Crítica | Cléo das 5 às 7

Tendo estreado no cinema com o longa-metragem La Pointe-Courte (1955), a cineasta belga Agnès Varda demorou sete anos até que assinasse um outro longa, tendo dirigido sete curtas-metragens nesse meio tempo. Entre a sua obra que daria o pontapé inicial para a Nouvelle Vague e este seu primeiro grande sucesso, Cléo das 5 às 7 (1962), a diretora adquiriu um domínio ainda maior do seu instrumento de trabalho, podendo explorar de forma bem mais intensa o dinamismo da vida envolto em uma atmosfera trágica, tensa e lúgubre, como a espera da morte. Ou pelo menos a suposição da morte pela protagonista, que das 17h às 18h30 do dia 21 de junho, aguarda o resultado de uma biópsia para diagnóstico de câncer.

A premissa existencial do roteiro, escrito pela própria diretora, não domina o filme de forma marcantemente depressiva, com um mergulho ou entrega a uma reflexão sem volta a respeito do fim da vida e sobre o que fazer com o pouco tempo que resta. Na verdade, essas discussões existem no filme, mas estão embrulhadas em um tom de bravura e num mix de resignação e medo iluminado, sem nunca apelar exclusivamente para um lado. Sendo uma cineasta com os pés fincados na fotografia e com grande apreço pelo documentário (a maior parte da carreira de Varda foi com esse gênero, inclusive), a artista nos faz acompanhar Cléo de maneira objetiva, visualmente marcante e plural, andando pela cidade e cumprindo os seus afazeres do dia, voltando constantemente à preocupação com o resultado do exame, mas sem fazer com que isso a paralise de algum modo.

Abrir uma discussão sobre a mortalidade tendo uma mulher como protagonista e ponto central da trama é também um recado que a própria Varda explanou ainda muito cedo em entrevistas. Não é segredo para ninguém que a diretora era uma ativista feminista e esse viés também é tratado por ela ao longo das atividades entre “5 às 7” da protagonista vivida maravilhosa e delicadamente por Corinne Marchand, especialmente quando ela recebe a visita de um compositor (Michel Legrand, responsável pela trilha sonora do filme). Ela atesta que ninguém a leva a sério porque é mulher jovem e bonita, e ainda precisa ouvir que, quando diz que está doente, na verdade “está fingindo e só quer chamar atenção“. Mais cedo, em uma cena ao mesmo tempo viva e melancólica, a protagonista olha-se no espelho e nos entrega a cartada social que, embora não seja exclusiva de seu gênero, ataca as mulheres com muito mais voracidade: “enquanto eu for bonita, estou viva“.

Ao colocar Cléo em circulação por Paris em uma das tardes mais angustiantes de sua vida, a diretora consegue manipular a perspectiva do público e também de sua personagem, não fermentando um pesar passivo pela doença, mas redescobrindo e revendo diversas coisas e pessoas como se fosse pela primeira (ou última?) vez. Há uma marca solene nessa abordagem e ao lado da partitura de Legrand a cineasta incutiu grande sensibilidade diante das coisas mais simples da cidade, criando uma atmosfera geral que não ignora o problema, mas consegue pouco a pouco encontrar a esperança no mesmo mundo que não lhe dava atenção, que lhe dizia que fingia doença e que a considerava viva apenas enquanto fosse bonita. Notem que o texto segue existencialista, mas não se furta em visitar a humanidade, a sensibilidade e a partida para a ação de todos, retrabalhando a forma como se percebe o mundo. Se na direção Varda mantinha nossa atenção viva por mudar o tempo inteiro de perspectiva, ângulo, plano, estilo de filmagem e cenários abordados, no fim do filme ela nos dá todo o espaço possível para pensar, respirar e nos reconectar com o ambiente e também com outra pessoa.

A superstição de Cléo e sua obsessão pela própria figura são tratadas na obra como adendos cômicos ou íntimos. A câmera filma inúmeros objetos e momentos onde algo de muita zorte ou azar poderia acontecer e, com a mesma câmera, vemos a protagonista diante de muitos espelhos. Essa multiplicação, quebra ou reflexos de si, porém, vai diminuindo aos poucos, à medida que ela se ocupa com outras coisas (música, cinema — com reprodução em outro corte de Os Amantes da Ponte Mac Donald, filmado um ano antes — e flerte) e vê chegar a hora de entrar em contato com o médico. As emoções e as situações são finalmente defrontadas com um sentimento diferente, via o compartilhamento de um momento ou pela fala honesta a respeito de problemas pessoais e da morte (seja por doença ou por motivos infames, como os da guerra colonial na Argélia). Mas também pela partilha terna da vida com alguém, ao menos por algumas horas, onde a companhia bem-vinda traz saúde para alma.

Há uma certa semelhança com os caminhos de Viver (1952) neste longa, mas Varda se afasta da tragédia esperada e trata a questão como um problema sério, embora não fatal. A honestidade, o realismo e o simbolismo misturados no filme aproximam a narcisista jovem do espectador, que chega ao fim desta hora e meia alcançando fazer aquilo que demoramos muito mais para conseguir na realidade: colocar os nossos problemas em perspectiva e aproveitar tudo aquilo que não faz parte desse problema, as coisas que estão à nossa volta sendo solenemente ignoradas e desperdiçadas enquanto fazemos do nosso medo e dor o ponto central da vida.

Cléo das 5 às 7 (Cléo de 5 à 7) — França, Itália, 1962
Direção: Agnès Varda
Roteiro: Agnès Varda
Elenco: Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blanck, Michel Legrand, José Luis de Vilallonga, Loye Payen, Renée Duchateau, Lucienne Marchand, Serge Korber, Robert Postec, Jean-Luc Godard, Anna Karina, Emilienne Caille, Eddie Constantine, Sami Frey, Danièle Delorme, Yves Robert, Alan Scott, Georges de Beauregard, Arthur Brunet, Jean-Claude Brialy, Raymond Cauchetier
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.