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Crítica | Clifford, o Gigante Cão Vermelho

Ou como fazer um filme infantil sem criatividade.

por Gabriel Zupiroli
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Há certos filmes que apostam em reciclar, de maneira descarada, fórmulas já muito bem estabelecidas pelo acúmulo histórico das feituras cinematográficas. Algo que sempre digo, é que não que isso necessariamente seja algo negativo, visto que é sempre possível problematizar, reciclar ou parodiar essa espécie de tradição. Entretanto, as fórmulas não deixam de ser um recurso constantemente consultado quando a proposta é fazer um filme propriamente comercial, cujas intenções de produção não perpassam minimamente essa ideia. O caso de Clifford, o Gigante Cão Vermelho, é, sem dúvida, mais um desses.

O filme se estabelece da maneira mais “Sessão da Tarde” possível: uma personagem infantil, com problemas de interação social, que utiliza o contato com o fantástico para criar uma espécie de superação em relação à negatividade imposta a si. Assim, passa a compreender e aceitar suas próprias condições em função do maravilhoso proporcionado por esse objeto surreal: no caso, Clifford, um cão vermelho que, da noite para o dia, torna-se gigantesco por conta do amor de sua dona.

Assim, trata-se de um filme que procura claramente se estabelecer nos padrões estéticos esperados para tal produção: o fantástico como elemento de identificação com o público, a comédia caricata e banal – com direito ao famoso “Wilhelm scream”, que, não nego, acaba por ser um momento genial em meio à bagunça – e a figura infantil que traça um caminho de superação em relação a sua própria condição oprimida em relação ao todo que a circunda. Por se tratar de uma obra com claros apelos infantis, é, de certa forma, bem possível que venha a ser funcional esse mecanismo de identificação com o espectador. A problemática reside justamente em pautar toda sua feitura sobre esses elementos, sem ao menos tensionar quaisquer possibilidades diferentes sob a criatividade para a fundação de algo novo.

Isso porque em Clifford, quando retiramos toda a dependência desses elementos reciclados, não enxergamos mais nada. Não existe nada, a não ser um discurso claro de aceitação das diferenças, mastigado da maneira mais impotente possível. É um filme que até, de certa forma, se faz conservador, tendo em vista as formas de se transmitir essa aceitação da diferença.

Em alguns momentos do filme, cheguei mesmo a observar algumas possibilidades de uma comédia autoconsciente em relação a sua própria condição fílmica. Mas acredito que isso não passe de interações involuntárias entre obra e pobreza criativa. Clifford, o Gigante Cão Vermelho, é um filme que surge como uma linha reta, deslocando-se de A para B e para C sem nenhum esforço a não ser o de transitar sobre os mecanismos já esperados. Em essência, faz parte de uma vasta gama de filmes dos quais podemos dizer: ali não há nada.

Clifford, o Gigante Cão Vermelho (Clifford the Big Red Dog) – EUA, 2021
Direção: Walt Becker
Roteiro: Ellen Rapoport, Justin Malen
Elenco: Darby Camp, David Alan Grier, Izaac Wang, Jack Whitehall, John Cleese, Bear Allen Blaine, Jessica Keenan Wynn, Keith Ewell, Kenan Thompson, Lynn Cohen, Rosie Perez, Sienna Guillory, Siobhan Fallon Hogan
Duração: 95 min.

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