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Crítica | Circle (2015)

por Fernando Annunziata
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Um tapa na cara de quem só aprecia filme de alto orçamento, Circle consegue provar que não é preciso muito dinheiro para uma produção interessante. Ambientado em um único cenário com cinquenta atores, a obra se sustenta no seu roteiro eficiente, ao passo que levanta questões importantes da sociedade moderna. Circle conta a história de 50 desconhecidos que acordam misteriosamente dentro de um círculo. No centro, um aparelho aponta para o próximo que irá morrer. Logo os integrantes descobrem que a vítima é escolhida por meio de uma votação entre eles, iniciando, assim, um jogo maléfico de manipulações.

O ponto alto do filme é o roteiro. Ele consegue cativar o espectador a acompanhar a trajetória de cada personagem, torcendo e distorcendo contra cada um deles. Com quase cinquenta personagens — “quase” porque alguns só estão lá para mostrar como o jogo funciona, ou seja, só para morrerem — o roteiro explora todos de forma adequada, sem deixar um único para trás.

É uma pena que nessa necessidade de se apropriar de todos, o roteiro se perde em construir personagens estereotipados. Encontramos o racista, o homofóbico, o religioso extremista, a criança inocente, a mãe preocupada, o ladrão, o policial. Isso seria um ponto positivo, visto que o filme precisa abordar sobre diferentes estereótipos marcantes da sociedade. Porém parece mais que está dizendo: “Veja aqui, esse é o personagem homofóbico! Olhe só, mais um comentário preconceituoso!”. Claro que, caso essa polarização não fosse evidente, um personagem acabaria sobrepondo-se ao outro, até porque temos muitos protagonistas. Em dado momento, o racista acabaria falando algo que caberia na boca do homofóbico, e assim por diante. Porém, o extremo estereótipo deixa um ar angustiante, como se tentasse coagir o espectador a acreditar que cada personagem tem apenas um tipo de pensamento.

A fotografia escura preocupa por se tratar de um filme de baixo orçamento. Acreditamos que, por causa disso, sequer reconheceremos o rosto dos personagens em meio à escuridão. Isso não acontece, entretanto. Aliás, destaco aqui uma das melhores fotografias de baixo orçamento que já assisti. Os círculos de luzes vermelhas e brancas que saem do chão de cada personagem não deixa as cenas de close-up* escuras, ao passo que consegue embaçar quem está atrás sem escondê-los por completo. Em outras palavras, enxergamos o protagonista com eficiência e sabemos quem está logo atrás dele, mesmo em um ambiente tão sombrio. Infelizmente, enquanto alguns personagens estão executando o script, quem está no fundo, sem falas, fica com cara de paisagem. Convenhamos que se você está à beira da morte e uma pessoa morre a cada 2 minutos, o mínimo a se fazer é ficar com cara de assustado.

Esse clima sombrio é acompanhado de uma trilha sonora simplória, mas que convence. Essa trilha segue as mesmas notas durante o filme todo, trazendo um ar mórbido às cenas. Sentimos, assim, que a música nos toca, causando um ar de preocupação constante, como se a qualquer momento fosse acontecer algo ruim — e de fato acontece. Junto a isso, cada morte é acompanhada de um estouro alto semelhante ao barulho de um raio. Isso, embora estejamos esperando sempre o mesmo som, causa diversos sustos ao longo da película.

SPOILERS!

Com tristeza, digo que o roteiro não é perfeito. Os personagens estereotipados são perdoáveis, porém no final encontramos dois erros graves seguidos. O primeiro é o bebê também ser considerado um integrante. Isso fura o roteiro, pois se a mulher grávida estivesse permanecido viva até o final, não teria qualquer sobrevivente, já que ou ela teria que optar por se matar, ou teria que escolher matar o feto (que causaria a sua própria morte). O segundo se encontra na última cena. Qual o objetivo de introduzir aliens em um filme de crítica social? Se ao menos eles tivessem alguma relevância ou fossem sequer explicados, mas isso não acontece. Parece que executaram o primeiro final que veio à mente.

Circle prova que não é preciso de grandes verbas para produzir um filme. Embora se perca em certos aspectos, o filme merece ser visto por todos. Aliás, filmes de crítica social nunca é demais.

Circle – EUA, 2015
Direção: Aaron Hann, Mario Miscione
Roteiro: Aaron Hann, Mario Miscione
Elenco: Julie Benz, Mercy Malick, Carter Jenkins, Molly Jackson, Michael Nardelli, Sara Sanderson, Kevin Sheridan, Cesar Garcia, Lisa Pelikan, Zachary James, Lawrence Kao
Duração: 86 min.

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