Crítica | Cobra Norato, de Raul Bopp

A serpente é um dos animais mais persistentes no bojo da memória cultural. Cobra Norato, de Raul Bopp, é um dos exemplos de sua cristalização no imaginário. O escritor, considerado pela crítica literária como um dos expoentes dos ideais antropofágicos no modernismo brasileiro, atuou ao longo de sua vida como poeta e diplomata. Circulou pelos ambientes frequentados pela elite nas primeiras décadas do século XX e vivenciou a ferveção cultural da época, permitida para quem podia consumi-la. Voltado ao que os estudos literários conceituaram como primitivismo, tendo como embasamento, considerações antropológicas, em seu poema, o modernista mergulha no estilo de vida das sociedades pré-industriais, numa trajetória pelos caminhos das reminiscências culturais que formaram o nosso projeto de nação, repleto de manifestações sublimadas, mas ainda vivas.

Lançado em 1931, Cobra Norato não foi bem recepcionado na época. Composto por versos livres, isto é, composição sem a rigidez da métrica, o primeiro livro de Raul Bopp traz na jornada expressa pelo eu-lírico emula o processo de transição da jornada do herói de Campbell, com a partida, a iniciação e o retorno, salvaguardadas as devidas adequações para o contexto de produção do escritor. Sem classificação rigorosa dentro de padrões preestabelecidos, o poema é um drama épico e mitológico situado nos confins da selva amazônica. Raul Bopp faz um estudo da região contempla suas peculiaridades folclóricas, linguísticas, mitológicas, etc. E claro, põe na prática literária as considerações do Manifesto Antropofágico, assinado por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, publicado na Revista de Antropofagia, fundada por Bopp e Antonio Alcântara Machado.

Conforme as ideias expostas no documento, a arte produzida pelos brasileiros precisava expressar a deglutição da cultura do outro externo, bem como dos “outros” internos, haja vista o nosso caldeirão multicultural, fruto dos desdobramentos das Grandes Navegações do século XVI e dos movimentos migratórios entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. A ideia, cabe ressaltar, não é a negação da cultura estrangeira, mas a busca por uma postura do poeta pela produção sem imitação. Enquanto nação emancipada, quando comparado ao status do Brasil antes do processo de independência, a nossa literatura deveria refletir suas ideias próprias, sem a submissão comum aos nossos projetos anteriores.

Acompanhamos, por meio da rica descrição do local, a história de um poeta mergulhado numa atmosfera onírica ao se inserir no interior de uma serpente e seguir rumo ao Pará, em busca da filha da Rainha Luzia, moça com quem pretende se casar. Com referências constante ao “apagar os olhos” e “pegar no sono”, o poema nos conduz por uma jornada quase surreal. Num frequente processo de antropoformização, ele relata que as árvores, supervisionadas pela mais velha, estão condenadas a fabricar folhas eternamente para a floresta. Pelo caminho, depara-se com a pesada atmosfera da selva chuvosa, sombria, arruma um tatu amigo que lhe serve de companheiro, navega por uma enchente, observa uma ação da lenda da cobra-grande, encontra a sua noiva e segue por um caminho diferente do imaginado nas narrativas mitológicas.

Raul Bopp se inspirou na lenda da cobra-grande, ou boiúna, como é também conhecida por alguns. A lenda possui várias versões e uma delas é sobre uma serpente gigantesca que pode se transformar em embarcações para enganar pescadores e leva-los para as profundezas dos caudalosos rios amazônicos. Certa vez, a serpente engravidou e dois filhos nasceram, nomeados de Honorato e Maria. Enquanto o jovem era uma criatura do bem, ela fazia maldades constantes e precisou ser eliminada pelo irmão. De vez em quando, ele ganhava a forma humana e saia do rio para conduzir os seus interesses humanos. Para quebrar o encanto, era necessário um modo de operação bem específico realizado por um homem do Pará que trouxe o homem-cobra para sempre ao contexto humano de sua existência. Há outras versões, cada uma com suas peculiaridades, mas a lendária estrutura central da serpente metade humana é o centro do mito.

Ademais, enquanto estrutura, a edição analisada é a versão da José Olympio. O projeto editorial traz xilogravuras de Ciro Fernandes para acompanhar os 33 cantos do poema épico de Bopp, editado ao longo das 96 páginas da publicação que ainda oferta duas entrevistas realizadas pela editora, em 1976 e 1978, além de um elucidativo prefácio. Considerada a publicação mais importante do Movimento Antropofágico, Cobra Norato ganhou diversas interpretações acadêmicas, além de ser conteúdo para reflexões no bojo dos componentes curriculares da educação básica, movimento que reitera o lugar do poema em nossa rica história literária. A jornada do homem-cobra interessado em revelar a sua condição humana, mais uma vez, expõe o imaginário popular em torno da serpente, animal alegórico que acompanha a tradição narrativa ocidental há eras, presença de forte carga simbólica da Antiguidade aos textos contemporâneos.

Cobra Norato (Brasil, 1931)
Autor: Raul Bopp
Editora: José Olympio
Páginas: 90

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.