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Crítica | Cinzas Que Queimam

por Michel Gutwilen
245 views (a partir de agosto de 2020)

Em Cinzas que Queimam, o policial Jim Wilson (Robert Ryan) guarda muitos paralelos com o roteirista de cinema “Dix” Stelle (Humphrey Bogart), de No Silêncio Da Noite. Ambos são os protagonistas do diretor Nicholas Ray, em 1951 e 1950, respectivamente. Tratam-se de duas pessoas violentas, que agem mais na base do impulso do que da racionalidade, além da dificuldade em se relacionar com os outros. De outro modo, são antagônicos em um aspecto: enquanto Stelle sofria desconfiança de todos (até do espectador), Wilson é quem não confia em ninguém. Como seus próprios colegas dizem, é um homem que há 11 anos só convive perseguindo criminosos em vielas sujas. Sem família, ele não conhece nada além de vigaristas, assassinos, informantes e os piores tipos de gente. Afinal, com essa vida, como haveria de confiar em alguém?

Na primeira sequência do filme, a personalidade de Wilson já é traçada a partir do contraste com seus dois parceiros de ronda policial. Primeiro, vemos estes em seus ambientes caseiros acompanhados das respectivas famílias. A mulher de um deles lhe abraça, querendo que ele não vá. Já a mãe do outro detetive olha desesperançosa para sua saída. Afinal, tendo pessoas com quem se pode compartilhar afeto, ir ao trabalho significa um risco de jamais voltar para casa. Quando a buzina toca na porta, significa a violação do espaço trabalhista dentro do doméstico. Já Wilson vive solitariamente, inclusive olhando para fotos dos seus casos que precisa resolver enquanto come. Ou seja, seu ambiente doméstico é uma extensão do trabalho. Enquanto uns tem tudo a perder e uma vida além da profissão, o protagonista só conhece aquele mundo.

Para uma obra de apenas 1h20, até que o prólogo (tudo que acontece antes dele ir para o campo) de Em Cinzas que Queimam ocupa uma considerável parte do tempo, com 20 minutos de projeção. Porém, essa demora do roteiro em ir para o caso principal é fundamental para o diretor Nicholas Ray estabelecer um contraste entre campo e cidade. O ambiente urbano deste filme, como todos os noir, é sujo, marcado pelas sombras, com as únicas localizações que aparecem sendo o apartamento de bandidos, bares e vielas escuras. Igualmente, as cenas que se passam dentro do carro reforçam o sentimento a incomunicabilidade entre Wilson e a cidade através do jogo entre plano (Wilson no carro, apertado) e contraplano (o mundo estranho lá fora). Tudo que ele conhece são luzes abstratas dos postes e letreiros, o asfalto que passa em alta velocidade e as calçadas repletas de estranhos que são potenciais inimigos — com o roteiro reforçando a inimizade entre a população e a força policial.

Ainda no prólogo, um outro contraste é nos raros momentos em que o policial sai deste ambiente degradante para receber uma bronca de seu superior, por seu uso excessivo da violência. Os dois locais em que as conversas se passam são um restaurante chique e o gabinete policial. A mise-en-scène de Ray agora, opondo-se aos jogos de sombra, usa locações iluminadas e com a aparência limpa. De mesmo modo, o superior do protagonista, na cena do almoço, é mostrado caricaturalmente se empanturrando de comida, além do ator Ed Begley ser um acerto em termos de escolha de elenco, por se enquadrar bem no estereótipo do “velho acima do peso que vive no escritório”. Todas essas escolhas visuais, sem que o roteiro precise dizer uma palavra, reforçam o quão surreal é, na visão de Wilson, as ordens para que ele não use violência virem de um homem que claramente não conhece o dia-a-dia das ruas.

Não menos importante, continuando no prólogo (para vocês verem sua importância), Wilson encontra três mulheres: a jovem menor de idade no bar, a atendente do barbeiro e a namorada do bandido. Em todas as interações, o detetive se mostra estritamente profissional e alheio a qualquer jogo de sedução, com o duro rosto de Robert Ryan jamais se curvando à malícia. Inclusive, quando a atendente menciona o fato de sair com um policial, a câmera de Ray se movimenta do rosto dela para o do ator, que se vira de costas e claramente mostra desconforto diante daquela sugestão. 

