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Crítica | Clube dos Pilantras

por Iann Jeliel
58 views (a partir de agosto de 2020)

Harold Ramis é um dos grandes nomes do cinema quando se trata de comédia, cineasta responsável por clássicos como Férias Frustradas e Feitiço do Tempo, e atuante como personagem icônico, Dr. Egon Spengler em Caça-Fantasmas, sua via cômica é bastante característica, um humor assumidamente repetitivo, em que cada repetição torna a situação da premissa cada vez mais absurda e consequentemente engraçada.

Em Clube dos Pilantras, seu primeiro filme, certamente o diretor ainda estava buscando atingir essa identidade, que se comporta apenas como um elemento isolado de uma completa desordenação de tom e incerteza de escolha para linguagem. É um daqueles casos em que se atira para todos os lados em busca do riso, apostando no potencial das situações isoladas e no dom de improviso do elenco. Chevy Chase e Bill Murray eram nomes que começavam a surgir com grande potencial na comédia, e por mais que só olhar para a cara deles já fosse engraçado, não era aqui que iriam alavancar a carreira.

Suas caricaturas não eram suficientes para sustentar e fazer funcionar todas as experimentações de Ramis, até porque o filme não é só deles, pelo contrário, eles participam muito pouco considerando a imensa gama de personagens disponíveis e que precisam ser condensados para dividirem a tela entre os 90 minutos e não conseguem espaço suficiente, nem para chamar atenção no humor, quanto menos serem desenvolvidos em quaisquer aspectos dramáticos. Não que o filme precisasse de um, mas certamente ele ameaça transgredir nessa direção em certos momentos para não tornar as piadas completamente gratuitas, como no arco do “protagonista” indeciso entre continuar apenas trabalhando ou apostar em conquistar uma bolsa na universidade… whatever.

Dentro da decupagem narrativa isso ou qualquer outra informação do gênero soa completamente irrelevante, e nem na parte mais divertida, o “coming-off age” de romances adolescentes dançando ao som de diversos clássicos musicais soa natural. As coisas vão acontecendo sem um fluxo de ideias correspondentes ao cenário, parece um stand-up, e de vez em quando o comediante extrai uma risada do palco. Isso ocorre em alguns momentos, o elemento da marmota (que ele repetiria de forma bem melhor posteriormente) e a sequência da piscina definitivamente levam a risadas autênticas, mesmo que sejam criadas à base de uma escatologia bem datada, a condução de Ramis ao adentrar nessa escatologia demonstra um pouco da versatilidade adquirida no futuro, além do seu potencial de alavancar sequências em isolado somente ao estender a reação dada ao acontecimento absurdo.

Fatalmente, há outras piadas que também funcionam, mas que dependem de uma correlação específica de seu público com o esporte, no caso, o golfe. Como o filme não é nem um pouco didático em considerar uma contextualização da piada para que aqueles não conviventes com o golfe possam rir também, acaba que fica para aquele nicho mesmo. E o pior é que mesmo pensando nessa perspectiva muito específica para justificar todo o arranjo aleatório de situações, não funciona pois o ambiente que teoricamente deveria se comportar como um personagem para ser o mote para as piadas atingirem uma coerência geral de ideias, na prática não é elaborado como um.

Sem essa diagramação do cenário, o episódico toma conta do filme de modo a transformá-lo em uma espécie de Frankenstein, onde a forma é cinematográfica, mas o conteúdo é televisivo. Acrescente a mistura estrutural de um filme setentista com elementos oitentistas, e o resultado se torna fadado ao mal envelhecimento. Então, mesmo descompromissado, não tão exagerado a ponto de ser apelativo e ser de um diretor futuramente talentoso, Clube dos Pilantras, infelizmente, por esse inúmeros fatores, não funciona mais depois de 40 anos.

Clube dos Pilantras (Caddyshack / EUA, 1980)
Direção:
Harold Ramis
Roteiro: Harold Ramis, Douglas Kenney, Brian Doyle-Murray
Elenco: Chevy Chase, Rodney Dangerfield, Ted Knight, Michael O’Keefe, Bill Murray, Sarah Holcomb, Scott Colomby, Cindy Morgan, Dan Resin, Brian Doyle-Murray, Hamilton Mitchell
Duração: 98 minutos

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