Home FilmesCríticas Crítica | Cinderela (2021)

Crítica | Cinderela (2021)

por Felipe Oliveira
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A história dela você já conhece, afinal, inúmeras adaptações tanto em animações quanto com live-actions foram realizadas da versão mais clássica do conto de a Cinderela. Releitura erótica, pop, musical, nacional e até uma com Hilary Duff,  em A Nova Cinderela, onde o item perdido não foi o sapato de cristal, e sim, um celular flip. Ainda que não tenha muito tempo desde que a tradução fidedigna de Kenneth Branagh no insosso filme de 2015, Cinderela, tenha chegado aos cinemas, estamos novamente diante de mais uma produção recontando o conto, e embora ousar na abordagem não seja um fator tão diferencial no meio dessas releituras, o longa escrito e dirigido por Kay Cannon (Não Vai Dar), chamou atenção pelo seu elenco e promessa de uma personagem empoderada como protagonista da história embalada em um musical de comédia e romance. As intenções em conceber isso são notáveis, mas assim como a magia para o baile é limitada, o encanto aqui dura pouco.

Como estrela da vez, a produção da Columbia Pictures conta com a ex-integrante da girl band do Fifth Harmony, Camila Cabello no papel de Ella, o que foi um dos principais motivos que direcionaram os holofotes e curiosidade para o longa, por Cabello estar em ascensão em sua carreira solo como cantora e encabeçar um filme de grande prestígio em sua estreia na atuação. Talvez, por ser um filme musical, a artista tenha encontrado facilidade em esbanjar carisma e desenvoltura, e rendendo um saldo positivo, Cabello conseguiu dar conta do enredo que adota um cinismo e sarcasmo autoconsciente para incutir o humor e satirizar a história. Por isso, Ella é sonhadora, porém muito atrapalhada, impulsiva, mas também persistente e decidida em como se imagina indo além da humilhação com a madrasta (Idina Menzel) e a poeira do porão, para fazer seu nome como estilista de vestidos.

Ao tempo que somos apresentados à trama através da narração de Billy Porter— que também interpreta o Fabuloso Fado Madrinho — ficamos a par de que, nesta versão da história, todos fazem parte de uma regência monótona de suas vidas e que não veem a hora de uma mudança radical — numa entrada muito boa do mashup de Rhythm Nation de Janete Jackson e You Gotta Be de Des’ree. A parte típica dos personagens, é a mesma: a madrasta Vivian não quer se permitir ao luxo de cair na falência, assim, espera que suas filhas Malvolia (Maddie Baillio) e Narissa (Charlotte Spencer) consigam casar e tirar a família da decadência. No entanto, como a ideia de Cannon é desconstruir o conto, seu roteiro busca explorar profundidade também na realeza, ao trazer figuras que se opõem às suas rotinas privilegiadas. Contrapondo o centro da conhecida história, a cineasta por trás de A Escolha Perfeita traz à luz a reflexão sobre a colocação da mulher numa hierarquia ditada pelos homens. O casamento, a ilusória carreira, fazem parte de um modelo estabelecido e temos através de Ella, a rainha Beatrice (Minnie Driver) e a princesa Gwen (Tallulah Greive) o questionamento e objeção para terem voz nessa narrativa bonitinha em que a jovem sonhadora só precisava de um príncipe encantado para encontrar a felicidade.

Bem como Ella não aceita passar toda sua juventude presa a uma vida de serviçal, o príncipe Robert (Nicholas Galitzine) não se contenta em ser apenas o encarregado de continuar a linhagem de seu pai, sendo o próximo a assumir o trono de Rei e ter de se casar às pressas para essa consumação. Nisso, o conto de fadas recebe uma injeção de comédia romântica no qual temos duas figuras muito distintas recebendo um empurrão do destino para se conhecerem. Das várias possibilidades, é com a atrapalhada Ella que Robert simpatiza e procura selar este amor, porque claro, era ELA, a garota ideal para se construir um futuro. Enquanto Ella quer também o amor, mas não está disposta a abrir mãos dos seus sonhos de estilista. Muito além do vestido belo, sapato de cristal e mágica momentânea que lhe proporcionaria um casamento real, e depois, uma realidade presa a um papel de coadjuvante na própria vida, Ella queria fazer vestidos e fazê-los deles seu nome e futuro, e não ser conhecida por aquela que se casou e trouxe felicidade ao príncipe. Reimaginando o conto, é contagiante como Cannon reescreve esta versão que se desobriga de rótulos e apresenta ao público um retrato empoderado e abrangente da Cinderela, usando do musical para movimentar essas linhas, o que termina sendo um dos deslizes mais notáveis.

Quando anunciado que Cinderela estaria ganhando mais uma adaptação cinematográfica musical, foi rápida a forma em que o estilo narrativo trouxe empolgação, e mais ainda, ao ser compartilhado que músicas pop seriam remodeladas para casar com a proposta do longa. Então, ter releituras de Somebody to Love da banda Queen — mais uma vez, depois de Anne Hathaway em Uma Garota Encantada — ou Material Girl de Madonna, atenuaram o acerto da produção em inserir um tom contemporâneo, remeter com o plano de ser um musical e coincidir tais composições aos personagens. Contudo, é estranho como o filme estrelado por Cabello, vira e mexe, não consegue entrar e sair com uma música, e pior, tendo em vista que o gênero musical se trata de um recurso para apresentação da trama, a impressão é que selecionaram uma faixa que casaria com a cena, colocou o elenco para regravação, não souberam encaixar na edição, e o resultado é algo que não consegue transitar de maneira orgânica e funcional entre os diálogos e o momento do elenco soltar a voz — exemplo disso, é para tão esperada cena de Billy Porter e seu Fado Madrinho com a faixa Shinning Star de Earth, Wind & Fire: embora a sequência sátira funcione, o curso sofre na mesma linha que quis ser inventiva e gozada. 

Além de narrador e Fado, Porter protagoniza mais um aspecto de Cinderela, agora por meio da figura que o representa na produção: a borboleta. Curiosa e propositalmente, o primeiro surgimento do inseto é ainda no estágio inicial, como ovo, onde Ella o coloca em uma caixa para acompanhar seu desenvolvimento. De fase em fase até chegar a forma de borboleta, o Fado/inseto funciona como um simbolismo da metamorfose que o universo de Ella e daqueles ao seu redor têm sofrido para atingir a mudança. E bem, no fim, as inclinações dos personagens são elementos que não alcançam a mesma intensidade de emoção e convencimento do que está contando, ao discorrer muito rápido nas transições dentro da fórmula que se propõe sem muito desenvolvimento.

Apesar da abordagem autoconsciente de escárnio, a qual, em alguns momentos, soa como um filme paródia de baixo orçamento da própria história, as apostas para efeito cômico não conseguem ir muito longe da sensação de que está forçando a barra, e no mínimo, sendo vergonha alheia, mesmo para um filme que brinca com a lógica desse conto de fadas. Pensado para ser uma estreia cinematográfica em grande estilo para um estúdio, o novo Cinderela é muito mais debochado do que parece ao imprimir este conto de fadas romântico com ares de comédia, que pra todo efeito, diverte, mas nem sempre parece um musical.

Cinderela (Cinderella) – EUA, 03 de setembro de 2021
Direção: Kay Cannon
Roteiro: Kay Cannon
Elenco: Camila Cabello, Nicholas Galitzine, Idina Menzel, Billy Porter, Tallulah Greive, Charlotte Spencer, Maddie Baillio, Minnie Driver, Pierce Brosnan, James Corden, James Acaster, Romesh Ranganathan
Duração: 153 min.

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