nenhum, de Agatha Christie. A primeira recusa do Maestro do Macabro, no entanto, teve data de validade. Precisando de dinheiro, seu envolvimento com o projeto acabou sendo inevitável, e ele ainda precisou lidar com algo que, a curto prazo, fez com que odiasse o filme: a falta de tempo para preparação. Da assinatura do contrato para o início das filmagens, o diretor teve menos de uma semana para decupar, imaginar cenas a seu gosto, considerar exploração de personagens e trabalhar de uma outra maneira os assassinatos, como era sua intenção. E isso acabou tendo impacto na qualidade do filme.

Um ponto a ser considerado aqui é que desde a criação da pedra angular do giallo, com A Garota Que Sabia Demais, Bava vinha pouco a pouco se distanciando do formato “padrão” desse gênero, procurando renovar a maneira como ele guiava os assassinatos, a motivação/psicologia do assassino e a trajetória da investigação, assim como da caça do criminoso às vítimas. Mantendo o seu sempre aplaudível apuro estético, o diretor nos trouxe experiências diferentes em Seis Mulheres Para o Assassino (1964) e O Alerta Vermelho da Loucura (1970), de modo que Cinco Bonecas Para  lua de Agosto acabou também sendo parte desse exercício de diferenciação do método, embora não tenha sido totalmente uma escolha do diretor e sim um caminho de direção a que foi forçado por conta do pouco tempo para conceber ideias de como deveria dirigir o texto de Mario Di Nardo.

O nível de isolamento dos personagens, vindo do romance da Rainha do Crime, é colocado de maneira interessante aqui. Um grupo de indivíduos formado por um professor e cientista, alguns milionários com atividades criminosas e suas respectivas esposas vão passar alguns dias de relaxamento em uma ilha, onde aparentemente só mora uma família. No recorte de tempo da obra, porém, o casal está viajando e apenas a jovem filha se encontra no local. Ela é conhecida e tem acesso à casa dos ricaços, uma espécie de companhia inocente à qual ninguém presta muita atenção. De cara existem alguns desconfortos de justificativa nessa premissa, mas como sabemos, isso não é raro nos gialli e, para ser sincero, o roteiro de Di Nardo está repleto de problemas parecidos, com personagens bastante rasos (embora com um nível de encantamento alto, conquistado através da direção de Bava, na forma de expor esses indivíduos na tela) e alguns problemas de adequação de tempo narrativo (passagem dos dias) e principalmente de explicação para uma certa visita de oficiais da marinha à ilha, procurando levá-los ao continente.

O interessante, porém, é a forma como o diretor consegue trabalhar essas inconsistências e fazer algo que soa como verdadeira ironia ao gênero: esconder os assassinatos. Quase todos os personagens aqui morrem e todos eles são assassinados fora do quadro. Para um giallo — que tem os esperados assassinatos operísticos –, isso é uma mudança e tanto. Há, porém, um bom motivo para o diretor tomar esse caminho. O roteiro não está muito preocupado em colocar o mistério em torno de uma figura icônica. A figura aqui age nas sombras, pode ser um dos visitantes da ilha (ou até a jovem que está sozinha enquanto os pais viajam), mas isso não importa, não é o foco. O que interessa é o encadeamento dessas mortes e para onde isso nos irá levar. É aí que a ocultação dos assassinatos e certas piscadelas visuais e cheias de significados simbólicos ou metalinguísticos ganham terreno.

A manutenção de toda carne morta no freezer; a belíssima cena da briga entre os homens que acaba derrubando uma mesa cheia de globos de vidro (?), que descem as escadas e vão cair em uma banheira onde se encontra uma outra pessoa morta (minha cena favorita do filme); aquela brincadeira boba e muito representativa de um assassinato encenado em forma de ritual; e, por fim, a própria resolução do caso (parcialmente confusa e insatisfatória, mas ainda assim, representativa de um olhar diferente sobre o tema) dão a Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto a sua alma diferente dos pares, mesmo tendo aspectos reconhecíveis do gênero e também de seu diretor. Um filme odiado pelo próprio Bava mas que carrega coisas boas demais para ser simplesmente ignorado.

Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto (5 Bambole Per la Luna D’agosto) — Itália, 1970
Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario di Nardo
Elenco: William Berger, Ira von Fürstenberg, Edwige Fenech, Howard Ross, Helena Ronee, Teodoro Corrà, Ely Galleani, Edith Meloni, Mauro Bosco, Maurice Poli
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.