Crítica | Climax (2018)

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Gaspar Noé é um daqueles diretores que conseguem aglutinar hordas de ódio e admiração através de seus trabalhos, o que sempre ocorre com cineastas que possuem em estilo muito peculiar e flertam ou exibem constantemente extremos narrativos. Três anos depois de Love, um de seus filmes mais pisoteados, o diretor retornou com o interessantíssimo Climax (2018), obra que em nada nega o estilo e as preferências de seu diretor, mas que diferente da película que a antecedeu, consegue entregar uma narrativa que dá suporte à proposta, nesse caso, a adaptação de mais um dos pesadelos e temores do diretor resumidos na seguinte frase: “quando um lugar seguro se torna em um verdadeiro hospício“.

A história, também escrita por Gaspar Noé, se passa em 1996, quando um grupo de dançarinos urbanos reúnem-se numa escola isolada para ensaiar um espetáculo. Depois de um dia exaustivo do que parece ter sido um dos ensaios decisivos, o grupo festeja bebendo sangria. Até que começam a agir da maneira estranha. E daí para frente, a descida aos Infernos parece nunca terminar. Filmado ao longo de 15 dias e tendo apenas cinco páginas de roteiro, o filme é um experimento que reúne dança e catástrofe, numa espécie de extrapolação dos limites da razão humana e que, em alguma medida, também dialoga com o espectador por uma aproximação simples, de uso ou observação do comportamento de quem usa drogas e muda por completo o seu comportamento.

Há uma linha de crueldade no roteiro que parece brotar diretamente dessa questão quase despreocupada: o que poderia dar errado em uma festa de dançarinos onde a droga em maior abundância e a todos oferecida era “simplesmente o álcool”? Ao optar por longos planos, Noé expande a nossa sensação de aprisionamento ou de mergulho no ambiente de dança, suor, desejo e embriaguez. Nós podemos subtrair as pequenas bobagens estilísticas do diretor (sim, eu sei que tem gente que gosta) como a maneira ~peculiar~ de começar o filme ou os créditos horrorosos em dado ponto da projeção (mas devo dizer que, a despeito daquele desfile de fontes, o momento serve como uma inteligente divisão de tonalidade para o andamento da trama, na fotografia e na maneira como a loucura se expande dali para frente, observada pela câmera) e teremos uma bem pensada sequência de eventos que nos prepara vagarosamente para algo ruim, mas a gente não tem muita certeza do quê exatamente.

Ao comentar sobre suas intenções para os dois grandes momentos da fita, o diretor disse que a primeira parte é como uma montanha russa, enquanto a segunda, é como um trem fantasma, visão que acredito ser bastante certeira, pois é justamente isso que o espectador experimenta em Climax. Após o excelente primeiro número de dança (o único coreografado do filme. Todos os outros são livre-expressões dos próprios dançarinos, com indicações do diretor para que simulassem, em alguns momentos, algum tipo de possessão), é difícil não balançar a cabeça ao ritmo da música e entrar na festa, esperando que alguém surte. Mas contrariando o que se espera dele, Gaspar Noé opta pela cuidadosa construção de um estado de viagem lisérgica evoluindo para estados mentais psicóticos, mostrado o início da “viagem” de cada um dos dançarinos, enquanto ao redor, tudo acompanha essa evolução: a trilha sonora (ou ausência dela), a fotografia e a montagem, sendo a direção a única constante estilística.

Como quase sempre nos filmes de Gaspar Noé, pululam as reclamações de que “a história não se conclui”, mas nesse caso, esta afirmação sequer tem um motivo para existir. É claro que o filme tem uma mudança um tantinho negativa no ritmo dos últimos dez minutos, inclusive caindo em repetições de dinâmica para o uso ágil da câmera, mas nada disso estraga a experiência ou nos coloca em um final inconcluso. Muito pelo contrário. A ideia de isolamento, loucura e consequências de uma noite psicótica combina perfeitamente com os “destinos finais” dados aos personagens aqui. Alguns eu até gostaria que tivessem aparecido um pouco antes, para que não gerassem pulos desnecessários nos dramas individuais, todavia, a resolução em elipse acaba tendo um resultado final coerente.

Climax é uma aterrorizante experiência que não pretende ser nada além de uma loucura confinada. Não existem os constantemente procurados significados ocultos, longos diálogos filosóficos sobre a arte ou similares. Trata-se de uma crônica nua e crua sobre instintos alterados, maximizados. Um filme sobre os monstros que os humanos também podem ser.

Climax (França, Bélgica, EUA, 2018)
Direção: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé
Elenco: Sofia Boutella, Romain Guillermic, Souheila Yacoub, Kiddy Smile, Claude-Emmanuelle Gajan-Maull, Giselle Palmer, Taylor Kastle, Thea Carla Schott, Sharleen Temple, Lea Vlamos, Alaia Alsafir, Kendall Mugler, Lakdhar Dridi, Adrien Sissoko, Mamadou Bathily
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.