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Crítica | Cinco Semanas Num Balão, de Jules Verne

por Luiz Santiago
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Cinco Semanas Num Balão tornou-se célebre por ter sido a primeira obra de Jules Verne a ganha ampla aceitação e trazer ingredientes narrativos que encontraríamos em muitos de seus romances posteriores. Nessa história, ambientada em 1862, começamos com uma reunião na Real Sociedade Geográfica de Londres, onde o Dr. Samuel Fergusson é apresentado como o grande explorador da Nova Era, com sua corajosa proposta de cruzar o continente africano de uma costa à outra (da ilha de Zanzibar ao Senegal) a bordo de um balão.

Ao lado de seu jovem e fiel criado Joe Wilson e de seu amigo escocês Dick Kennedy, o Doutor Fergusson cria uma maneira diferente de guiar o balão e, nos primeiros capítulos do livro, temos uma intensa preparação para a viagem, o que pode ser um pouco decepcionante para o leitor que esperava uma trama de exploração desde as primeiras páginas — e em parte essa decepção é compreensível, já que esse primeiro momento do livro poderia ser encurtado a fim de dar espaço às sequências que estivessem ligadas à promessa maior da obra. Todavia, quando a viagem de balão realmente começa, o leitor é abraçado pelo fascínio geográfico criado por Verne e simplesmente aproveita a jornada.

Muitas análises para esse e outros livros do escritor francês não raramente se enveredam pela pura e simples exposição do paternalismo e mentalidade europeia colonizadora que o autor coloca em suas narrativas, mesmo que em alguns momentos ele próprio problematize a postura acadêmica e tecnologicamente aprimorada do Velho Continente em relação aos chamados “selvagens” do continente negro ou de outros “lugares exóticos” que visita. É fato que o exotismo pauta os dramas verneanos, mas é preciso entender que estamos lendo uma obra europeia lançada em 1863, de modo que o autor apenas refletia o pensamento de seu tempo, principalmente nesse tipo de história de aventura e contrastes entre culturas.

Mapa de percurso do balão Victoria (linha vermelha).

O modo de escrita de Verne aqui lembra muito o de crônicas ou diários de viagem reunidos. Mesmo quando os exploradores ainda estão no navio, antes de chegarem a Zanzibar, a forma de descrição das paisagens e ocorrência dos perigos são bastante isolados, e a leitura segue uma espécie de montanha-russa de emoções: num momento apresenta uma grande crise; e em outro resolve-se esse problema para logo adiante adentrar em outro. As primeiras ocorrências desse modelo são boas, mas a repetição do método acaba tornando o texto um tantinho previsível em termos de encadeamento, embora o autor consiga nos surpreender com o tipo de obstáculo que aguarda o trio no balão alguns parágrafos adiante.

O final meio abrupto fecha o volume de forma coerente com o começo, com os exploradores de volta à “civilização” e sendo aclamados por tudo o que fizeram. Mesmo o autor tendo tocado no frágil ponto do sentido dessa expedição, ele acaba desprezando maiores conquistas cartográficas ou geográficas e torna a viagem e o exotismo do vasto território africano naquilo que de mais importante o livro tem par dar. Mesmo as premiações para o Doutor Fergusson parecem seguir esse padrão, mas não há nada de mal nisso, já que essa Viagem Extraordinária era de fato o grande objetivo de Cinco Semanas Num Balão. De todo modo, um pouco mais de enriquecimento da premissa não faria mal nenhum à aventura.

Cinco Semanas Num Balão: Viagem de Descobertas na África por Três Ingleses (Cinq semaines en ballon)
Série:
Viagens Extraordinárias (Les Voyages Extraordinaires)
Autor: Jules Verne
Editora original: Pierre-Jules Hetzel, França, 1863
Edição lida para esta crítica: Via Leitura, 2018
Tradução: Daniel Aveline
293 páginas

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