Crítica | Cinema Novo (1967)

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Produzido e originalmente narrado por K.M. Eckstein para o Canal 2 da Televisão Alemã (na versão brasileira a narração ficou a cargo de Paulo JoséCinema Novo também teve um título original diferente, literalmente traduzido como Improvisação com Objetivo Determinado. Sua concepção, em 1967, serviu para acompanhar reproduções de filmes brasileiros na Alemanha e em outros países da Europa, sendo o presente documentário uma forma de reunir informações sobre o “cinema brasileiro atual“, ou seja, em que atividades os principais diretores do país estavam engajados naquele momento, em avançada trajetória do Cinema Novo. Em seu texto sobre o filme, o próprio diretor do curta, Joaquim Pedro de Andrade, dá todo o contexto que precisamos:

Armados de uma câmera Éclair 16mm silenciosa e síncrona ligada por um cabo de pilotone a um gravador Nagra, acompanhamos os realizadores que trabalhavam no Rio de Janeiro durante o prazo fixado para a filmagem. Assim, muitos dos autores mais importantes do Cinema Novo aparecem apenas incidentalmente, enquanto outros, como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Domingos de Oliveira, Arnaldo Jabor e Carlos Diegues foram seguidos por nossa câmera enquanto se empenhavam nas várias fases de realização de um filme: roteiro de Garota de Ipanema, filmagem de El Justicero e Terra em Transe, montagem de A Opinião Pública, dublagem de Todas as Mulheres do Mundo e lançamento de A Grande Cidade. Não há encenação no filme. Câmera e gravador registraram os acontecimentos onde e quando eles espontaneamente se produziam, mostrando quem são, como trabalham e como vivem autores do Cinema Novo brasileiro.

Por ser essencialmente um curta-filme-reportagem, Cinema Novo tem suas limitações de continuidade, o que acaba sendo o grande problema no final: a despeito da excelente apresentação dos afazeres por trás das câmeras, tem a sua parte final marcada por uma longa peregrinação ao lado de Cacá Diegues e uma parte das filmagens de Terra em Transe, tudo isso sem uma finalização geral dos temas trabalhados, deixando no ar todos os pontos levantados pelo roteiro/narração… talvez como se quisesse reafirmar que tudo aquilo estava em andamento, portanto, “não tinha finalização”. Embora esta seja uma percepção verdadeira, o fato é que o filme merecia ao menos um apoio da narração — que esteve presente ao longo de toda a fita — para uma conclusão simples sobre os temas aqui desenvolvidos. Todavia, mesmo sem essa marca final, o curta é extremamente útil para que o público entenda um pouco como era o método de trabalho de alguns diretores nacionais, como alguns filmes foram produzidos e como era o contato entre os muitos nomes do nosso cinema naquela época.

A sensação que temos é que muito mais do que hoje, mesmo com redes sociais, facilidades ou rapidez de comunicação, os artistas brasileiros das mais diversas áreas se comunicavam bem mais, se reuniam, produziam juntos, se ajudavam. Algumas cenas deste documentário provam isso muito bem, e representam o espírito daquele momento de nosso cinema, algo que certamente foi se tornando cada vez mais impessoal, com contatos feitos através de agentes e representantes de estúdios, prática comum no meio industrial da produção cinematográfica em todo o mundo.

Mesmo com seu final meio solto, Cinema Novo é um daqueles grandes filmes que nos ensina, nos faz rir, nos impressiona e acende em qualquer cinéfilo o orgulho de ver grandes nomes da Sétima Arte brasileira juntos, fazendo cinema, fazendo história. Um documentário para aprender e mergulhar em uma nostalgia que deságua na inevitável comparação dos tempos cinematográficos, das condições de produção e qualidade das obras entregues ao público, abrindo espaço para um debate mais espinhoso e com perguntas como: o nosso cinema evoluiu? Está melhor, pior ou igual? Como é hoje o grupo dos grandes produtores da 7ª Arte no país? Que tipo de filmes vendem mais? Qual é a grande preocupação dos artistas em termos de cinema? O tipo de perguntas que pode colocar baldes de água fria na fervura após a sessão de um mar de grandes ideias na cabeça e câmeras na mão como esta.

NOTA: nos créditos finais deste filme, na versão brasileira restaurada e lançada em DVD, existem informações interessantes que acho importante trazer para complemento da crítica. Segue. “[…] Cinema Novo foi produzido em 1967 pela televisão alemã ZDF. A versão brasileira teve o financiamento da Cinemateca MAM/RJ. O negativo original em 16mm não pode ser localizado e a restauração de imagem teve como matriz um internegativo, feito a partir de uma cópia arquivada na ZDF. O som da versão brasileira provém da cópia na Cinemateca MAM/RJ, com 1 minuto e 40 segundos de cortes. A restauração sonora utilizou também o som direto do filme, recuperado a partir de magnéticos arquivados na ZDF. Manteve-se o sincronismo original do filme. A versão restaurada foi ampliada para negativo 35 mm. Restauração digital em resolução 2K concluída em São Paulo, em maio de 2005.

Cinema Novo (Improvisiert und zielbewusst) — Alemanha Ocidental, 1967
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Maurício Gomes Leite
Elenco: Paulo Autran, Joel Barcellos, Luiz Carlos Barreto, Maria Bethânia, Sérgio Britto, Zózimo Bulbul, Hugo Carvana, Emmanuel Cavalcanti, Arduíno Colassanti, Gustavo Dahl, Suzana de Moraes, Vinicius de Moraes, Domingos de Oliveira, Modesto De Souza, Carlos Diegues, Maurício do Valle, Jardel Filho, Joana Fomm, Elizabeth Gasper, Paulo Gracindo, Leon Hirszman, Arnaldo Jabor, Paulo José, José Lewgoy, Danuza Leão, Walter Lima Jr., Francisco Milani, Nelson Pereira dos Santos, Antonio Pitanga, Isabel Ribeiro, Glauber Rocha, Paulo César Saraceni, Joffre Soares, Zelito Viana, Leonardo Villar
Duração: 30 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.