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Crítica | Cinema Speculation, de Quentin Tarantino

Uma rica seleção cinematográfica.

por Ritter Fan
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Em 2021, Quentin Tarantino estreou na literatura de ficção com uma adaptação – ou, como comumente chamado, “novelização” – do roteiro de seu filme Era Uma Vez em… Hollywood e, agora, pouco mais de um ano depois, ele lança seu primeiro livro não-ficcional que é uma deliciosamente cinéfila mistura de autobiografia com críticas cinematográficas na forma de uma conversa divertida, instrutiva, polêmica e, por vezes, até emocionante. Na verdade, talvez Cinema Speculation não seja assim tão facilmente classificável, pois os elementos autobiográficos estão tanto fora quanto dentro do que não posso chamar exatamente de críticas, mas talvez de ensaios, possivelmente crônicas sobre uma seleção de 13 filmes (de 1968 a 1981 – cliquem no link para a lista completa e para nossas críticas) que ele aprecia em graus diferentes e por razões diferentes e que, de uma forma ou de outra, podem ter influenciado sua vida pessoal e profissional.

O primeiro capítulo – Little Q Watching Big Movies – talvez seja o único de cunho verdadeiramente autobiográfico, mas que contém apenas um recorte de sua vida em que ele orgulhosamente, quase que tirando onda mesmo, diz que sua mãe e seu padrasto o levavam para assistir todo tipo de filme nos cinemas desde quando ele tinha seis ou sete anos de idade. Tarantino fornece detalhes sobre as experiências, falando brevemente tanto dos filmes em si quanto dos cinemas em que eles passavam e, também, como ele e o público adulto ao seu redor reagia ao que era projetado nas telonas, valorizando algo tão “esquecido” hoje em dia que é a experiência cinematográfica pura e algo que ele valoriza até hoje na vida real ao prestigiar a filmagem em celuloide, ao exibir pérolas históricas de todo o tipo em celuloide no cinema de rua que comprou para evitar sua demolição, e ao fazer versões especiais de seus filmes como aconteceu com a Versão Roadshow de Os Oito Odiados. Percebe-se muito claramente de onde vem o amor do cineasta por filmes de todo o tipo, mesmo que os mais conservadores possam se horrorizar com as obras que sua mãe o deixava assistir em tenra idade. Esse início ricamente exemplificado com um dilúvio de citações a filmes, atores, atrizes, diretores e outros aspectos já dá o tom para as críticas que seguem.

E esse tom é o tom de conversa, como se Tarantino estivesse na sala do leitor debatendo sobre filmes, o que retira todo e qualquer tom professoral de seus comentários e traz algo mais íntimo, mais próximo mesmo de uma discussão vinda de uma pessoa com conhecimento enciclopédico sobre Cinema. Aliás, por mais cinéfilo que o leitor possa ser, Cinema Speculation não é para apenas ser lido como um livro comum. Ele precisa ser absorvido, pesquisado e conferido. Não digo que o leitor deve sair no desespero para assistir os filmes que ele cita (e não falo dos 13 principais apenas não), mas sim que ele deve estar preparado para anotar nomes e títulos e, com o tempo, pesquisar tudo, pois isso enriquece tremendamente a experiência.

Ainda que Tarantino tenha selecionado muitos filmes que envolvam violência, misturando não só obras famosas como Bullitt, Perseguidor Implacável e Amargo Pesadelo com outras menos lembradas como Irmãs Diabólicas, A Outra Face da Violência e Hardcore: No Submundo do Sexo, ele também fala de outras que não se encaixam facilmente em qualquer lógica que possa ser estabelecida em relação aos demais, notadamente Daisy Miller e Taxi Driver. No entanto, por exemplo, Daisy Miller está no livro porque o autor desejou homenagear a ator Barry Brown, que se suicidou com apenas 27 anos e a presença de Taxi Driver justifica-se triplamente, primeiro para ele estabelecer os paralelos do longa de Martin Scorsese com Rastros de Ódio, o que ele faz muito bem, segundo para ele abordar o porquê de a cor da pele do personagem Sport ter sido mudada de preta, como no roteiro original, para branca, com o papel indo para Harvey Keitel, no que ele gera uma polêmica interessante, e, terceiro, para ele justificar o título do livro e fazer sua especulação cinematográfica imaginando como teria sido o filme se Brian De Palma o tivesse dirigido já que, sim, ele foi o primeiro diretor a ponderar a possibilidade, ainda que, ironicamente, esse seja um dos mais fracos capítulos do livro.

Cada um dos seus ensaios sobres os filmes que se propõe a abordar é diferente em tom e foco, alguns levemente mais técnicos, outros muito mais focados em contexto sobre o cineasta e/ou roteirista e/ou atores e/ou recepção na época e assim por diante, o que mantém a leitura sempre refrescante e, de certa forma, inesperada, como é a defesa apaixonada dele sobre A Taberna do Inferno, filme dirigido, roteirizado, estrelado (e cantado) por Sylvester Stallone ou o ataque feroz que ele se permite fazer a Hardcore: No Submundo do Sexo, especialmente à segunda metade do longa. Em meio a tudo isso, ele cita outras críticas, autobiografias e biografias dos envolvidos e, mais interessantemente ainda, suas próprias conversas com nomes importantes, como Neile Adams, a primeira esposa de Steve McQueen, ou John Milius, o que empresta um grau ainda maior de pessoalidade a seus comentários.

Outras vezes, como é o caso de Pague para Entrar, Reze para Sair, o que Tarantino faz é usar a “desculpa” do ensaio crítico para fazer uma crônica que fala muito mais sobre as obras anteriores do diretor – no caso, Tobe Hooper – do que sobre a obra critica em si, com espaço para ele ainda inserir experiências formativas importantes de sua vida. O último capítulo, aliás, que segue a crítica do filme de Hooper, é integralmente dedicado a um homem chamado Floyd que basicamente o inspirou a ser quem ele hoje em dia é, em uma bela e tocante homenagem tardia.

Ah, um detalhe importante que eu já ia esquecendo: Tarantino não faz defesas absolutas das pessoas que admira. Sim, ele elogia muita gente, como os subestimados diretores Don Siegel e John Flynn, mas ele sempre mantém sua integridade ao apontar falhas e problemas em suas respectivas filmografias e tudo com uma linguagem informal, repleta de palavrões bem na linha do que esperamos do cineasta, mas sempre mantendo o afeto e admiração – em maior ou menor grau – que ele inevitavelmente sente por quase todo mundo que ele cita.

Cinema Speculation tem seus altos (muito altos) e baixos (pouco baixos), como todo o livro no formato de antologia, o que, no fundo, é o caso aqui, mas, no conjunto, a obra é uma leitura muito gostosa e satisfatória especialmente – mas não somente! – para cinéfilos que, tenho certeza, aumentará sobremaneira a lista de filmes a serem assistidos futuramente por qualquer um que realmente queira ter a experiência completa que Tarantino proporciona com sua valiosa e enriquecedora metralhadora cinematográfica. Já quero Cinema Speculation 2 para ontem!

Cinema Speculation (EUA, 2022)
Autor: Quentin Tarantino
Editora: Harper (HarperCollins)
Data de publicação: 1º de novembro de 2022
Páginas: 400

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