Finalmente chegando ao plot do filme de fato, Wilson, após falhar em conter sua violência, é designado para um caso de assassinato em uma vila rural, precisando lidar com o pai da garota morta que quer fazer justiças com as próprias mãos. A partir deste ponto, é quase como se houve uma “readaptação” em todos os aspectos fílmicos. Em oposição aos ambientes claustrofóbicos da cidade grande, agora Ray não economiza em utilizar muitos planos gerais do personagem andando no campo com o céu e as montanhas nevadas ao fundo. O que era fechado virou expansivo, além de que, imageticamente, só o pitoresco campestre já é o suficiente para trazer um tom mais leve em oposição às carregadas sequências escuras da cidade. 

Precisando se aliar a contragosto com o pai da falecida menina, Wilson sai da função de “policial mais durão” da cidade e se coloca na posição do homem da lei moderado diante do civil que quer fazer uma justiça punitiva. Neste sentido, estar em uma posição oposta, de distanciamento, faz com que ele passe a enxergar, de fora, vendo o que aquele pai faz, os exageros antes cometidos por ele em sua insaciável busca por justiça. 

Aliás, “enxergar” é o conceito chave de Em Cinzas que Queimam, pois é a partir do encontro com a cega Mary Malden (a espetacular Ida Lupino, em uma das maiores atuações femininas da história), irmã do assassino, que Wilson muda para sempre. Voltando à questão da “readaptação”, é curioso como até o próprio “gênero” do filme parece se alterar, saindo do noir urbano para uma mistura entre realismo poético francês à Renoir e um melodrama. Se o detetive rejeitava a aproximação com as outras mulheres da cidade e consegue se abrir para Mary é justamente porque ela carrega a pureza que as outras não tinham. Em um movimento que lembra muito o encontro de Frankenstein com a cega em A Noiva de Frankenstein (1935), o fato dela não enxergar sua aparência exterior, mas sentir quem ele é, deixa aquele personagem vulnerável.

No entanto, é claro que o encontro inicial com Mary não se eterniza como um dos maiores da história do Cinema não apenas por elementos do roteiro, mas por toda a condução de Ray, como diretor — e da própria Ida Lupino, que comandou o filme quando ele esteve doente. Quando Wilson e Brent (Ward Bond) entram na casa, o contraplano da moradora não nos é oferecido, ficamos apenas com a visão dos dois homens. Depois, a câmera começa enquadrando Mary de costas, realizando seus movimentos naturalmente (afinal, mesmo cega, ela possui muito conhecimento espacial de sua moradia), até que passa a revelar seu rosto, mas como ela está sentada de costas para os protagonistas, em nenhum momento fica claro sua condição. Essa revelação gradual da cegueira é muito significativa pois Wilson, que desconfiava dela desde o primeiro momento (assim como de qualquer um), surpreende-se e vê que há ali uma pessoa finalmente sem malícia. 

Assim, será desenvolvido o gradual amolecimento de Wilson como pessoa, que vai se rendendo ao amor quando percebe que até alguém fisicamente cego consegue ser menos insensível do que ele diante da vida. Os extremos close-ups no rosto de Lupino, agora que sabemos que ela é cega (no filme), captam uma vulnerabilidade e humanidade naquela atriz que raramente foi visto no cinema, colocando o espectador na mesma posição de fascínio do protagonista. No fim, quando se vê diante das luzes da cidade que significam o vazio, a decisão de voltar é feita. Em um final extremamente poético, aquela história termina com os dois protagonistas se beijando, até que um dissolve (a passagem do plano A para o B a partir de uma fusão gradual) leva para um plano geral do céu e do campo. Das sujeiras da rua e a solidão à liberdade e a felicidade do campo. Puro bucolismo.

Cinzas Que Queimam (On Dangerous Ground, 1951) — EUA
Direção: Nicholas Ray, Ida Lupino (não creditada)
Roteiro: A.I. Bezzerides, Nicholas Ray (baseados no romance de Gerald Butler)
Elenco: Ida Lupino, Robert Ryan, Ward Bond, Charles Kemper, Anthony Ross, Ed Begley, Ian Wolfe, Sumner Williams
Duração: 82 mins.

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3 comentários

Erica 16 de novembro de 2020 - 01:18

Robert ryan sempre magnífico, ótima resenha👍

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Michel Gutwilen 16 de novembro de 2020 - 15:00

Obrigado, Erica. Já viu The Set Up (Punhos de Campeão), filme do Robert Wise onde o Robert Ryan é protagonista? Acho fantástico, tenho crítica sobre esta obra também aqui no Plano Crítico: https://www.planocritico.com/critica-punhos-de-campeao/

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Erica 17 de novembro de 2020 - 16:35

Ainda não vi mais já ouvi falar vou dar uma conferida, valeu pela dica ✌

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