Crítica | Código das Ruas

Na 37ª edição do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Foz do Iguaçu, sob a organização da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a pesquisadora Aida Rodrigues Feitosa, da UNB, apresentou um interessante trabalho sobre a relação entre Spike Lee e Stuart Hall, intelectuais do cinema e da teoria dos estudos culturais, respectivamente, pensadores que situam a cultura negra como ponto central de suas reflexões. Em seu ponto de vista, ambos os agentes do discurso percebem o “espaço” como um lugar além da função de palco para o desenvolvimento cultural, sendo mais uma parte intrínseca e “viva” para as representações que analisam.

Ao expor suas considerações, a pesquisadora abordou o telefilme Código das Ruas, lançado em 2004, uma produção que podemos considerar “menor” no currículo do cineasta. Escrito por Alex Tse, Spike Lee costura o tecido narrativo apenas na posição de diretor. Para narrar a sua história, o cineasta conta com a direção de fotografia de Cesar Charlone, responsável por circular pelos ambientes ornamentados pelo design de produção de Kitty Doris-Bates, eficiente ao erguer cenários e compor, artisticamente, os espaços que denotam a pobreza e a exclusão dos personagens, setores acompanhados pela condução musical de Terence Blanchard.

Ao longo dos 113 minutos de produção, a equipe e o cineasta fazem o possível para um trabalho minimamente relevante. O objetivo é alcançado, mesmo que Código das Ruas esteja situado há séculos de distância da composição estética de outros exemplares, tais como Febre na Selva, Faça a Coisa Certa ou Malcolm X, etc. No filme, os espectadores se deparam com a trajetória de três jovens: um branco, um chinês e um negro, Nick (Ben Crowley), Lin (Ken Leung) e Luv (Anthony Mackie). Os três vivem realidades distintas, mas estão em busca de demarcação de território. No momento em que tais existências entrecruzam, as tensões raciais ganham contornos eletrizantes, potencializadas pela constante presença da polícia, representantes da lei que aprenderam a enxergar nestes jovens o “caos” e o “perigo”, tendo como palavras-chave de suas funções cotidianas, a “eliminação” e o “extermínio”.

Eles moram em Hunter’s Point, bairro da cidade de São Francisco que possui uma história nada agradável. Somos informados pelo narrador que em 1974, a Marinha dos Estados Unidos deixou uma enorme quantidade de famílias desempregadas ao desalojar o estaleiro local, tendo ainda abandonado um legado pavoroso, isto é, porções de lixo tóxico, elementos responsáveis por demarcar a região como local com índice mais alto de câncer em toda a nação. Importante observar que muito além de ser pano de fundo, este espaço cênico é um grande agente influenciador do gerenciamento dos conflitos dramáticos que gravitam em torno da existência de personagens em tamanha rede de tensão.

Outro ponto de convergência narrativa é o Mission District, bairro que historicamente abrigou muitos imigrantes, ambiente alvo do trator chamado “especulação imobiliária”, responsável por expulsar muita gente para abrir espaço para a chegada dos novos ricos emancipados. Há ainda a Chinatown, ambientação de Lin, uma das primeiras do país, oriunda da imigração de chineses que vieram aos Estados Unidos em 1840, atraídos pelas ofertas de trabalho na construção de ferrovias e extração de minérios. Tais espaços, em consonância com o tempo da narrativa, apresentam-se para nos fazer compreender como se desdobram os mecanismos que engendram as relações raciais nos grandes centros urbanos do século XXI.

São jovens negros revistados com truculência pela polícia treinada para ser desconfiada; crianças envolvidas em tráfico de drogas; jovens que não enxergam a possibilidade ascensão por meio da educação, haja vista outros caminhos aparentemente mais fáceis, dentre outras reflexões comuns na carreira cinematográfica de Spike Lee. Sabemos que o avanço dos centros urbanos agravou as questões ligadas ao crescimento da violência, juntamente com a força da “cultura do medo”, perpetrada diariamente pela mídia sangrenta e sensacionalista.

É um gigantesco mecanismo de reprodução de preconceito racial e social que culminam nos jovens negros ceifados diariamente em escala global, num problema que não acomete apenas nos estadunidenses, ou para maiores ilustrações, os brasileiros. Nos anos 1980 foi Rodney King, recentemente tivemos James Roberson, homem negro que interceptou a ação destrutiva de um atirador em massa num bairro situado em Chicago. Deveria ser herói, não é mesmo? Pois bem, ele manteve o criminoso imobilizado até a chegada da polícia desavisada, agentes que num ataque de fúria, mataram Roberson e logo depois, prenderam o atirador branco. Eis um retrato fiel do que podemos conceber como atual “código das ruas”, segregado e violento, uma sequência de regras que mantém muitos de nós, inclusive eu, que vos escrevo, um “privilegiado consciente”, ileso.

Diante do exposto, você que trata a questão racial como vitimização, ainda consegue ter algum argumento convincente para solapar o racismo?

Código das Ruas (Sucker Free City, Estados Unidos – 2004)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Alex Tse
Elenco: Daniel Chapman, Ben Crowley, Darris Love, Laura Allen, T.V. Carpio, Kathy Baker, Ewan Chung, James Hong, Judy Pace, Stanford Chase, Emilio Rivera,
Duração: 113 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.