Lançado sete meses depois de Chime, Cloud: Nuvem de Vingança pode ser visto como uma versão deste com menos terror — a segunda produção se inclina para o terror apenas em segundo plano. Existe em ambos os filmes a mesma orquestração do espaço asséptico em prol da construção de um mundo robótico, um universo em que a estranheza é a abordagem central, sempre estando em função de uma mistura do vazio e do inesperado. São obras sobre a indiferença em um campo dominado pela constante erupção das diferenças. O sujeito é uma coisa, o meio é a mesma coisa (tudo é mecânico), e a tensão/contradição surge da ação que é expressa; isso faz com que o extraordinário e ordinário se conjugam. Porém, o ordinário nada tem de trivial; ele não compõe o terreno do prosaico, e já é uma forma de estranheza por si. O ordinário é a apatia, e a apatia foge do comum.
Terror, suspense e ação são alguns dos gêneros mais característicos para o aspecto de estranheza. Em seus dois primeiros atos, Cloud é um trabalho de suspense, enquanto que, no último ato, torna-se um filme de ação. O tipo de tensão construída por Kiyoshi Kurosawa é tão pouco apegada à narrativa que faz com que o longa esboce uma camada de terror. A atmosfera substitui a trama, e ela é tão onipresente ao ponto de sugerir mesmo uma legítima produção de terror. Contudo, o longa retorna à ordem dos fatos, e é com base na articulação de busca, vingança, fuga e violência que tudo se desenrola. No terceiro ato, toda essa energia predomina, diminuindo os diálogos e dando uma nova caracterização aos ambientes, agora cada vez mais inquietantes.
O prólogo do filme sintetiza bem boa parte de seu todo. Ele introduz o protagonista em seu mundo, e o faz de maneira atmosférica, expondo-o com uma minúcia que é fundamental tanto para o clima quanto para o sentido de tudo ali — todas as coisas compõem um processo de coisificação. Existe um clímax já aqui, que é o penetrante zoom-in que, com uma música meio tensa, leva ao close de Yoshi. A tensão se revela uma catarse: o rapaz respira fundo, demonstra satisfação e, acima de tudo, frieza. É a primeira etapa desta coisificação (por parte do filme e do personagem), cujo estágio seguinte é a ambientação. Devido ao seu trabalho, Yoshi troca de apartamento; a partir deste momento, a fotografia e a direção de arte (envolvendo outros ambientes também) investem num cenário clean e cinzento. Aí a apatia do filme se completa de vez.
A composição de Yoshi como personagem não chega a ser a coisa mais despersonalizada do mundo, mas sem dúvidas o protagonista é meio indiferente. Essa indiferença se alinha perfeitamente à sua relação com o trabalho, que é engajada, virtual e sem escrúpulos morais. No entanto, tudo sobre o protagonista soa tão amoral; ele não parece ser um vilão (apesar da falta de carisma) e suas ações não soam tão antiéticas assim. A maneira meio distante com que o seu trabalho criminoso é apresentado colabora para isso. A produção não mostra o jogo sujo de modo escancarado, apenas vemos Yoshi trabalhando como se estivesse tudo normal. Muitos planos são apenas a interface de sites, e a exposição virtual pertence ao mesmo âmbito sem vida e automatizado do mundo real.
Quem destoa dessa postura tão contida é a namorada de Yoshi, que aparece de maneira cartunesca, basicamente um pequeno alívio cômico para o filme. Como Cloud meio que não se leva tão a sério, essa presença caricata contribui para a mesma estranheza de sua unidade. Em razão desses apontamentos, é surpreendente — e, ao mesmo tempo, faz sentido — a reviravolta da personagem, sofrida no final, quanto à violência e ao vínculo com o seu companheiro. As ligações sociais são, aliás, mais uma anomalia mecânica no universo de Cloude. De um lado, a frieza meio hostil e unilateral (Yoshi e seus clientes); do outro, uma ambivalente relação de cordialidade e desprezo (a namorada e o funcionário de Yoshi).
Cloud foi classificado como um filme de ‘’suspense psicológico’’, que parece ser um tipo de tensão interiorizada, redirecionada do encadeamento das situações para uma atmosfera mais sutil. Existe também uma dose de terror justamente por essa atmosfera sutil, como se o filme prometesse uma ameaça que nunca se concretiza. Mas o cerne desses tipos peculiares de terror e suspense não está no que se deve temer ou esperar, e sim no que já é posto e carece de normalidade. Em última instância, Cloud não promete nada. O seu sentido é o que está a todo momento em nossa cara: a estranheza pela estranheza.
Contudo, trata-se da estranheza por meio do normal, do ordinário, em vez do costumeiro anormal. A normalidade é tão indiferente que se reverbera em uma bizarra apatia. Sim, é como se o sentido de normal e anormal se invertesse. O protagonista é um sujeito isolado, as ações que constituem sua vilania são descaracterizadas, e as reações iniciais a elas são meros comentários na internet. Tudo gira em torno de uma postura retraída em que o próprio embate é a pura inexpressividade. Porém, as coisas se acumulam, e o resultado beira o insólito. (Um sinal forte disso são os justiceiros matando um inocente.) Os problemas virtuais levam a um conjunto de perseguições armadas análogas ao mais genérico filme de ação — mas que, aqui, claro, são ressignificadas. A inquietude da segunda parte completa a inércia da primeira; todos sempre agem como robôs.
Cloud – Nuvem de Vingança (クラウド) — Japão, 2024
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
Elenco: Masaki Suda, Kotone Furukawa, Daiken Okudaira, Amane Okayama, Yoshiyoshi Arakawa, Masataka Kubota, Yutaka Matsushige, Masaaki Akahori, Maho Yamada, Mutsuo Yoshioka, Yusei Mikawa
Duração: 123 minutos.
