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Crítica | Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois

por Leonardo Campos
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Debate sobre o lugar do feminino em nossa sociedade contemporânea, numa abordagem filosófica com lentidão narrativa, exposição amontoada (e organizada) de alegorias, envoltos em camadas generosas de mistério. Assim é Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, filme dirigido por Petrus Cariry, cineasta que assume o texto que também assina colaboração, em parceria com Firmino Holanda e Rosenberg Cariry. Na produção, acompanhamos a trajetória de Clarisse (Sabrina Greeve), uma jovem mulher que mora em Fortaleza e precisa partir para o interior, tendo em vista fazer uma visita ao seu pai, um homem com algumas limitações por causa da idade, figura ficcional que aparentemente nos dará respostas sobre o intenso espiral de situações nada convencionais que serão vividas pela moça, sucessão de imagens sinistras que não sabemos a origem, isto é, se é parte do real ou se vem das profundas zonas da imaginação da personagem, um território claustrofóbico que foi interpretado como uma referência ao declínio da aristocracia no país.

É nessa atmosfera que Petrus Cariry constrói o seu filme que tem como um dos tantos temas, a opressão ao feminino, debate empreendido numa narrativa que flerta com o cinema de gênero brasileiro, em ascensão há algum tempo, experimentação do terror que tem crescido vertiginosamente por aqui e permitido que o nosso feixe de produção se amplie, mesmo que ainda estejamos longe de alcançar a fatia de público do mainstream. Tratado pela crítica como um dos artesãos das imagens na ficção contemporânea brasileira, Cariry foi muito bem recepcionado na ocasião do lançamento de Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, apesar da reação do público ter sido morna, em especial, por causa dos aspectos narrativos que se distanciam da padronização do início, meio e fim delineados, com tudo esquematizado e explicado para o espectador não se perder, haja vista a crença de que precisamos das informações todas processadas para consumo diante de uma obra artística. “Clarisse” passa longe desse ideal.

O que temos aqui é objetividade saindo por todos os poros do tecido narrativo do filme que o próprio Cariry fotografou, acertadamente, tendo como apoio, a direção de arte de Sergio Silveira, a trilha sonora de Herlon Robson, os efeitos visuais de Jorge Uchoa e Magno Guimarães e a importante maquiagem de Rafaela Figueiredo, setores que justapostos, tornam importante a saga subjetiva da protagonista Clarisse, uma mulher que entra num processo de instabilidade emocional depois que embarca para a visita ao pai e na viagem, resgata informações do passado que a deixam desestabilizada, situação que serve de combustível para as engrenagens de seus sentimentos sangrentos, revestidos de ódio e forte tensão psicológica. Aqui, temos um acúmulo de mensagens alegóricas que perturbam, veiculadas numa narrativa que aposta na suspensão do tempo tal como estamos habituados, clima agonizante que traz barulhos imaginários e persistência da escuridão.

Mergulhada numa sequência de dias que parecem intermináveis, Clarisse atravessa a sua jornada de sentimentos reprimidos e salvaguardas as devidas proporções interpretativas, pode ser conectada brevemente aos perfis de Carrie, a Estranha de Stephen King, levada ao cinema pelo jogo intertextual brilhante de Brian De Palma, além de haver um “quê” da agente Starling, do clássico moderno O Silêncio dos Inocentes, ilação que pode ser percebida logo na abertura, quando a narradora faz menções ao silêncio, aos animais que aparecem na neblina e durante o filme, aos sons agonizantes de criaturas que parecem atravessar um momento de abate na fazenda, em plena madrugada, sonoridade que desperta Clarisse de seu sono e a coloca em estado de perturbação. Pode não ter sido proposital, mas a relação metalinguística aqui se faz de maneira proeminente e funciona bem para quem conhece o ponto de partida, filme de 1990 ainda muito atual e recorrente na cultura de hoje. Em seus 80 minutos, a trama nos faz passear pela vida insipida de Clarisse, uma mulher sem momentos diletantes, reclusa e sem emoções consideráveis em seu cotidiano.

Ademais, o sangue surge como elemento metafórico para as transformações de um ciclo que mescla renovação e muita dor. Seu pai, interpretado por Everaldo Pontes, emula para si boa parte do mistério presente na história, pois parece representar a chave para compreendermos o que se passa com a protagonista, criada por Petrus Cariry dentro de uma lógica que nos remete ao clima dos filmes de Ingmar Bergman, tamanha a carga simbólica e subjetiva, em detrimento da esperada histeria e montanha-russa de emoções mais frágeis do cinema de entretenimento que também amamos e tal como a perspectiva filosófica de “Clarisse”, também permite debates interessantes e válidos, indo além da mera diversão. O que temos aqui é a apresentação de uma possibilidade narrativa, sem necessariamente dizer que é a melhor ou pior. É um modelo de representação, agradável ou não ao público que se interessa por conferir. De fato, poderia ser mais ágil, tendo em vista nos livrar do marasmo e ampliar o feixe de consumidores, mas se tratando de arte, é demais da conta pedir ao realizador que abdique de seus ideais para contemplar facilitações ou propostas mais confortáveis para nós, não é mesmo, caro leitor?

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois— Brasil, 2015
Direção: Petrus Cariry
Roteiro: Lucas Cassales, Thiago Wodarski
Elenco: Sabrina Greve, Everaldo Pontes, Verônica Cavalcanti, Débora Ingrid, Tábata Nery, David Wendefilm
Duração: 90 min.

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